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Felipe

Bem-vindo, Felipe.
Você nem abrira os olhinhos e já percebera a emoção ao seu redor. Não por representar mais uma vida dentre as quase oito bilhões desse planeta e das mais de duzentos milhões desse país. Sua percepção aguçada, mesmo não expressada, observou nos sorrisos e nas lágrimas de felicidade o prenúncio de uma percorrida vitoriosa. E deve ter visto muitas outras pessoas. Embora invisíveis aos demais, você as enxergou eufóricas com o seu nascimento. Eles são os seus antepassados.
Confesso haver um enorme contraste entre a alegria pela sua chegada e o momento sombrio nesse mundo em geral, no Brasil em particular e no Rio de Janeiro em especial. Quem sabe a sua vinda traga o alento tão desejado, a mudança aguardada faz tempo, tornada possível por uma legião de anjos da guarda, por assim dizer.
Esse desafio gigante possui o tamanho de sua grandeza, a importância do seu caráter, a magnitude da sua vocação. Continuamos curiosos, pois desconhecemos as diversas facetas desse pequeno recém-chegado. Mas com certeza há quem saiba e nada possa antecipar. Eles permanecerão ocultos e silentes, mesmo convictos do seu sucesso.
Eles sabem que o seu nome sugere uma pessoa de bastante afinidade com a natureza e com os esportes em geral. Indica também uma capacidade incrível de se adaptar a novas situações e vencer os desafios que lhe são propostos.
Os sábios e informados antepassados conheceram em outro plano um conquistador histórico, seu xará de um passado remoto, na longínqua Macedônia. Por essas e outras, têm consciência do seu projeto, antes até de você concebê-lo. Antes mesmo da sua própria concepção, quando era apenas parte de Hugo e de Gisele.
Enfim, faça desse caótico ambiente a sua nova casa. Longe daquela harmonia dos últimos nove meses, o seu primeiro grande teste será se acostumar às desigualdades e aos péssimos hábitos de quem não tiver o seu sangue. As notícias parecerão surrealismo, as celebridades se mostrarão distanciadas da realidade e em sua maioria desinteressadas pelo destino dos mais humildes. Os governantes de países menos desenvolvidos roubam os cidadãos à luz do dia. Os mandatários das grandes potências buscam as guerras e/ou os confrontos fratricidas.
É, meu querido Felipe, se já lhe tiraram da zona de conforto, só lhe resta assumir a responsabilidade de somar esforços para mudar esse estado de coisas. O nome reforça a sua predestinação e os viajores do tempo estão certos de sua caminhada exitosa. A conexão com a centelha divina vira a chave da ignição do seu transporte para um mundo melhor. E nele caberá a humanidade de carona.
Não lhe faltarão Saúde, Equilíbrio e Amor para a consecução do seleto objetivo.
E a nossa torcida será toda sua.
Boa sorte.

Preconceito

Não posso reclamar da vida, exceto pelas perdas mais próximas e, portanto, mais sentidas. Embora fosse um menino suburbano estudando num colégio da elite do Rio de Janeiro, fui alvo de raros preconceitos, de registro irrelevante. Mas, ao longo da percorrida por essas plagas terrenas, testemunhei comportamentos revoltantes, tratamentos asquerosos, segregação de todos os tipos. Sou forçado a reconhecer a injustiça reinante no mundo.

Mesmo na inexistência de regras, et pour cause, não são poucos os indivíduos a se julgarem superiores aos outros por algum motivo. Ao contrário, eles são muitos, espalhados pelos mais diversos setores e camadas sociais. Por ironia, muitos estão incluídos no próprio alvo das injúrias e sequer conseguem se dar conta disso, tamanha a sua desfaçatez.

Passa o tempo, se estabelecem neologismos e rótulos, contudo o comportamento persiste e o ser humano resiste às lições do cotidiano. Não me preocuparei com terminologias ditas politicamente corretas, em razão delas não resolverem o problema. A solução está na atitude, muito mais forte e presente do que as palavras. Até porque, se não há eurodescendente não deveria existir afrodescendente. Na verdade, há pessoas, pouco importando se brancas, amarelas, negras, mulatas, mamelucas ou índias.

Sou filho de um negro bonito, dotado de um QI diferenciado. De origem humilde, meu pai carregou muitas caixas de cerveja em sua adolescência/juventude, ajudando ao padrasto num comércio pequeno. Aluno aplicado, com graduação em Contabilidade, fez carreira numa grande e famosa empresa, pertencente a uma família judia. Só não alcançou a diretoria porque faleceu cedo, aos quarenta e um anos. Era então o Contador do conglomerado composto por uma grande rede de lojas, uma construtora e hospitais.

Tenho muito orgulho dessa ascendência e fico imaginando o meu pai frente ao preconceito. Não me recordo de algo nesse sentido e nem chegamos a conversar sobre esse tema, talvez por nos ter faltado tempo. Mas, com certeza, isso ocorreu em sua vivência entre as décadas de trinta a setenta, num país que ainda hoje, em pleno século 21, mal disfarça a segregação racial.

Apesar das histórias de sucesso de gente de todas as raças, gêneros, credos e cores, sobrevive no inconsciente coletivo um mórbido desejo de submeter os outros aos caprichos de suas idiossincrasias. Sou otimista por natureza, talvez pelo sorriso quase permanente do destino. Confesso, porém, a desesperança de viver num mundo melhor, sem a excrescência de qualquer preconceito, inclusive o exercido ao contrário, por quem o enxerga maiúsculo aonde sequer existe.

Se o esporte aprimora corpos e mentes, a maior ginasta do mundo é Simone Biles; o tetracampeão Lewis Hamilton é o atual campeão da Fórmula 1; Usain Bolt, o maior velocista de todas as eras;  Serena Williams, rainha no tênis; Pelé, o Rei, atleta do século passado e o maior jogador de futebol da história; Michael Jordan, o maior jogador de basquete de todos os tempos.

Martin Luther King, Sidney Poitier, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Nelson Mandela, dentre tantos outros, além de Barack Obama, presidente da maior economia mundial e, muitos, muitos outros negros e negras ocuparam, ocupam e ocuparão posições de destaque no mundo, queiram ou não queiram os idiotas de plantão.

Mesmo com a discriminação dos ignorantes, preferindo ignorar a existência de diversos protagonistas negros na história da humanidade, a raça negra permanecerá oferecendo personagens proeminentes em todas as áreas de atuação. O talento e a inteligência não possuem nuances de cor, se evidenciam pela importância e pelo brilhantismo, independendo das sombras à espreita.

A consciência não é negra, branca, parda ou amarela,.

Nem tão somente hoje.

É consciência sempre.

 

Memórias íntegras ou O tringuelingue

Além de acumular bastante experiência e desenvolver alguma temperança, a idade vai somando. Fossemos uma obra de Da Vinci, já estaríamos valendo quase meio milhão de dólares num leilão desses por aí. É tempo de encarar a vida com mais otimismo e desapego, promovendo os momentos de felicidade ao primeiro lugar do pódio nosso de cada dia. Enquanto não ganhamos a sonhada liberdade do cárcere imposto pelos canalhas, somos obrigados a nos preparar para a conquista de nossos projetos mais sublimes. Para conseguir chegar à recompensa por tanto empenho décadas a fio, o corpo exige exercícios para manter a forma. Mas precisamos também exercitar a mente, evitando as teias de aranha pelos cantos do cérebro, bloqueando o sotaque alemão em nossas sinapses.

Como ainda não inventaram aquela máquina de teletransporte da Enterprise, o jeito é recorrer a outros artifícios. É ótimo utilizar as memórias auditivas, gustativas e olfativas, pois não costumam falham. Estão presentes em minha cabeça os aromas, os sabores, as músicas e os sons registrados em outras épocas. Lembro-me do inicio do ano letivo sentindo o cheiro do couro da minha mala misturado ao do papel novo encapando meus livros e cadernos; a fragrância do Avant la fête, do Lancaster ou do Nau anunciando a saída do meu pai para o trabalho; o gosto inconfundível das rabanadas de leite ou de vinho em todas as festas de dezembros comemoradas por uma enorme família, reunindo avós, tios e tias, primos e primas, uma verdadeira efeméride.

Caminhando e cantando uma antiga canção me transportei a um remoto passado. Eu nem precisava do Natal para conversar com amigos ocultos, eles foram companhias fiéis e freqüentes no meu quarto. Com eles fazia acalorados debates em meio aos brinquedos antes de guardá-los na caixa assassina, alcunha depois de prender a ponta do meu Mais Querido numa queda de tampa inesperada.

Fufiralfa, minha namorada invisível, e Alfredinho Carrapa, parceiro de estratégias, são testemunhas vivas de tudo isso em algum lugar do presente. Pausávamos nossas conversas muitas vezes para escutar o amolador de facas em seus animados concertos, no ritmo de seus dois instrumentos: uma lâmina e uma pedra de amolar girada pelo pedal da bicicleta.

Da mesma forma fazíamos silêncio no toque da buzina igual à do Chacrinha, acessório do triciclo do tripeiro. Eu descia aos pulos os quatro lances de escada para comprar as vísceras vendidas por um senhor de jaleco branquinho e com um chapéu de Jim das Selvas. O seu Manoel, sempre sorridente, abria a tampa do triciclo para os primeiros fregueses. Eu aguardava espreitando os futuros bifes de fígado, o próximo coração recheado com farofa, o projeto de dobradinha com batatas, a candidata à rabada da vez.

A pé, embora não menos sonoro com o seu Tringuelingue, um similar de castanhola gigante feita com pratinhos de metal e madeira, chegava o vendedor de biscoitos em canudo e de pirulitos de açúcar queimado.  De tão frescos, os biscoitos esfarelavam com facilidade. Os pirulitos nos exigiam muita paciência para arrancar o papel grudado antes de saboreá-los.

Guardarei enquanto possível esses sons, imagens e sabores no meu inconsciente, porque fazem parte integrante de mim, porque me ajudaram a esquecer dificuldades, construíram o que sou junto comigo.

E o que têm em comum esses personagens todos? Não existem mais, não sobreviveram. Sucumbiram após o sumiço do guarda noturno, único responsável pela tranquilidade e segurança do bairro, soprando o seu indefectível apito, arma suficiente no combate às ameaças.

Resistimos apenas Alfredinho Carrapa, Fufiraufa e eu.

Com certeza, contra tudo e contra o tempo.

Tudo é divino e maravilhoso

A chama não se extingue por milagre, desde os homens das cavernas a defenderem o lume espontâneo em turnos rodiziados, sabedores da importância de sua manutenção. As eras passaram e aos crédulos num poder ígneo, numa energia ígnea, cuja origem seria cósmica, cabe exercitar a vigília da chama acesa. Talvez seja esse o mistério de nos manter vivos, atentos e fortes, com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Se aproxima o meu aniversário de 61 anos e o melhor presente veio mais cedo numa reviravolta surpreendente dos meus projetos de vida. Como o tempo é inexorável e não respeita os nossos planos, ele expressa em sinais as suas alternativas. Não deve ter sido mero capricho do destino um zapear fortuito me apresentar a uma entrevista inusitada na TV. Nela aparecia uma Elisângela muito diferente daquela musa da minha infância. A assistente adolescente do Capitão Furacão não existe mais nem na minha fértil imaginação e, de inatingível nos meus sonhos de menino, passou a símbolo de um rito de passagem. Mas ser envelhescente concede bônus também. Aliás, tudo na vida embute ônus e bônus. Precisamos e devemos nos aperfeiçoar na arte de escolher o que possui mais bônus do que ônus.

Assim foi a minha opção de vida pela tranquila Passo Fundo, onde hoje completo a primeira semana de gratas surpresas, numa cidade detentora da vigésima primeira posição em qualidade de vida, dentre milhares municípios brasileiros. Os parâmetros da pesquisa consubstanciada estão escondidos em cada sorriso receptivo dos passo-fundenses, em cada gesto de hospitalidade, na expressão de sincera cordialidade de uma gente simples e atenciosa. Abraçados como naturais, nos sentimos cada vez mais em casa. Enquanto não definimos a morada, vamos repousando o corpo, a mente e a alma num apart hotel.

Minha rotina diária tem sido circular pelas ruas calmas de uma cidade de cento e nove cinco mil habitantes. À noite, o frio afugenta os transeuntes e a cidade se resume aos poucos veículos teimando em trafegar. Isso vale até para os sábados. A partir da primeira hora buscamos outro imóvel e depois bebemos um chocolate quente num bistrô com seis mesas. Em seguida, iniciamos a jornada. Ao final do dia encerramos da mesma forma. Terminado o horário comercial, corremos para olhar outra possibilidade de residência. Vai acabar funcionando, no tempo certo, no imóvel adequado, no preço justo.

Entre idas e vindas, à procura do lugar perfeito, até ouvi sobre o aumento da criminalidade em Passo Fundo, embora ele não seja visível nem crível. A melhor referência foi ouvir de um local sobre o “absurdo congestionamento de quatro minutos” na principal avenida, a Avenida Brasil, que atravessa Passo Fundo de ponta a ponta. Deve ser mesmo muito difícil conviver com esse gravíssimo problema de trânsito. Tanto quanto levar no máximo quinze minutos para chegar ao trabalho, ir e vir para todas as direções com facilidade, almoçar em casa todos dias. Em Passo Fundo tudo fecha de 12:00 às 13:30, com raríssimas exceções, como farmácias e restaurantes, por exemplo.

Enfim, como diz o refrão da letra do Caetano, cantada primeiro pela Gal em 1968: “atenção, tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso”. O perigo ficou para trás, a mais de mil e quatrocentos quilômetros. E a felicidade disfarçada de distância nos faz lembrar de como a vida pode ser simples, proveitosa e feliz.

Podem acreditar, mesmo nesse Brasil injusto, violento e desigual, isso ainda é possível.

Deu pra ti, baixo astral, vou pra Passo Fundo, tchau…

“Se houver somente um soldado, este não conseguirá guerrear contra todos os seus adversários. Então ele precisará se juntar aos que lutam pela mesma causa, para poder vencer as batalhas que surgirem. Assim somos nós.” (Anônimo)
Outro dia conheci a estória de um morador de rua flagrado com lágrimas nos olhos. Questionado o motivo da emoção, ele a atribuiu a um artigo de jornal encontrado no lixo, lido minutos antes de ser usado para forrar uma das calçadas da nossa injustiça social. O referido texto, ilustrado com a foto de um idoso voando numa asa delta, relatava uma iniciativa no mínimo peculiar. A experiência do piloto reverenciava a memória do filho recém-falecido em voo semelhante. O pai resolveu repetir o último trajeto do filho, objetivando sentir semelhante liberdade através do prazer de voar. Assim, segundo ele, conseguiria interiorizar o sentimento do rapaz em tantos voos e guardar melhor a sua lembrança.

Esses relatos me tocaram a alma, seja o do pai buscando resgate, seja o do sem teto sensibilizado com a emoção alheia. Se com a envelhescência cada vez mais me enterneço, as semanas recentes afloraram minhas emoções. Anestesiaram um pouco as reclamações sobre a violência carioca e disfarçaram os riscos diários de morar num caótico Rio de Janeiro. Deram lugar a um banzo antecipado, a uma sensação prévia de saudade daqueles a quem tanto prezo e deixarei para trás, entregues à própria sorte e sem a minha companhia. Pior para mim, que ficarei sem a maiúscula proteção de tantos anjos da guarda, não importando se estarei numa cidade de 190.000 habitantes, contingente menor do que o do bairro onde moro hoje.

Não, não me retiro forçado depois de quase 61 anos de residência na outrora Cidade Maravilhosa, exceto três anos vividos entre a Pauliceia Desvairada e as Alterosas. Por livre espontânea vontade, determinada pelo meu coração, vou me deslocar 1.500 km para o Sul desse imenso e maltratado país. Ironia, decisão do mesmo coração a doer com o afastamento de tanta gente querida. Mesmo convicto da melhor decisão, impossível não emergir a imagem do voo do idoso que fez marejar os olhos do sem teto. Quero que voem comigo o sonho de uma vida mais tranquila e feliz. Ao invés de um voo solo ou duplo, será um voo coletivo, de plena contemplação. Será semelhante ao voo do pai saudoso e servirá para interiorizar, em qualquer conotação, o sentimento desse antigo caminhante, viajor da melhor idade. Irei abraçado a cada um de vocês, num abraço anímico. Estaremos todos nesse desafio, estaremos todos nessa vida nova e merecida.

Vocês e outros amigos e amigas sempre foram o meu refúgio, o meu elixir para as dores do corpo, da mente e do espírito, em especial essas duas últimas. Não posso me queixar da sorte, pois fiz muitas e importantes amizades ao longo da vida. Por onde transitei me relacionei com a heterogeneidade da natureza humana e sua maestria de nos fazer ao mesmo tempo tão iguais e tão diferentes, nos aproximando e nos distanciando, umas épocas mais e outras menos. Tenho muito orgulho das relações sólidas construídas em minha caminhada. Conheci e me aproximei de pessoas muito especiais no decorrer da existência. Com elas aprendi e aprendo demais, numa permuta de ricas experiências, aperfeiçoando a minha essência e aparando as arestas da minha pedra bruta.

Apenas palavras não fariam justiça à enorme legião de amigos e de amigas que dividiram, dividem e dividirão suas histórias comigo. Com eles busquei desfrutar da melhor maneira de cada momento, neles me apoiei e procurei apoiá-los nas incontornáveis agruras. Juntos vencemos pequenos e enormes desafios, mesmo quando a ausência de um ou outro desfalcou a comunhão de esforços. Na impossibilidade da presença física, nos completamos mental e espiritualmente, através do aprendizado, da lembrança, do mútuo saber adquirido.

Por essa e outras inúmeras razões, concluo parodiando Kleiton e Kledir, conhecidos poetas da região para onde vou:

Deu pra ti, baixo astral, vou pra Passo Fundo, tchau…