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Com a força dos orixás

Tenho a satisfação sadia de me dopar de Flamengo. Uso e abuso do meu clube de coração, inoculando doses maciças dele nas minhas já obstruídas veias, com a esperança de apaziguar a alma e ter a força necessária de continuar a caminhada.

Ao contrário de outras drogas nefastas e insalubres, o torpor das vitórias e o êxtase nas conquistas disfarçam a tristeza das perdas da vida, o insucesso em campos diferentes, as supostas injustiças do destino. A diferença é que o Flamengo não me destrói o corpo, nem corrói as minhas sinapses. Ele me abastece de energia positiva, me atenuando a dor.

A exemplo de todas as lutas, a vida golpeia muitas vezes de forma violenta, abrupta e inesperada. O pior golpe é o inesperado, desferido com força desproporcional por agressor improvável.

O meu final de ano, a despeito das grandes e lisérgicas vitórias do meu clube de coração, não foi feliz. Vivi a amargura de reveses inesperados. experimentei julgamentos duríssimos e devastadores, me surpreendi com a voracidade de críticos surpreendentes. Confesso ter me abatido demais, até agora não me recuperei. Mas é preciso seguir em frente, a vida continua.

Refeito das alegrias rubro-negras e das tristezas impiedosas, a folhinha se repagina e não temos tempo para lamentar. Ao contrário, nessa minha fase da caminhada o que rareia mais é exatamente o tempo. Estou convicto de minhas imperfeições tanto quanto das minhas virtudes. Buscar o aprimoramento permanente jamais deixou de ser um dos meus principais objetivos.

E 2020 está aí para me permitir continuar essa obra. Sempre haverá o que fazer, por mim ou por alguém. O que me não me parece incompatível com as minhas crenças, com os meus hábitos e com os meus prazeres. Através deles me reabasteço, me reenergizo, me reconforto. E encontro forças para ir adiante.

Tem sido assim nesses quase 64 anos, desde o Alfredinho Carrapa e a Fufiralfa, respectivamente, meu amigo e minha namorada invisíveis, quando ainda bem menino. Olho para trás, observo o meu entorno, reflito e me anima o tanto construído com muita fé, redobrado esforço, persistência inabalável, um pouco de talento e bastante sorte. Talvez possa mesmo considerar um legado, o que me faz supor que nem tudo esteja errado. Ou seria toda a obra de responsabilidade alheia?

Tomara que não, pois a minha habilidade de enganar seria tamanha a ponto de enganar a mim mesmo. Só o tempo irá responder isso. E, se a fé me sustenta, 2020 tem a regência de Xangô. Deus do fogo, do trovão e da  justiça. Orixá atrevido e violento, Xangô ficou conhecido por castigar malfeitores. E eu continuo tendo fé.

Eu teria um desgosto profundo…

Nosso hino foi tão caprichado pelo Lamartine que poderia ser definido num verso: Eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo. Mas o brilhante compositor se esmerou e fez uma obra-prima, na letra e na melodia. E encerrou com a pérola: Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Aí divirjo do poeta. Serei Flamengo após morrer, serei Flamengo em todas as minhas próximas reencarnações.

2019 foi um ano para se recordar em futuras encarnações. Para os descrentes, até os últimos dias dessa passagem por aqui.  Vale para cada rubro-negro, as crianças, os adultos, os idosos, os muito idosos. Sempre acompanha o torcedor do Flamengo uma aura de otimismo desenvolvida por mais de um século de conquistas memoráveis, de alegrias gigantescas, de vitórias consagradoras. A alma rubro-negra se reveste de um estado de espírito único. A anima da Imensa Nação é um conceito filosófico regido pela anima do multiverso, uma força indescritível. Diz-se que o rubro-negro se suicida pulando do alto do seu ego, tal qual os argentinos.

Segundo o incomparável Nelson Rodrigues, “Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda, mais dilacerada ou mais santa. Só sei que é diferente”.

Grito MENGO aos quatro cantos do mundo desde aquele distante 15/12/1963, quando presenciei a decisão do Carioca, na minha primeira visita ao Maracanã. Comecei naquele dia, nos ombros do meu contrariado pai, no Maior Estádio do Mundo. Ele, tricolor, filho de portugueses, a exemplo do clã dos Coimbra. Eles, rubro-negros lusitanos, geraram e criaram o nosso ídolo maior, Arthur Antunes Coimbra, o Zico.

De lá para cá gritei “É CAMPEÃO” vezes incontáveis, por toda a minha vida. Vi o time espetacular do Zico ganhar tudo em 1981, eternizando o ano de nascimento da minha primogênita. Vi o timaço de 1987 desfilar craques de seleção do goleiro ao ponta-esquerda e conquistar, contra adversários de alto nível, um título que a burocracia jamais vai nos tirar.

Já me sentia quase um Highlander em vermelho e preto, quando o destino agora me propiciou outra enorme felicidade. Vivi para ver o meu clube de coração dar um salto de qualidade e voltar a ser uma potência mundial no esporte. E quis o destino, numa incrível reviravolta da história, que fosse nosso guia um português, neto de brasileira, de nome Jesus e com Deus de auxiliar. E Jesus vestiu o Manto Sagrado para nos conduzir aos céus ou rumo às estrelas, ad astra em latim, como um dos bons filmes desse ano.

Antes, o meu Flamengo saneou suas dívidas enormes e antigas para pavimentar uma trajetória ainda mais significativa do que eu julgara possível. É o nirvana dos torcedores apaixonados, a glória maior de quem sobreviveu a um país que permanece insepulto depois de assassinado pelos corruptos.

Vivo o êxtase de ter o Flamengo no coração, um órgão pulsando num corpo a se desviar das balas perdidas numa cidade maravilhosa por natureza, mas dizimada pelos governantes e pelo povo. Um paraíso destroçado pela falta de educação, pela inexistência de cidadania, pela tirania da violência urbana. Sobrevivo num país desigual, onde um povo sofrido espera inerte por uma milagrosa transformação estrutural semelhante à providenciada pelo Flamengo

Dizem ser o futebol a mais importante das coisas desimportantes. Aos 63 anos, desiludido com o meu país, com a minha cidade e com a inércia do povo brasileiro, tenho o Flamengo como válvula de escape. Eu e quase cinquenta milhões de rubro-negros. Talvez por isso as coisas não mudem. Ou quem sabe o modelo do clube mais popular do planeta sirva de inspiração para mudarmos a história?

Esse magnífico e antológico 2019 findou após nos brindar com quase todas as conquistas possíveis. Mesmo reconhecendo a tristeza de uma derrota como a da final do Mundial, mostramos ao planeta a força do futebol brasileiro.

Depois de décadas, um time sul-americano enfrentou o melhor europeu de igual para igual, até a prorrogação. Não jogamos qual morcegos, com os onze dependurados em nossa trave a aguardar um contra-ataque mágico. Nós, os melhores do continente, confrontamos um time reunindo os melhores jogadores do mundo e vendemos caro a derrota.

Maior tristeza do que perder uma final de outro patamar é ver 2019 acabar. Entretanto, a causa é justíssima.

Embora Einstein rotulasse o tempo de ilusório, ele passa e nós também.

Assim, que venha 2020.

E agora, Flamengo, o seu povo pede tudo de novo.

Ecos do passado

 

Poucos conhecem a Ann Wilson, somente os iniciados. A vocalista da banda Heart, muito menos. Alguns talvez se recordem do riff de Barracuda, hit dos anos 70, na vibrante guitarra da Nancy Wilson, irmã da Ann. Pois elas ficaram mais conhecidas agora após uma emocionante homenagem ao Led Zeppelin. Convidadas por Jason Bonham, filho do espetacular baterista John Bonham, as duas fizeram as lágrimas rolarem nos rostos enrugados de Plant, Page e Jones numa interpretação antológica de Stairway to heaven, no Kennedy Center Honors, em 2012. Certamente, há os que admirem a apresentação sem sequer saber a história musical das irmãs.

Ecos do passado mexem muito conosco, a experiência e os cabelos branqueados não nos escudam o coração de fortes emoções. Ao contrário, enternecidos pela magia de imagens resgatadas e por sons reverberados pelo túnel do tempo, viramos presas fáceis do sentimento aflorando de maneira incontrolável.

Os encontros reunindo amizades longevas, quase sexagenárias, também reverberam sons e imagens do passado. Assim vivemos as reuniões de inacianos da turma de 1974. Não importa se três, quatro, quinze ou duzentos comparecem, se há desafetos, desaparecidos ou dissidentes de última hora. A aura de um tempo eternizado pelas reminiscências toma conta de ambientes grandes ou intimistas, não há métrica para catarses indescritíveis.

Assim transcorreu o almoço na sexta-feira passada. Muitas estórias, muitas gargalhadas, muitas lembranças, muita história. E quase não fui. Mas o coração falou mais alto e dessa energia nos alimentamos para continuar a caminhada, numa troca permanente com o destino de cada um, às vezes melhor, outras nem tanto. Mas todas nos fizeram subir numa escada para o céu.

Na verdade, quando se trata de essência, não somos os personagens que queremos ser, somos o que somos.

Valeu demais, de novo, rapaziada!

Raça fracassada

Desde os primórdios da civilização, o homem se esmera em destruir. Não importa o quê, natureza, meio-ambiente, vidas, monumentos, ideias ou esperanças. Mesmo antes de Abel, o ser humano esfaqueava o irmão, a alma, o sonho, o futuro, o destino.

O aprimoramento de artefatos, planos e inspirações costuma trazer em seu bojo uma às vezes oculta intenção de prejudicar alguém em prol de seus interesses. Esses, por mais próximos da realização estivessem, jamais satisfizeram ou satisfazem à ânsia devastadora da espécie humana.

Não se trata apenas da imperfeição, mas da volúpia insaciável de progresso pessoal, uma sede incomensurável de desejos inalcançados e desnecessários. A natureza humana não se conforma em saborear o êxito, precisa superá-lo ainda que em prejuízo alheio. Somos um projeto mal concebido.

Há quem atribua o controle a seres superiores, de aspectos, espectros e localizações diferentes, bastando assumirem as vicissitudes, os arroubos e as ganâncias nossas de cada dia. Se não as atendem, resta apenas a opção de trocá-los por outros e outros, até acomodarem as impropriedades e os devaneios de quem busca referendar seus atos.

O homem sequer se apercebe da nobreza das atitudes mais próximas, preferindo a vileza dos descaminhos e a amargura das incertezas. O aconchego ele confunde com a imobilidade e o amor com a pieguice.  São prioritários o realismo e a praticidade, a qualquer preço, quando os objetivos traçados estiverem em jogo.

Assim seguimos o caminho inexorável da infelicidade, disfarçada de quando em vez por pequenos e paliativos alentos, eles mesmos cúmplices da amargura e do desapego. Somos uma raça fadada ao fracasso, à comiseração e ao oportunismo.

Queremos o impossível e para tal nos submetemos a desvios de conduta, maiores ou menores. Convictos de nossas idiossincrasias, permanecemos no trem da vida enxergando a felicidade como a parada seguinte e mais distante, enquanto a plenitude está presente em todas as estações, desde a primeira.

Aguardando por ela, chegamos aos nossos últimos dias com a inabalável e equivocada crença de termos feito o melhor.

Até tu, Brutus?

Estamos começando aquele período enfadonho e prolongado entre o Carnaval passado e o próximo, diriam os súditos de Momo. Fato é que, em terras brasilis, somente a partir de agora a vida segue o seu rumo normal. Mas 2019 insiste em se mostrar catastrófico, com as tragédias se revezando como se quisessem furar uma hipotética e interminável fila. Por aqui, onde as mortes em escala viraram uma espécie de passatempo do destino, esse ajudante de palco do ilusionista preferido de todos nós, o tempo. Sem distinção, anônimos ou célebres são escolhidos na plateia do teatro da vida, assumindo o protagonismo de enredos nefastos sequer ensaiados. Nem bem nos recuperamos de um e aparece outro para nos encurralar nas cordas de um ringue sedento por sangue.

Enquanto isso, nos corredores felpudos da Ilha da Fantasia, as aranhas negras tecem novas teias para nos capturar a todos. Fios envolventes como os discursos solenes, malhas asfixiantes como as leis discriminatórias, mal disfarçadas como a Capitu machadiana e seus olhares de cigana oblíqua e dissimulada. A peçonha dos algozes, entretanto, sempre é a mesma. Não trabalham tanto quanto as formigas, mais cantam como cigarras, mas se empenham muito quando lhes interessa, em acordos espúrios noturnos, diurnos ou vespertinos. Tramam as teias qual contratos indissolúveis, benéficos para poucos e extorsivos para os insetos em busca de inatingível salvação.

As fábulas de Esopo e seus bichos falantes datam de 620 A.C., antes mesmo de Caius Julius Caesar. O imperador Júlio César foi assassinado em 15 de março de 44 A.C., num complô tramado por senadores da Antiga Roma, incluindo o próprio filho adotivo da vítima, Marcus Junius Brutus. A ideia do assassinato em grupo foi impedir a identificação do autor do crime, tantos foram os esfaqueadores do Imperador. À morte, Julius Caesar teria exclamado: “Até tu, Brutus?”, expressão repetida hoje quando há “fogo amigo”.

Cansado de ver tanta injustiça, de testemunhar tanta iniquidade, às vezes me flagro refletindo. Por que o povo não encarna o espírito do senado romano em 44 A.C.? E imagino milhões de Brutus naquela multidão sem rosto, os desassistidos, as vítimas de uma legislação entorpecida por décadas de proteção aos mais fortes, ricos e poderosos. Sonho com milhões revoltados contra a tirania, não a do imperador Júlio César, mas a tirania dos encastelados em todos os poderes da República Brasileira. Tenho uma felicidade orgásmica ao projetar a morte desses usurpadores de nossa infância, de nossa juventude, de nossa vida, enfim, da nossa alegria.

Eles lembrariam, pouco antes do último suspiro, que deveriam zelar pela instituição de um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias. Afinal, todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

Naquele momento crucial, percebendo o aproximar do fim, ao encararem cada um dos carrascos sem face, todos os brasileiros, inobstante credo, raça, cor, gênero ou classe social, os tiranos de nossa Pátria murmurariam surpresos: “Até tu, Brutus?”.