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Sensibilidade

flor-de-cerejeiraReconheço-me sensível desde a mais tenra infância e mantenho a sensibilidade aflorada. Nos últimos tempos, com certa recorrência. Por assim dizer, sou forçado a atribuir a essa virtude a minha inesgotável necessidade de escrever e de falar sobre os meus pensamentos, sobre os meus sentimentos. Ao me julgar verdadeiro, o amadurecimento vem me tornando cada vez mais virtuoso. O lacrimejar diante de emoções ditadas pelo destino, colheita de um semear permanente em terra fértil, enxágua os meus olhos para novas perspectivas.

Se sempre fui assim, a vivência me faz mais suscetível a essa proliferação de emoções. Não saberia explicar o porquê, não importa o rumo da prosa. A verdade costuma se apresentar de forma incontestável e contra os fatos não há argumentos. Sou sensato e não me rebelo. Aceito as condições do coração, até em respeito às exigências cada vez maiores da natureza, impositivas e incontornáveis. Aprendi a desatar os nós na garganta, extravasando sem pudor nem censura.

Pois bem, me emocionei ao assistir a uma apresentação do “The Voice Brasil”, que não aprecio em razão da exploração de talentos de maneira quase cruel. A exigência de apelo à audiência manobra de forma torpe os valores pessoais dos julgadores. Músicos já consagrados, embora ainda com vícios e defeitos, torturam em demasia os jovens, expondo-os ao limite da expectativa. Em busca de um suspense para aprisionar o público, num gestual caricato, cheio de caras e bocas, adiam apertar um botão salvador do futuro dos desesperados candidatos.

Sozinho em minha casa, ao ouvir três meninas de dezesseis anos, um duo e uma em solo, três diamantes brutos interpretando “Pedaço de mim”, uma das melhores obras-primas de Chico Buarque, chorei do início ao fim. As conjunções de fatores tornaram inevitável me lembrar dos meus dois queridos filhos, um tão distante e a outra nem tanto. A tecnologia me permitiu colocá-los em sincronia simultânea, trocando palavras e compartilhando sentimentos sobre um momento tão sublime. Em seguida, dormi solitário, porém sem o característico aperto no coração, costumeiro e traiçoeiro inimigo dos sessentões.

Antes de conciliar o sono, viajei ao passado. Descobri no baú da memória esse mesmo pranto, no fim dos anos 70, quando Bibi Ferreira me emocionou ao protagonizar “Gota d’água”. Numa adaptação de Medeia, de Eurípedes, Chico Buarque e Paulo Pontes ousaram e o resultado foi uma das mais belas peças da história do teatro brasileiro. Numa remontagem recente, há alguns meses, tive o privilégio de ver a sensacional Layla Garin no papel principal, cantando a mesma “Pedaço de mim”. Presenciei a magnífica interpretação às lágrimas. Elas estão em sintonia com as vertidas ontem.

Os nipônicos, de aparência distante e pragmática, têm uma percepção aguçada sobre os ditames da nossa singeleza. Assolados por catástrofes, se habituaram a definições mais apropriadas para a tênue distinção entre viver e morrer. Em seu livro “O mestre de Go”, o escritor japonês Yasunari Kawabata usa um personagem para a emblemática citação “A vida é um fragmento da paisagem”. Ela oculta um sinal poderoso de que não podemos nos permitir desperdiçar as emoções enquanto vivermos. Ao contrário, devemos usufruir de cada uma o máximo possível.

https://youtu.be/sJMCSBIdIDg


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