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Aquele abraço

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Que semaninha, hein?

Assim fecharia a coluna de hoje o inesquecível Zózimo Barroso do Amaral, cujo aniversário de morte ocorreu na quarta-feira dessa folha trágica em nosso calendário. Por esses e outros motivos, resisti muito a escrever sobre esse período terrível, sete dos mais vergonhosos dias para os cariocas. Uma semana para se esquecer, exceto pelo lançamento da biografia de mais um célebre cidadão do Rio, o apaixonado rubro-negro Zózimo, escrita por um de seus fieis escudeiros, Joaquim Ferreira dos Santos. O título do livro diz tudo: “Enquanto houver champanhe, há esperança”. Acabou até a água, a luz, a paciência. O medo venceu a esperança faz tempo.

De onde estiver, o maior colunista social de todos os tempos, o revolucionário esgrimista das palavras, com certeza vê tudo isso com um olhar de profunda tristeza. Linda por natureza e tenebrosa pela história recente, afora os tradicionais crimes e violências do dia a dia, a Cidade Maravilhosa protagoniza a pior personagem num folhetim macabro e assustador. Chacrinha agora virou morro, e se o Velho Palhaço vivesse lá jogaria “presuntos” ao invés de bacalhau na moça da favela. Realengo está mais para o Real Engenho cuja abreviatura no bonde originou o nome. Um real engenho de crueldade, quando poderia ser de ideias transformadoras.

O Rio de Janeiro, Fevereiro e Março com o seu povo celebrado como símbolo do bem viver, como “reis da malandragem”, no melhor sentido da palavra, rapaziada com “muitos anos de praia”, parece estar se equivocando numa cumplicidade com péssimas escolhas para governantes e políticos em geral. Foram-se os anéis da ex-primeira dama e ficaram os dedos sequiosos pela propina. Colocaram guardanapos na cabeça em plena Paris e nós achamos graça. Supostos mestres na discussão política de botequim, os cariocas derrapam em suas opções de urna e são corresponsáveis por esse quadro dantesco. No mínimo pelo imobilismo, pela absoluta falta de reação há décadas. Hoje viramos reféns de nós mesmos.

Numa escalada de manchetes infelizes, com direito à falência do estado e seus servidores sem pagamento; à ocupação violenta da ALERJ por manifestantes enfurecidos; a dois ex-governadores presos, acusados de desqualificadas folhas corridas; à morte de mais quatro PMs num helicóptero derrubado por marginais na Cidade de Deus; a tiroteios, bombas, granadas, desespero e pânico dos moradores do Rio, a vias importantes, como as Linhas Amarela e Vermelha e a Avenida Brasil, interditadas por muito tempo num sábado à noite.

As fotos do alto continuam a mostrar a exuberância de uma cidade invejada pelo mundo inteiro, pelas praias, por um outrora cenário paradisíaco e pela tradicional hospitalidade dos cariocas. Ao rés do chão o Rio de Janeiro agoniza junto com as vítimas do crime organizado, pelo voto, pelas drogas ou pela munição de grosso calibre. A cidade já quase não consegue respirar sequer por aparelhos, pelo infortúnio de estar internada num dos seus decrépitos hospitais públicos, sem médicos, sem medicamentos, sem equipamentos.

Do alto de sua observação celestial, diferente do ar contemplativo dos cidadãos, um comovido Cristo Redentor suplica diante de tantos desatinos:

“Cidade Maravilhosa, perdoai-os! Eles não sabem o que fazem”.

Sabem sim. E pagarão caro por seus inomináveis erros. A justiça, em especial a daqui, tarda e muitas vezes falha. Mas não falhará. Se preciso, pelas nossas próprias mãos. Eles, políticos corruptos ou traficantes, bandidos de todos os níveis, não perdem por esperar. TODOS ELES!

Lá em cima Ele permanece aguardando pelo nosso abraço.

Aquele abraço!


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