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A consciência tem todas as cores

Não podemos nos restringir a apenas uma cor de consciência.

Muito menos dedicar um dia a uma cor de consciência.

A consciência tem muitas cores, tem todas as cores, todos os povos, todas as raças, todas as etnias, todos os dias. Sofrem o açoite social negros, pardos, amarelos, vermelhos, brancos, sem distinção.

Os exemplos se multiplicam dia a dia, em experiências as mais variadas, em locais diferentes, em circunstâncias distintas, situações anômalas nas quais minorias viram maiorias e vice-versa.

Estimulados por integrantes do Centro de Estudos Phoenix, ramificação do Projeto Patriarca, conhecemos ontem uma obra maravilhosa denominada Casa de Apoio Alegria.

A ideia era apadrinharmos uma criança ou adolescente dentre tantas a esperar por um presente de Natal. Na relação nos chamou a atenção a existência de nomes sem foto e foram dois deles os escolhidos, um menino de 15 e uma menina de 16 anos. Nossa incumbência foi comprar roupas para ambos e ontem fomos até a Casa de Apoio Alegria para entregar os presentes.

Lá conhecemos o nosso contato, a voluntária Angela Gandra, e a idealizadora do projeto, Márcia Damasceno. Foi enriquecedor visitar o local, com todos os cuidados de higiene, verificando de perto o amor e a dedicação das voluntárias no apoio aos jovens carentes e seus respectivos familiares.

Numa conversa com a Márcia, descobrimos uma história nobilíssima. Essa mulher, um ser humano raro, vive em função da assistência e da educação das crianças, numa imersão permanente na vida de todos.

Várias vezes marejamos os olhos ao tomarmos ciência de casos emocionantes de verdadeiros resgates, intercedendo por vidas descaminhadas, tragédias pessoais, abusos de toda a natureza, independentemente de sexo, idade ou cor.

A coordenadora chegou a morar numa comunidade carente da zona oeste, para se aprofundar nos problemas e se aproximar de fato das almas necessitadas de auxílio material, moral e psicológico.

Sensibilizamo-nos demais com relatos impressionantes e com a abnegação dessa guerreira anônima, cumpridora exemplar da missão de ser humano iluminado. Através dessa experiência pudemos observar in loco a absoluta exigência de atrair outros apoios para um trabalho de tamanha importância.

Se a Casa de Apoio Alegria, e tantas outras instituições sérias, não resolverão sozinhas os problemas da desigualdade social, estão minimizando a extensão dos mesmos.

E mais, nos impõem a irrefreável disposição de arregaçar as mangas e incorporar o espírito de solidariedade, contribuindo da forma possível.

Para o apadrinhamento de crianças para o presente de Natal, o prazo é até 02/12/2020. Outras ajudas serão sempre muito bem-vindas, a qualquer momento.

Assim, quem puder se engajar nesse esforço maiúsculo, é só acessar:

E-mail: casaapoioalegria@gmail.com, o Facebook (@casadeapoioalegria) ou o Instagram (@alegriacasadeapoio).

Mergulhe no mundo especial da Casa de Apoio Alegria e veja como pode ajudar!

A consciência não tem uma cor nem apenas um dia.

A consciência precisa ser permanente, em todas as cores, raças, credos, etnias e povos.

 

 

O resgate do Facaamolada

O resgate do Facaamolada

Há meses busco recuperar esse espaço para a disseminação das minhas ideias e me sobrepor à pandemia. Há meses busco recuperar esse meu espaço para disseminação das minhas ideias e me sobrepor à pandemia. Lutei com bravura, enfrentando monstros virtuais e barreiras no atendimento. Ameaçado por esses dragões cibernéticos, recuei algumas vezes, apenas por estratégia. Desistir jamais passou pela minha cabeça.

E aqui estou, arranhado no ego e íntegro na alma. Já não são muitas as motivações a me moverem, as mais relevantes me colocam em teste com relativa e incômoda frequência. Reconheço sinais de cansaço moral, tolhendo ainda mais a vitalidade de um corpo sexagenário em transição para ocaso. É a fase da vida na qual cada dia normal passa a ser uma dádiva. Abrimos os olhos pela manhã sem decifrar o mistério de permanecermos vivos. E isso, por si só, me parece estimulador e definitivo.

Mesmo diante de um vírus frenético, responsável pela mudança radical no comportamento mundial. Nos vimos transportados à Idade Média, assombrados com os 25 milhões de mortos pela peste bubônica, entre 1347 e 1353. Ela também iniciou na China e se espraiou depois pelo mundo. Ou tememos algo qual a Gripe Espanhola, surto mundial entre 1918 e 1920, ceifando mais de 20 milhões de almas.

A humanidade, a exemplo daqueles momentos nefastos, vem perdendo vidas de faixas etárias as mais diversas. Nem por isso vemos a necessária conscientização para confrontar um inimigo insidioso e invisível. Ele nos armou ciladas, traiçoeiro, cruel, pérfido. Entretanto, as pessoas parecem continuar considerando as notícias exageradas e seguem circulando descuidadas. Pior, aglomeradas aqui e acolá. A senhora com a foice está muito satisfeita.

Entrincheirado atrás do computador, e ainda sem a vacina, luto com as armas disponíveis: as informações, a ciência e o bom senso. Tenho feito a minha parte, o problema são os outros. Inspirado em Don Quixote, segundo os céticos, travo o bom combate contra os meus moinhos de vento.

Até agora, estou vencendo.

Mais um FLA x flu

Pai, bom dia. Tudo bem por aí?
Mais um FLA x Flu decisivo, parecido com aquele de 15/12/63, e eu estive no Maracanã.
Agora transmitem pela TV a cabo, uma novidade dos tempos atuais.
Em razão de um litígio pelo valor a ser pago ao Flamengo, não houve transmissão.
Aliás, depois de sua passagem em 1972, houve muitas inovações.
Só a título de exemplo, tenho um pequeno aparelho com 1001 utilidades e não é o Bombril.
Com ele vejo TV, jogos e filmes, escuto rádio, compro de tudo, transfiro dinheiro, faço fotos e vídeos, consulto enciclopédias melhores do que a Barsa e a Mirador juntas, em qualquer idioma, não preciso perguntar nada a ninguém, nem o caminho para qualquer lugar. Até uso como telefone, mesmo em movimento, não importa aonde eu esteja.
Impressionante, não?
A ciência também evoluiu demais na área médica e faz tempo mantenho a minha pressão em 12:8, através de modernos medicamentos. Teria sido ótimo para você.
Enfim, tem sido gigantesco o progresso da tecnologia e das ciências em geral.
Só o que não evoluiu foi o ser humano.
Ao contrário, regrediu a níveis impensáveis e sem limites. A cada dia pioram a humanidade em geral e os políticos em particular.
Também só a título de exemplo, outro dia mais uma vez me deprimi numa das centenas de fast food do RJ.
Fast food é um bar especializado em lanches rápidos e diversos, funcionando em lojas amplas e facilmente acessíveis.
E lá estava eu fazendo um lanche, quando entrou um rapaz para se esconder da chuva. E embora bem longe da praia, estava descalço e sem camisa. Entrou na lanchonete disfarçadamente, se esgueirando pelas mesas até chegar a uma lixeira.
Selecionou restos de comida e escolheu um copo julgado menos sujo ou mais higiênico. Foi até a máquina de refrigerantes (outra hora lhe explico o que é isso) e encheu o copo como se tivesse pago.
Saiu muito rápido sem dar tempo de ser interpelado, nem por algum cliente que pretendesse pagar um lanche decente para ele.
Pois é, pai. Lembrei de lhe ver pagando refeições a estranhos, mas em raras situações.
Hoje, a cena carioca é ocupada por milhares de pedintes esfomeados, velhos e jovens, mães menores de idade e crianças subnutridas. Imagine a cena de outras cidades.
O esgoto, mesmo aqui no RJ, corre a céu aberto e a água do Guandu, maltratada em todos os sentidos, não se pode mais beber.
Enquanto isso, vemos ricos mais ricos e pobres muito mais pobres, a começar das nações.
A África, e não mais apenas ela, está tragicamente espoliada.
Enfim, a raça humana se mostrou um projeto mal sucedido, com as diferenças absurdamente maiores.
Inclusive no futebol, onde o Flamengo se distanciou um abismo dos seus adversários.
Mas esse esporte gosta de aprontar surpresas, você sabe, e por isso fui ao Maracanã. Fui apoiar o MENGÃO. Eu e a maioria esmagadora presente ao estádio, para variar.
Vocês jogavam pelo empate, o inverso de 1963, e isso deu mais emoção ao clássico.
É quando viajo ao passado, à minha infância fantasiosa, à minha adolescência criativa, à minha juventude sonhadora, quando pensava possível mudar o mundo para melhor.
Naquela época, pelo menos, o Maracanã era frequentado por todos, o povão pagava pouco pela Geral e às vezes conseguia ir de Arquibancada.
Assistiu o jogo, pai?
Gostei demais.
Lembro sempre de você.

Com a força dos orixás

Tenho a satisfação sadia de me dopar de Flamengo. Uso e abuso do meu clube de coração, inoculando doses maciças dele nas minhas já obstruídas veias, com a esperança de apaziguar a alma e ter a força necessária de continuar a caminhada.

Ao contrário de outras drogas nefastas e insalubres, o torpor das vitórias e o êxtase nas conquistas disfarçam a tristeza das perdas da vida, o insucesso em campos diferentes, as supostas injustiças do destino. A diferença é que o Flamengo não me destrói o corpo, nem corrói as minhas sinapses. Ele me abastece de energia positiva, me atenuando a dor.

A exemplo de todas as lutas, a vida golpeia muitas vezes de forma violenta, abrupta e inesperada. O pior golpe é o inesperado, desferido com força desproporcional por agressor improvável.

O meu final de ano, a despeito das grandes e lisérgicas vitórias do meu clube de coração, não foi feliz. Vivi a amargura de reveses inesperados. experimentei julgamentos duríssimos e devastadores, me surpreendi com a voracidade de críticos surpreendentes. Confesso ter me abatido demais, até agora não me recuperei. Mas é preciso seguir em frente, a vida continua.

Refeito das alegrias rubro-negras e das tristezas impiedosas, a folhinha se repagina e não temos tempo para lamentar. Ao contrário, nessa minha fase da caminhada o que rareia mais é exatamente o tempo. Estou convicto de minhas imperfeições tanto quanto das minhas virtudes. Buscar o aprimoramento permanente jamais deixou de ser um dos meus principais objetivos.

E 2020 está aí para me permitir continuar essa obra. Sempre haverá o que fazer, por mim ou por alguém. O que me não me parece incompatível com as minhas crenças, com os meus hábitos e com os meus prazeres. Através deles me reabasteço, me reenergizo, me reconforto. E encontro forças para ir adiante.

Tem sido assim nesses quase 64 anos, desde o Alfredinho Carrapa e a Fufiralfa, respectivamente, meu amigo e minha namorada invisíveis, quando ainda bem menino. Olho para trás, observo o meu entorno, reflito e me anima o tanto construído com muita fé, redobrado esforço, persistência inabalável, um pouco de talento e bastante sorte. Talvez possa mesmo considerar um legado, o que me faz supor que nem tudo esteja errado. Ou seria toda a obra de responsabilidade alheia?

Tomara que não, pois a minha habilidade de enganar seria tamanha a ponto de enganar a mim mesmo. Só o tempo irá responder isso. E, se a fé me sustenta, 2020 tem a regência de Xangô. Deus do fogo, do trovão e da  justiça. Orixá atrevido e violento, Xangô ficou conhecido por castigar malfeitores. E eu continuo tendo fé.

Eu teria um desgosto profundo…

Nosso hino foi tão caprichado pelo Lamartine que poderia ser definido num verso: Eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo. Mas o brilhante compositor se esmerou e fez uma obra-prima, na letra e na melodia. E encerrou com a pérola: Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Aí divirjo do poeta. Serei Flamengo após morrer, serei Flamengo em todas as minhas próximas reencarnações.

2019 foi um ano para se recordar em futuras encarnações. Para os descrentes, até os últimos dias dessa passagem por aqui.  Vale para cada rubro-negro, as crianças, os adultos, os idosos, os muito idosos. Sempre acompanha o torcedor do Flamengo uma aura de otimismo desenvolvida por mais de um século de conquistas memoráveis, de alegrias gigantescas, de vitórias consagradoras. A alma rubro-negra se reveste de um estado de espírito único. A anima da Imensa Nação é um conceito filosófico regido pela anima do multiverso, uma força indescritível. Diz-se que o rubro-negro se suicida pulando do alto do seu ego, tal qual os argentinos.

Segundo o incomparável Nelson Rodrigues, “Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda, mais dilacerada ou mais santa. Só sei que é diferente”.

Grito MENGO aos quatro cantos do mundo desde aquele distante 15/12/1963, quando presenciei a decisão do Carioca, na minha primeira visita ao Maracanã. Comecei naquele dia, nos ombros do meu contrariado pai, no Maior Estádio do Mundo. Ele, tricolor, filho de portugueses, a exemplo do clã dos Coimbra. Eles, rubro-negros lusitanos, geraram e criaram o nosso ídolo maior, Arthur Antunes Coimbra, o Zico.

De lá para cá gritei “É CAMPEÃO” vezes incontáveis, por toda a minha vida. Vi o time espetacular do Zico ganhar tudo em 1981, eternizando o ano de nascimento da minha primogênita. Vi o timaço de 1987 desfilar craques de seleção do goleiro ao ponta-esquerda e conquistar, contra adversários de alto nível, um título que a burocracia jamais vai nos tirar.

Já me sentia quase um Highlander em vermelho e preto, quando o destino agora me propiciou outra enorme felicidade. Vivi para ver o meu clube de coração dar um salto de qualidade e voltar a ser uma potência mundial no esporte. E quis o destino, numa incrível reviravolta da história, que fosse nosso guia um português, neto de brasileira, de nome Jesus e com Deus de auxiliar. E Jesus vestiu o Manto Sagrado para nos conduzir aos céus ou rumo às estrelas, ad astra em latim, como um dos bons filmes desse ano.

Antes, o meu Flamengo saneou suas dívidas enormes e antigas para pavimentar uma trajetória ainda mais significativa do que eu julgara possível. É o nirvana dos torcedores apaixonados, a glória maior de quem sobreviveu a um país que permanece insepulto depois de assassinado pelos corruptos.

Vivo o êxtase de ter o Flamengo no coração, um órgão pulsando num corpo a se desviar das balas perdidas numa cidade maravilhosa por natureza, mas dizimada pelos governantes e pelo povo. Um paraíso destroçado pela falta de educação, pela inexistência de cidadania, pela tirania da violência urbana. Sobrevivo num país desigual, onde um povo sofrido espera inerte por uma milagrosa transformação estrutural semelhante à providenciada pelo Flamengo

Dizem ser o futebol a mais importante das coisas desimportantes. Aos 63 anos, desiludido com o meu país, com a minha cidade e com a inércia do povo brasileiro, tenho o Flamengo como válvula de escape. Eu e quase cinquenta milhões de rubro-negros. Talvez por isso as coisas não mudem. Ou quem sabe o modelo do clube mais popular do planeta sirva de inspiração para mudarmos a história?

Esse magnífico e antológico 2019 findou após nos brindar com quase todas as conquistas possíveis. Mesmo reconhecendo a tristeza de uma derrota como a da final do Mundial, mostramos ao planeta a força do futebol brasileiro.

Depois de décadas, um time sul-americano enfrentou o melhor europeu de igual para igual, até a prorrogação. Não jogamos qual morcegos, com os onze dependurados em nossa trave a aguardar um contra-ataque mágico. Nós, os melhores do continente, confrontamos um time reunindo os melhores jogadores do mundo e vendemos caro a derrota.

Maior tristeza do que perder uma final de outro patamar é ver 2019 acabar. Entretanto, a causa é justíssima.

Embora Einstein rotulasse o tempo de ilusório, ele passa e nós também.

Assim, que venha 2020.

E agora, Flamengo, o seu povo pede tudo de novo.