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Mais velhos e mais sensíveis

Wembley 17 11 15

Na tela da minha TV, vejo o protocolo do jogo amistoso Inglaterra x França em Wembley. O estádio britânico está vermelho, azul e branco, por dentro e por fora. A plateia cantou a Marselhesa, franceses e ingleses em uníssono. Povos com uma história de antagonismo se solidarizando na dor. Deu um nó na garganta. Estou emocionado outra vez.

Com a modernidade, a tecnologia, a globalização, enfim, a mídia eletrônica, os acontecimentos nos atropelam. Em 1963, demorei pelo menos algumas horas para ter acesso ao assassinato de John Kennedy, Embora menino, eu sabia que o Kennedy era muito importante.

Passadas algumas décadas, vi guerras em tempo real. Bombardeios, atentados e massacres nos invadem pela tela de melhor resolução dos celulares. A velocidade do impacto pode ser devastadora, tal o sobressalto dos novos conceitos e velhos preconceitos.

Vamos ficando mais velhos e mais sensíveis, não necessariamente nessa ordem. Não sei se pelo desânimo da falta de mudanças esperadas, pela noção de aproximação do fim ou por ambas. Observo, à medida que o tempo passa e vai se escasseando, as emoções reverberando de uma forma diferente.

Sempre fui emotivo, talvez o meu traço mais marcante. Agora essa característica se evidenciou muito. O desafio de encarar as vicissitudes, de superar cada tapa na cara que a vida nos dá, intimida a alma trucidada pela intolerância, pela ignorância, pela absoluta inexistência de humanidade em seres ditos humanos.

Fui vizinho da pobreza por boa parte da minha vida, me relacionei com a dificuldade aguda, vi o tráfico de perto e testemunhei histórias de superação emocionantes. Ao meu redor uma fábrica de postes se transformou em Catedral, enquanto a dualidade religiosa se pulverizou em correntes distintas e não menos crédulas do que as mais antigas. Em sua verdadeira essência, através dos séculos buscaram o poder. O amálgama da minha formação confrontou-me com extremos da sociedade, definindo meu caminho sob uma ótica difusa e plural.

Ontem, para escapar desse fogo cruzado instalado em cada canto do mundo, busquei refúgio no primeiro filme que assisti numa tela de cinema. Até 1965, eu só entrara nas salas de projeção para os festivais Tom e Jerry. Foi quando estreou “A Noviça Rebelde” e me levaram para uma sessão de cinema de verdade. A magia da telona fez o musical se impregnar de tal maneira em meus olhos, em minha mente, em minha alma, que o vírus da música se inoculou sem antídoto em meu sangue desde então. Na moldura do quadro, as imagens paradisíacas da Áustria em pré-ocupação nazista e um grupo de artistas memoráveis, destaque para Julie Andrews e Christopher Plummer. Sonhei com um mundo melhor a partir daquele filme.

Só mesmo um mergulho na história da minha existência, um reencontro com as mais doces lembranças de minhas origens, poderia aplacar a tristeza residente após os trágicos acontecimentos em Paris. No vazio dos meus sonhos ecoaram os tiros da truculência do fanatismo planetário. Os estampidos foram os mesmos presentes nas agressões diárias da nossa realidade tupiniquim, nas esquinas dos grandes centros brasileiros. Os nossos Bataclan, Petit Cambodge, Carilon, Stade de France se destroçam dia após dia, alvejados pela insegurança, pelas diferenças sociais, pela saúde maltratada, pela falta de ensino. As mazelas europeias se diferenciam das nossas pela motivação.

Aqui são filhotes do cruzamento da corrupção espraiada com a falta de caráter dos governantes, com os quais empresários dividem o butim em cima dos caixões do povo, dos animais, dos rios, das matas. O desastre ecológico perpetrado pela Samarco/Vale do Rio Doce exigirá séculos para recuperação daquela região atingida. Reincidente impune, fala-se agora numa multa de 250 milhões de dólares à Samarco/Vale do Rio Doce. Para escapar de punição maior, J. Hawilla e sua Traffic fizeram um acordo com a justiça americana e devolverão 470 milhões de dólares dos seus fabulosos lucros pela compra de dirigentes esportivos ao redor do mundo. Quem fez pior à humanidade, a Samarco/Vale do Rio do Doce ou a Traffic?

Mariana arrasada

Enquanto Mariana, sua gente, seus animais, rios e matas estão cobertos de uma lama de dejetos de minério, a Cidade Luz está coberta pelas sombras do terror retaliando contra inocentes. No Brasil há trevas antigas onde os inocentes sofrem com a pusilanimidade de quem governa. Em ambos os casos, por razões e motivações diferentes, embora da mesma forma espúria, não existe apreço pela Liberdade, pela Igualdade, pela Fraternidade. Estão cegos pelo interesse pessoal, num ideário particular, radical e extremado. Os fundamentos de desumanidade se confundem. Paris foi atacada pelo terror no atacado. O Brasil é atacado por um terror no varejo.

Minha afilhada querida, católica convicta, postou dia desses: Imagina esses imbecis que se explodem em nome de Deus, se os ATEUS estiverem certos? Fico rindo das certezas das pessoas religiosas, SEM TER PROVA NENHUMA. Ninguém tem as respostas, apenas conjecturas.

Quem sabe o mundo pudesse escutar um pouco mais de “The Sound of Music”, ainda que hoje na voz da Lady Gaga. Talvez assim todo esse pesadelo se transforme no antigo sonho de um menino de nove anos. Ele quer me abraçar como a Lady Gaga abraçou a Julie Andrews. Em cinquenta anos os tempos mudaram para ele. Está muito mais sensível.

Climb every mountain, Ford every stream,
Follow every rainbow, ‘Till you find your dream.

A dream that will need, All the love you can give,
Every day of your life, For as long as you live.

[youtube]https://youtu.be/vdqYmSf6tiE[/youtube]