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Tempo efêmero

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Venho valorizando cada segundo de vida faz algum tempo. Convivemos com a morte a partir do nascimento. Mesmo antes, na vida intrauterina. Mas tive contato próximo com ela desde cedo, com a passagem da minha avó paterna, minha madrinha, num Dia das Mães. Aos seis anos de idade, foi uma notícia terrível. O desenlace com o meu pai também se deu de forma precoce, aos quinze anos. Há quatro anos fiquei viúvo e faz um ano se foi um tio queridíssimo, um segundo pai. Perdi outros entes queridos ao longo da vida, amigos ou parentes, não foi meu privilégio. Nosso egoísmo diante da perda, pois aqui permanecemos, embaça a visão e embota o raciocínio.

De sexta-feira até ontem à noite vivi com intensidade ao lado da minha amada, assistindo a peças, show e filme, como de hábito venho fazendo nesses recentes três anos. Meu combustível para uma existência mais feliz é o usufruto de todos os melhores momentos possíveis. Isso me trouxe um bálsamo poderoso, um remédio natural e sem outro efeito colateral que não o prazer de viver. As emoções energizam o meu corpo, saneiam a minha mente, vazam pelos meus olhos e estimulam o meu coração. Asseguro estar em êxtase e esse sentimento faz com que me sinta mais pleno, mais vivo.

Não considero haver outra forma de passar por aqui, exceto apreciando a beleza da vida e me sentindo útil aos que me amam de verdade. Escutando os maravilhosos sucessos do Guilherme Arantes, no Theatro Municipal no domingo passado, viajei nas saborosas rimas cheias de amor de um poeta como poucos. Somente um poeta pode conceber: “Ah que bom seria se eu pudesse te abraçar, beijar, sentir como a primeira vez, te dar o carinho que você merece ter. Eu sei te amar como ninguém mais, ninguém mais, como ninguém jamais te amou”. Essas e outras me fizeram sussurrar “Eu te amo” no ouvido da minha mulher várias vezes durante as sublimes duas horas e meia em que estivemos juntos naquele dia especialíssimo.

Do mesmo jeito o poeta se mostra capaz de escrever sobre a dor:  “Não estou bem certo se ainda vou sorrir sem um travo de amargura. Como ser mais livre, como ser capaz de enxergar um novo dia”. E, diante da tragédia do voo da Chapecoense, são esses versos o meu entorpecente de hoje na alma. Essa dualidade poética, aliada à sensibilidade de quem deseja prosseguir com todas as forças, me serve de inspiração. O nó a apertar a minha garganta será desatado pela alegria de aproveitar sempre melhor o meu tempo. Porque o sei finito, só não sei quando e como. Mas estou certo ser efêmero. Essas tragédias estapeiam o nosso rosto e nos lembram disso.


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