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Vida e tristeza têm fim

Esse destino sempre a nos esbofetear quando nos julgamos invencíveis. É a maneira sutil, ou não, de nos lembrarmos finitos. Como não podemos resetar 2019, admitindo que ele não deu certo desde o início, cabe ao menos uma reflexão maior. Num intervalo de meio mês, de 25 de janeiro a 11 de fevereiro de 2019, foram pancadas seguidas, inacreditáveis, absurdas. Numa sucessão quase decrescente de vítimas, tragédias evitáveis ceifaram almas, primeiro às centenas, depois em dezena e agora em unidade, impactando o país e o mundo.

Estou devassado pela tristeza dos acontecimentos, vitimando muitos anônimos, alguns quase anônimos e uma celebridade. A importância da vida em particular não é mensurável, nem qualificável de forma individual. Mas o impacto em escala, sim. A população, os animais, a natureza, o meio ambiente de Brumadinho, qual fora em Mariana, sofreram um revés incomensurável. Os mortos no temporal do Rio de Janeiro idem. Os meninos do Ninho do Urubu, e suas famílias, perderam os sonhos e as vidas. E o Boechat deixou órfãos a família, o jornalismo brasileiro e todos os seus admiradores, colegas ou ouvintes/telespectadores.

Em todos os casos, há sensacionalistas, oportunistas, revanchistas e invejosos. Os mesmos motoristas mal educados, sonegadores de impostos, pagadores de propinas, péssimos maridos/mulheres ou pais relapsos. De repente, essa gente se traveste de paladinos da justiça e da ordem, verdadeiras palmatórias do mundo. Mas eles sucumbirão a si próprios e, em ultima instância, também não são eternos.

Do ponto de vista pessoal, a bofetada do destino em Brumadinho marcou o meu rosto de brasileiro. Virei a outra face e no temporal da semana seguinte fui esbofeteado como carioca. Nem me refizera e o incêndio do CT Ninho do Urubu esbofeteou a minha face rubro-negra. Nesse 11/02/19, o tapa foi na cara do jornalista frustrado, do admirador de um profissional que eu gostaria de ter ser sido. Que todos descansem em paz. Exceto o Boechat, que já deve estar irrequieto e buscando algo para fazer no outro plano. Com seu estilo verdadeiro e contundente, a essa hora ele está cobrando mais organização de São Pedro, de cuja existência sempre duvidou.

E qual a interligação desses eventos? De início, eram evitáveis. Além disso, nos remetem a uma imediata e profunda reflexão: somos todos finitos, não importa a idade ou as circunstâncias de nossas trajetórias.

Portanto, usufrua dessa efêmera passagem da melhor forma possível, antes do corte da tênue linha da vida.

Carpe Diem.

 

 

Indignação

O administrador da página do meu blog insiste em me enviar avisos automáticos. Ele sinaliza que os leitores estão sentindo falta de novas postagens. Pois não se trata de preguiça ou de falta de tempo. Afora os graves dissabores com o meu desgastado notebook, ando muito indignado com a recorrência dos fatos lamentáveis a me cercarem dia após dia. Falando nisso, me vem à mente a frase: “Não reclame da vida. Dias ruins são necessários para os dias bons valerem a pena“.

Ainda assim está bem difícil. Por ironia, fui motivado a escrever hoje por mais um desses absurdos exemplos. Se não foi o pior durante o meu silêncio, transbordou o meu copo de fel. Soube agora pela manhã da crueldade extrema contra um animal no Parque Guinle. A fêmea do casal de cisnes negros, Romeu e Julieta. Ela chocava os seus ovos e cuidava da ninhada anterior, quando um(a) desqualificado(a) a esfaqueou no peito várias vezes. Embora socorrida mais tarde, Julieta não resistiu ao ataque.

Fiquei impressionado com tamanha brutalidade, apesar da lama em Brumadinho, das prováveis centenas de mortes naquele crime ambiental e outras muitas perdas de vida num ecossistema tão pujante. Sim, a Julieta se restringe a uma ave, mesmo que rara. Mas a agressão inusitada, inobstante menos dantesca do que a produzida na Barragem da Mina do Feijão, me doeu qual um dedo introduzido na enorme ferida exposta há menos de uma semana.

Já desacreditei da Humanidade faz tempo, ao desistir de esperar mais de seres tão impiedosos, frios e calculistas. Repito como um mantra “quanto mais conheço os homens mais eu amo os animais”. E me indignarei sempre com cenas como essas, de Brumadinho e do Parque Guinle, a despeito das evidentes diferenças de causas e de efeitos.

Convivemos numa rotina de mortes violentas, passionais ou não, pelas ruas, pelas casas, pelos parques, serras, planícies, matas, rios e mares. Inexiste o apreço pela vida, pelas espécies, pela poesia da natureza como um todo. As pessoas se mostram egoístas, indiferentes e, sobretudo, perversas. Abandonam filhos, animais de estimação, plantas, enfim, em qualquer circunstância que lhes sugira maior interesse pessoal.

Por essas e outras demoro a escrever. Inspiração desse embate de naturezas me parece mórbida. Natureza humana contra a Natureza na qual ela está inserida. Aliás, segundo Hubert Reeves, astrofísico canadense:

“O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível, sem perceber na própria Natureza assassinada o Deus invisível adorado”.

https://youtu.be/OfFS4Lu83EY

Lá vem o sol

Fiz essa foto com o meu celular, ontem ao fim da tarde, sentado à beira da piscina. Foi um momento de abstração ao lado da mulher amada. Os reflexos esmaecidos do sol prenunciavam o crepúsculo e me estimularam a refletir também. A metáfora do nascer e do por do sol permanece inspiradora. Faltam tantos queridos ao meu redor, verdade. Há muitos senões, óbvio. Projetos incertos, perspectivas difíceis. Afinal, o que nessa vida podemos considerar certo?

Por favor, recuse aquela tradicional resposta. O nascente e o poente do sol são as certezas mais prováveis em nossa caminhada. O desafio posto: quantos deles ainda veremos? Exceto no caso de um cataclismo indesejado, continuarão a se repetir as cenas maravilhosas desse fato rotineiro no equilíbrio das galáxias. Além das explicações científicas, a simbologia do astro-rei, do levante ao ocaso, influencia a nossa imaginação. Sabemos todos, hoje com absoluta precisão, o horário desses espetáculos da natureza. Mas poucos podem ou querem se deter para apreciá-los. Raros os dispostos a reverenciá-los com um aplauso. Correm o risco de serem julgados piegas ou insanos.

Nossa existência, efêmera por definição e fugaz por extensão, não se digna a contemplar coisas simples. Ou melhor, não valoriza detalhes repetitivos, sejam eles os mais singelos ou os mais espetaculares. Acordar virou um lugar comum, por vezes indesejado mesmo, diante de responsabilidades e compromissos.  Respirar, enxergar, ouvir, falar, andar, enfim, viver, tudo não passa de uma sequência automática e talvez enfadonha. Até algo nos impedir de fazê-los. A vida realmente é um mistério. Parece antagônico, porém, ela pode ser simples como abrir os olhos e complexa como não poder abri-los mais.

Assim é a gratuita apresentação solar, diária e fabulosa, fonte de inspiração de poetas, pintores e fotógrafos. As eras serão sempre insignificantes à sombra de seus raios indizíveis; as cores lhe seguirão submissas como a paleta de um gênio: os pássaros permanecerão fieis à sua batuta para entoar os cantos adequados ao seu ir e vir; os relógios respeitarão suas ordens e os calendários se curvarão aos seus ditames.

Na tarde desse 31 de dezembro do 2018 criado pelo papa Gregório, quando a última trajetória da força motriz de nosso sistema estiver percorrida, dedique ao evento alguns poucos minutos de sua atenção. Admire com êxtase a beleza de tal esplendor, agradeça estar vivo e consciente para observar essa maravilha, aproveite a sua visão para fixar na memória um quadro indescritível.

Esteja convicto, ao raiar do dia, o alvorecer descortinará o ano seguinte. Saboreie com plenitude esse momento e se considere um escolhido ao contemplá-lo. Há quem o chame de felicidade, muitos o denominam destino, alguns de lapso, raros de eternidade. Mas é só o tempo, finito para nós e irrestrito para os imortais.

Você jamais saberá quando será possível outra vez. Por isso lhe desejo o privilégio de acompanhar muitas vezes o caminho do sol do oriente ao ocidente. Vale também para todos a quem você ama e a todos os que lhe amam.

Aproveite 2019 da melhor maneira.

 

Todo dia

 

Travo uma luta diária contra o negativo. Busco no entretenimento e no amor, não necessariamente nessa ordem, um refrigério para esse deserto de paz e de alegria. A felicidade exige de mim além da abertura de janelas do Windows ou de apenas escancarar as janelas da vida, deixando entrar o sol e o canto dos passarinhos.

Os otimistas definem o simples despertar como divino, os pessimistas espreitam ameaças e os realistas enxergam desafios. Depois do mar revolto entre vida e morte ser aberto e da caminhada incólume até alguma terra prometida, ainda há árduas batalhas a enfrentar. Pois sigo defeso com as armas de Jorge e com elas enfrento os seres ditos humanos, verdadeiros dragões insaciáveis.

As alegrias são ministradas em doses esparsas e homeopáticas, cujo sabor nos impõe degustação lenta e gradual, num exercício de moderação, comedimento e êxtase. Na tentativa permanente de manter o astral elevado, o meu artifício se espelha no avestruz. Imito o pássaro e enfio a cabeça num buraco, ao menor sinal de notícia ruim, de tantas obtidas no zapear do controle remoto, nos dribles mal dados nas pessoas sem noção e nas passadas menos largas do que as do destino..

A tortura não vivida, mas até hoje citada pelos arautos do terrorismo, faz parte desproporcional da mídia oportunista. A mesma caixa de ressonância sensacionalista a aumentar audiência, expondo todo dia a tragédia humana. Massacra a alma ver, apenas por relance, as cenas dantescas dos maus tratos à cadelinha Manchinha; o quadro degradante e sub-humano da recém-parida Dalila no chão de um hospital municipal carioca; a emblemática imagem do menino imigrante sírio afogado numa praia turca, dentre tantas e diárias armadilhas plantadas pelos dragões da infelicidade.

O meu complexo de avestruz está exacerbado e incontrolável. Já não qualifico mais a raça humana. Ela morreu e foi substituída por hordas de selvagens, animais irracionais de classes diferentes. Há os enriquecidos graças ao flagelo de seus semelhantes, inclusive curandeiros estupradores de corpos e de almas. Travestidos de importantes, verdadeiros pacotes de escória embrulhados em papel de presente, se encastelam no poder e subjugam os demais. Outra classe, a dos subalternos, inveja a classe dominante, querendo trocar de posição. Ávidos por subirem na cadeia alimentar, se esmeram em maltratar ao máximo seus iguais ou, na falta de alguém, atacam seres indefesos, buscando acumular pontos nesse jogo infame.

Impossível ser feliz convivendo com isso dia após dia. Não tenho pressa de encontrar as tais virgens, não tenho moedas para o barqueiro, não anseio pelo brilho da tal luz extasiante. Só sei estar cada vez mais difícil suportar o entorno. Descreio, há mais ou menos tempo, das bruxas, das divindades, do coelhinho da Páscoa, da estrela cadente e do Papai Noel. Desconfio até dos votos de Feliz Natal e da certeza de um Ano Novo melhor. Só quero seguir em frente e descobrir que estou errado sobre a humanidade.

É hora de arriar o Bandeira

A uma exata semana das eleições do Flamengo, outras duas decepções. O Renato outra vez aumentou o salário dele no Grêmio por conta do amadorismo do Flamengo e encerramos a temporada perdendo para o Atlético PR. É do ar do Bandeira o cheirinho do quase. Foi um retrato da gestão Eduardo Carvalho Bandeira de Mello: Maracanã lotado, bilheteria explodindo, festa fora de campo e derrota no gramado. Nessa derradeira rodada do Brasileiro de 2018, o jogo foi uma perfeita metáfora da atual diretoria. Às vésperas de ir embora, essa administração não deixará saudades, pelo menos para mim.

Se criticamos gestões rubro-negras, não importa a corrente alvejada, um séquito de inconformados reage com raiva, em geral nos rotulando como membros de uma corrente política antagônica. Não raro, nos chamam de “beneficiados” pelos oponentes. Há uma suspeita capacidade de recusar a opinião contrária, evitando enxergar erros graves.

Poderíamos elencar vários motivos, porém nos restringiremos a alguns mais específicos. Questiono os elogios ao êxito financeiro da gestão. Em tese, pelo fato do Flamengo não ser uma instituição com fins lucrativos. Aos defensores desse pilar para a sustentação do clube como um todo, lembrarei se tratar de um projeto mais amplo, de um grupo pulverizado pelo orgulho pessoal logo no primeiro mandato.

Além disso, como avaliar uma direção com dinheiro à vontade, gastando mal e não conseguindo resultados? O carro-chefe do Flamengo é o futebol e continuará sendo em próximas administrações Partindo dessa premissa, parece indiscutível o fracasso desses gestores. Um orçamento fabuloso foi mal empregado e a fundo perdido, haja vista os insucessos consecutivos nos últimos seis anos. Faltou conhecimento, experiência e pulso firme no futebol rubro-negro.

Para ficar apenas no Brasileiro de 2018, a incompetência se mostra tão evidente que o campeão se conheceu com antecedência de uma rodada. Apenas matematicamente, porque já se conhecia há várias rodadas.

Esse novo fracasso pode ser atribuído a algumas variáveis, embora possamos resumi-lo na açodada e inoportuna venda do Paquetá. Diga-se de passagem, por valor inferior ao previsto na multa rescisória.

Até a Copa do Mundo, todos seguiam o Flamengo, líder do campeonato, jogando bem e convencendo. Após apalavrarem o acerto com o Milan, leia-se Leonardo, o Paquetá passou de melhor jogador do campeonato a uma sombra. Desandou e arrastou o time junto. Virou um jogador irritadiço, indisciplinado dentro de campo, técnica e taticamente. Querendo mostrar um esforço maior apesar da consumação da transferência, o principal jogador rubro-negro se perdeu, exacerbou e comprometeu a campanha rumo ao título. Ou seja, perdemos para nós mesmos.

A título de exemplo, à mesma época que a negociação do Paquetá, o atual campeão brasileiro foi assediado para vender o seu melhor jogador, o Dudu. Recusou a proposta, enquadrou o jogador, então forçando a saída, o transformando num ativo muito mais valorizado hoje em dia. O Dudu não só ajudou demais na conquista, como se transformou no craque do campeonato. Com certeza, agora vale muito mais do que a oferta anterior. Típico exemplo de grande resultado financeiro e técnico.

Há quem vá se lembrar dos empates com o Vasco (menos 29 pontos), ainda às voltas com outro rebaixamento; da derrota para o Botafogo, pré-falimentar e a vinte pontos de nossa posição na tabela; da derrota para o Ceará, com menos 28 pontos e em pleno Maracanã; dos gols incríveis perdidos, um pelo mais caro jogador da história do Flamengo, Vitinho, contra o São Paulo e outro pelo craque do time, Paquetá, contra o atual campeão. Tudo isso foi consequência. A essência da perda do título está na fragilidade da direção e suas sucessivas decisões equivocadas.

Há também quem vá argumentar que, dos vinte concorrentes, só um ganha o título.

É verdade. Contudo, com todo o dinheiro investido nos últimos anos, não há justificativa.

Tomara que em 2019, com novos gestores, ideias e outra filosofia, tenhamos melhores resultados.