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Querido Papai Noel



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Querido Papai Noel,

Não consigo me recordar da primeira vez que lhe escrevi, nem qual foi o meu pedido, muito menos se fui atendido. Mais de meio século se passou e eu tenho convivido com lapsos de memória. Você não tem esse problema, caso contrário deixaria pendentes milhões de desejos Natal após Natal. Ou talvez tenha desde sempre, a julgar pelas incontáveis injustiças testemunhadas por mim ao meu redor.

Trabalhei numa grande empresa, parceira do seu ofício, ao transportar por muitas décadas as cartas destinadas ao Pólo Norte, ao Pedacinho do Céu e a tantos lugares quanto à criatividade e a imaginação das crianças permitia. Sensibilizados por apelos da infância mais pobre, chegamos a encontrar quem implorasse por óculos, sapatos usados e até pedaços de pizza. Dezenas de funcionários se quotizavam, inclusive eu, e comprávamos os objetos do desejo dos escolhidos como os mais carentes dos pequenos sonhadores. Todos aqueles eram convidados para uma festa de Natal na empresa. Mesmo não conseguindo atender a todas as cartinhas, aquelas datas eram das mais felizes da minha vida. E eu fiz questão de participar por todo o tempo em que lá estive. Você pode sequer lembrar, mas estava sempre presente, ano após ano.

Mas eu não devo ser uma boa referência. Quem sabe a esmagadora maioria se sinta feliz com a sua gentileza? Por esse motivo, e otimista por natureza, resolvi apelar para a sua generosidade e formular alguns pedidos. Não exagerei, nem advoguei em causa própria. Não vou incluir entre meus pedidos a remuneração atrasada e parcelada, o décimo terceiro sem previsão e a suspensão das minhas dívidas enquanto persistirem tais pendências. Não porque eu julgue menores e/ou improcedentes, mas porque estou convicto de coisas mais importantes.

Entretanto, sucumbi diante da tentação de puxar um pouco a sardinha para o Brasil. Peço pelos mais infelizes, os sem teto, os desempregados, os famintos, enfim, por todos os alvejados pela injustiça social maquiada por governos a fio, populistas ou não. Faça por eles o que as urnas não conseguem. Por favor, faça desaparecer os corruptos, os cafajestes, os mentirosos, os sem caráter, os enganadores, afinal, todos os políticos a se agarrarem nas tetas da nação brasileira, verdadeiros e maiores responsáveis pela desgraça do povo. Não elimine apenas esses vermes, mas também os seus herdeiros, consanguíneos, políticos, ideológicos ou quaisquer outros. Chega de tantos desassistidos assassinados diariamente pelo precário serviço de saúde, chacinados aos quatro cantos do país pela absoluta falta de segurança, torturados de forma diuturna por transportes decrépitos, sobretudo natimortos por inexistir um sistema decente de educação a lhes permitir sonhar com tempos melhores. Se você me atender esse pedido, prometo jamais lhe pedir outra coisa, exceto se essa gentalha retornar.

Vou abusar um pouquinho de sua boa vontade. Se não for exigir muito, espalhe doses maciças de amor por toda a face da Terra. Pode ser que isso ajude a aplacar a fome na África, estimule a se olhar com mais atenção para os refugiados na Europa, inspire a impedir os sangrentos atentados contra os inocentes em todo o mundo, a evitar os preconceitos, a pulverizar as marcantes disparidades sociais em geral.

É só isso. Ah, a memória ia me traindo outra vez. FELIZ NATAL.


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