Home » Articles posted by Alexandre (Page 2)

Author Archives: Alexandre

Categorias

Últimos Comentários

Arquivo do Site

Mário

Convivo com as perdas de entes queridos desde a mais tenra infância. Minha avó paterna, também minha madrinha, faleceu em pleno Dia das Mães, quando eu tinha 6 anos. Meu avô paterno demorou um pouco mais, mas se foi bem cedo. Entre os dois, de maneira muito precoce, perdi meu pai, que mal ultrapassara a casa dos quarenta anos. Portanto, entrando na década sexagenária, me considero bem experiente nesses difíceis eventos.

Possuidor de uma estreita relação com os animais, o desenlace de cada um deles sempre foi sofrido, diria traumático. Os primeiros foram meus canários roller, uma raça de franjinha, que uma virose arrebatou de mim quase todos de uma vez. Eram quatorze, entre machos e fêmeas. Isso me marcou de tal forma que jurei não tê-los jamais.

Cresci sem um mascote, retornando às origens quando pai, influenciado pelo desejo dos meus filhos. Um scottish terrier, o Scottie, repaginou a minha vida. Depois vieram a Princesa, a Naomi, Naná para os íntimos, o Popó, a Nina, o Zico e, a mais recente, a Lupita. Chegaram a cinco ao mesmo tempo. Hoje me restam os três últimos. Se a cada partida desses amigos verdadeiros fui tomado por uma carga enorme de tristeza, tamanho o apego mútuo com eles, como definir a dor inversa?

Sempre questionei essa troca especial de carinho, de devoção incondicional e de amor indiscutível entre os seres ditos irracionais e nós. Eles não falam, mas expressam tudo com o olhar e o comportamento. Nessa linguagem simplificada eles são capazes de traduzir pensamentos, sentimentos e um dicionário completo. Não aceito maus tratos a eles, razão pela qual, exceto o Scottie, os recolhi todos das ruas.

Sábado passado eu conheci o Mário. Não, não é aquela velha piada, mas um galgo lindo, de raça pura, cuja tristeza profunda nos olhos me sensibilizou assim que cruzamos olhares. Eu entrava numa casa de festas e ele estava deitado num sofá. Afeiçoado pelo porte do cão e consternado pelo seu olhar, de imediato me aproximei e o afaguei. Ele foi receptivo, embora tímido e temeroso. Logo descobri que o Mário sofria de uma orfandade recente. Seu único dono e anterior residente no local, um jovem, teve a vida ceifada por uma pneumonia avassaladora.

Passados alguns meses, Mário ainda se reenergiza da grande frequência dos visitantes e, não raro, escapa de casa em busca do seu dono. Já se confundiu com alguém abrindo a porta de um táxi, ficou feliz e correu até o passageiro, quando o olfato lhe sacudiu a memória e lhe retornou à saudade cruel. Dói imaginar a sua amargura dia após dia, tradução perfeita da reação de desvelo de todos eles ao sairmos por algum motivo e das demonstrações de alegria interminável, de êxtase total, de plena felicidade pelo nosso retorno. Só quem os ama compreende as minhas palavras. Só quem viveu tal situação pode avaliar com precisão esse relato.

Mário, minha torcida é pelo senhor da razão e da temperança para lhe apaziguar a alma. Apenas ele, o tempo, tem esse condão. Quem sabe o seu parceiro retorne um dia, ainda que noutro invólucro.  Enquanto isso, de quando em vez, eu vou passar por aí. Quando impossível, lhe enviarei pensamentos positivos.

Força, campeão!

Dia Mundial do Rock

Em 1971, no meu aniversário de 15 anos, me presenteei com a obra prima do The Who, o LP importado “Who’s Next”. Naquela época eu queria ser o Pete Townshend. As letras de protesto, os solos “manivela” na Telecaster 52 ou na Stratocaster 57, a rebeldia e o protagonismo no The Who, minha banda preferida, povoavam a minha imaginação. Pete era o meu alter ego, minha inspiração, minha liberdade represada pela ditadura e pelos grilhões da responsabilidade mal aceita.

Passados 46 anos, ainda me recordo da minha compra histórica. Eu comprava meus discos no Méier, na Cláudia Discos da Rua Amaro Cavalcante, perto do Bruni. Mas lá não vendiam os importados. Naquele dia, saí do Santo Inácio direto para o 502 da Barata Ribeiro, no altar sagrado da música, a loja Modern Sound. Dentro do ônibus 136 eu me perguntava quanto tempo demoraria para chegar ao destino e pegar aquela bolacha recém-lançada. A minha Garrard 52 B aguardava ansiosa para encostar a agulha da cápsula Shure no acetato e, amplificado pelo STR 860, ecoar o som refinado da banda inglesa, quebrando o silêncio sepulcral das ruas de Del Castilho.

Sempre gostei de música boa, não importando o ritmo. O rock, entretanto, tem um capítulo à parte na minha vida. Muitos momentos especiais da minha caminhada por essas plagas estão marcados na minha memória com as letras de Pete Townshend, a bateria de Keith Moon, o teclado de Mike Rutherford, a guitarra de David Gilmour, o baixo de John Entwistle ou a voz de David Coverdale. Além deles, outros inúmeros talentos de bandas fantásticas, privilégio da minha geração.

Hoje, Dia Mundial do Rock, rendo minha homenagem a tantos foras de série, ainda em atividade ou não, de um gênero musical atemporal. Aliás, música de qualidade independe da época ou do ritmo.

#ThanksTHEWHO

#ObrigadoROCK&ROLL

A nova ordem

A nova ordem mundial se mostra anárquica. Mesmo evitando noticiários, numa desesperada busca de autopreservação, as imagens pela internet nos agridem com a força das tormentas. E, atormentado pela frieza dos fanáticos assassinos de cada dia, me obrigo a escrever. Crianças destroçadas pela maldade inaceitável de loucos sanguinários, loucura assemelhada à residente na mente de poderosos líderes mundiais. Esses, cujo passatempo preferido consiste em brincar de guerra com milhões de vidas inocentes em jogo, podem nos reduzir a pó em fração de segundos.

Não bastassem esses transtornados, nesses tempos de perda simultânea, passam os amigos, os parentes, os meio parentes, os inocentes assassinados, os poetas populares, os bardos sofisticados e os personagens vivos de atores mortos. Nessa última categoria se incluem os casos do Ivanhoé, do James Bond e do Brett Sinclair, um trio eterno como não será Sir Roger Moore. Mas o mundo só pausa para alguém descer no ponto determinado para cada um. No seu percurso inexorável, o planeta água se apequena diante da crescente ignorância. A multidão a aplaudir o gênio Antonio Gaudí pelas ruas lotadas daquela Barcelona em 1926, cansou de considerá-lo excêntrico e mesmo louco. Quando um bonde o atropelou, Gaudí foi confundido com um mendigo e internado com um nome fictício.

A morte nos ronda desde o nascimento, enquanto os ignorantes teimam em desperdiçar momentos preciosos. Desprezam amores insubstituíveis, flertam com a infelicidade o tempo todo, apegados a insignificantes detalhes ampliados pela magnificência maiúscula da poderosa lupa de sua miopia. Baderneiros de plantão, vândalos remunerados, idiotas travestidos de simpatizantes com causas insustentáveis brotam entre as pedras do caminho sem volta da humanidade. A sanha insaciável dessa gente faz agonizar a democracia, o livre arbítrio e o direito de ir e vir, asfixiados por seitas sem fé, por desequilibrados oportunistas, verdadeiros ratos a se divertirem com a versão tupiniquim da flauta de Hamelin.

Não há escolha. Viva da melhor maneira e usufrua desse milagre da construção física e anímica, não desperdice cada oportunidade de ser feliz.

Não faça como o Robin Williams, faça como o personagem dele em “Sociedade dos poetas mortos”, o inesquecível professor John Keating.

Afinal, se os personagens são eternos, CARPE DIEM.

#SOMOSTODOSMENOSALGUNS, Capítulo 34

Depois de baixar a adrenalina, num show magnífico do grupo Boca Livre, retorno para casa e para o computador. Há algum tempo não escrevo, embora não me falte assunto. A ética e a dignidade no Brasil estão raras, a Cidade já não é tão Maravilhosa, a violência segue numa escalada de mortes diárias, numa disputa acirrada e absurda de recordes com o desemprego. Enfim, a vida no Patropi não está fácil para ninguém.

Eis que o Panis et Circenses resgata esse quase velho coração, inoculando na minha corrente sanguínea uma dose extra de paixão desenfreada. O violento esporte bretão mexeu outra vez na sensibilidade aflorada do sexagenário rubro-negro, fazendo de conta que o esquadrão de décadas passadas entra em campo todo jogo do Flamengo.

O FLA x flu decisivo do Campeonato Carioca de 2017 , como habitual, começou quarenta minutos antes do nada e só terminou quando os deuses do futebol saciaram a sede dos desejos sequiosos. Com a perfídia dos imortais, tramaram do Olimpo da bola e iludiram os incautos logo no início, com a destruição da vantagem rubro-negra.

Os juízes da eternidade permitiram transcorrer quase toda a partida e passaram a instilar doses homeopáticas desse veneno do destino na jugular dos indefesos. Pari passu ministraram miligramas no empate perto do fim, outras tantas na expulsão do afoito goleiro adversário  e as derradeiras no gol de misericórdia no segundo final dos acréscimos. Pronto, estava extinto o otimismo exacerbado da minoria e a festa retornou para o seu local costumeiro.

Hoje os deuses escreveram a trigésima quarta história do retumbante sucesso regional nas páginas do sacrossanto livro do Maracanã. E fizeram de novo sorrir de êxtase o gigante perturbado pelas falcatruas perpetradas pelos algozes do povo. A maioria esmagadora urrou de felicidade outra vez.

Vibraram os mais pobres, os mais ricos, os remediados, os cultos, os analfabetos, os negros, os brancos, os pardos, os mamelucos, os mulatos, os janotas, os mulambos, os muçulmanos, os cristãos, os velhos, os novos, os corruptos, os honestos. Os milhões de integrantes da Imensa Nação Rubro-Negra reenergizaram cada rincão desse país entristecido e desolado a partir do Templo Maior do futebol, numerando as páginas do novo capítulo dessa trajetória vitoriosa.

Foi apenas o capítulo 34. Se quiser saber detalhes, fale 34 ao encostar do estetoscópio em suas costas. Repita: 34. Fale outra vez: 34. Não, não é 33. Os doentes, os sofredores traumatizados, os secadores, os pacientes do arco-íris em geral precisam dizer 34.

P.S.: Esse post eu dedico em especial a dois rubro-negros. Ao Attilio Diácovo, desapaixonado escolhido pela sanha do seu advogado e do seu dentista; da mesma forma ao Ricardo Pinheiro, mineiro honorário e viajor das Gerais até o Rio para se incorporar ontem à esmagadora maioria. E a todos os derrotados, os por adesão e os por osmose, aos quais avisei que continuaria a olhá-los de cima, fosse qual fosse o resultado.

Feliz Páscoa?

Às vésperas da Páscoa, fatos lamentáveis e absurdos se transformam em verdadeiras bofetadas na face do mundo inteiro.  Dia após dia, a natureza do homem se mostra mais degradada. Tenho muitas dúvidas sobre a existência de um limite para a irracionalidade da raça dita humana. Atentados em metrôs de grandes metrópoles, bombas em eventos esportivos, armas químicas usadas contra civis, sem distinção entre idosos e crianças. Ameaças entre potências detentoras de arsenal nuclear e ontem a mãe de todas as bombas usada no Afeganistão. Vivemos tempos de cabeças cortadas frente às câmeras, de extremismo latente e decisões a critério de pessoas cuja insanidade se estampa no mais simples gestual e no mais conciso discurso.

Aqui na Pasárgada, onde se beneficiam apenas os amigos do rei, onde as vantagens maiores se destinam ao Amigo dos reis, enquanto o povo padece pela inominável falta de segurança, pela impossibilidade de ir e vir, pela precariedade da saúde, pela inexistência de qualidade nos serviços públicos em geral.  Mais ou menos carentes, enganados pelo canto de sereias aéticas e insidiosas, sofrem com o desemprego avassalador, com salários atrasados, com a miséria e com a desfaçatez dos privilegiados comandantes desse caos chamado Brasil.

O descalabro mascarado de corrupção e de licitações fraudadas, conteúdo de revelações ao longo dos últimos anos, mais especialmente nos últimos dias, apresenta a falência do moral e dos bons costumes, com a prática disseminada de propinas generalizadas. Os delatores, lastreados por inúmeros registros e evidências, expuseram uma podridão da qual desconfiava a população melhor informada. Um deles, o patriarca dos empresários corruptores, trata do assunto de forma muito bem humorada, chegando ao cúmulo de atestar a duração desse estado de coisas por mais de trinta anos. E os denunciados negando como inocentes imaculados, até mesmo ofendidos.

Não caem bombas dos céus das aves que aqui gorjeiam, nem treme a terra onde aqui nascem as árvores feitas palcos do canto dos sabiás. Mas os nossos bosques já não têm mais vida, em nossas várzeas rareiam as flores e nossas vidas professam menos amores. Os bilhões desviados das contas públicas, por uma enorme quadrilha encastelada no poder, assassinam milhares de brasileiros, de forma fria e planejada. Brasileiros exterminados em filas do SUS, brasileiros assassinados por balas perdidas ou achadas em ruas de grandes e pequenas cidades, brasileiros com os impostos em dia, cujo retorno pelo Estado se dirige aos bolsos desses degenerados. E TODOS, delatores e delatados, agem com a maior naturalidade, como se tudo isso fosse normal. Canalhas a tal ponto de tentarem desqualificar as denúncias pedindo mais provas.

Se a Páscoa representa renovação, o Brasil tem MAIS uma oportunidade, talvez a maior de todos os tempos, para extinguir essa doença incurável até o momento, proliferando de geração para geração. Como acreditar na natureza humana, se isso não ocorrer depois de tanta nojeira vinda à tona? Como aceitar essa matança de gente inocente, cúmplice apenas por não reagir à altura a tantos maus tratos? Os Dias não são mais os de Gonçalves, o exílio tem sido a única saída, a canção perdeu a alegria.

Fora isso, como desejar Feliz Páscoa?