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Maracanã ou A felicidade de ser Flamengo

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Domingo passado fui me reencontrar com o Flamengo no Maracanã. Queria voltar com uma vitória, afinal, a luta pelo título ainda está em jogo. Difícil, mas não impossível. Com sinceridade, naquela emoção pré-jogo isso deixou de ser prioridade, de se constituir na razão da minha enorme satisfação. Só pode aquilatar o meu relato quem já presenciou um grande jogo do Flamengo no Maracanã de casa cheia.

Abro mão de me estender na abordagem da selvageria dentro e fora do estádio, inclusive nas cercanias, por entender inoportuno para o simbolismo do texto. Sobretudo por julgar um desperdício comentar sobre os vândalos e marginais de sempre. Embora lamentável, recorrente, pernicioso e degradante, tratou-se de um detalhe insignificante no contexto da festa. Essa gente precisa de punição severa, de isolamento da sociedade, de cadeia. Ponto, parágrafo.

Eis que, me desviando das hordas desordeiras, vou me aproximando do meu sonho de criança, da visão magnífica de um templo mitológico desde a minha tenra infância. Permanece intocável em minha memória a imagem do mar vermelho e preto na saída do túnel de acesso às antigas arquibancadas. Com os meus olhos de menino de sete anos descortinando um quadro tão fabuloso, me senti mais minúsculo, porém acolhido por uma entidade desconhecida, poderosa e gigantesca. Ainda hoje lamento inexistir um celular, nem mesmo uma câmera de bolso para eu registrar e guardar na gaveta dos meus tesouros pessoais. Naquele dia especialíssimo da minha iniciação no sagrado templo, saí vitorioso e campeão.

Pois voltei às origens nesse penúltimo domingo de outubro de 2016. Cada passo de aproximação ao agora Portão A, meu velho conhecido “rampa da UEG” depois “rampa da UERJ”, fazia efervescer meu sangue, acelerava o pulsar do meu coração, resgatava o entusiasmo infantil do distante 1963 do meu rito iniciático. No rodar das catracas eletrônicas, num passe de mágica cibernética acionado pelo meu Cartão de Sócio Torcedor, mesmo há mais de cinco décadas dos tíquetes de recordação em papel, voltei a pisar na minha particular Terra do Nunca. Ali eu sempre serei um garoto de sete anos.

O resto foi mero detalhe, simples figuração, inclusive o resultado ruim, péssimo a essa altura do campeonato. Os 64 mil representantes da Imensa Nação Rubro-Negra, eu inclusive, aplaudimos no final do jogo. Não só o esforço infrutífero dos jogadores. Muito mais em especial, reverenciamos o espetáculo, uma belíssima festa do amor de tanta gente pelo Flamengo. Não segregamos sexo, raça, cor, credo, o que for. Até o Eduardo Cunha é rubro-negro. Somos mais de 40 milhões, gente do bem ou do mal, cultos ou incultos, ricos ou miseráveis, o que importa é a paixão a nos unir. Só ela é capaz de festas como a de 15/12/1963, a de 23/10/2016 e de tantas outras.

Voltei a pé do Maracanã até a Praça Saens Peña, refazendo uma caminhada feita centenas de vezes quando mais jovem. Andando celebrei a minha perna recuperada, baixei a adrenalina, pensei naquele domingo em 1963 e no que vira minutos antes. Como fui feliz na minha escolha aos sete anos de idade! Confesso ter caminhado chorando e não vou dizer que foi o menino de sete anos. Foi o choro de felicidade de um sexagenário emocionado e orgulhoso por ser um iniciado do templo sagrado. Amo demais a atmosfera e o êxtase do Maracanã rubro-negro. Amo demais torcer pelo Flamengo.

P.S.: Ao terminar o texto soube da morte do Capita, Carlos Alberto Torres, que estava em campo no Maraca naquele 15/12/1963. Muito depois, em 1977, ele vestiu o Manto Sagrado e em 1983 foi o técnico do nosso terceiro Campeonato Brasileiro. Um monstro da bola, um jogadoraço.

#RIPCapita


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