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Está marcado

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A estrada longa, suas encruzilhadas, desvios e obstáculos, costuma trazer a vivência à tona. Mente e corpo são reoxigenadas por lembranças, estimulando almas poderosas a seguirem seu caminho. Não podemos nem devemos viver no passado. Precisamos usá-lo para correção de rumos, alterando a posição e enfunando as velas mesmo na ausência de vento.

Não chego a ter um banzo das fases mais antigas da minha vida, sequer mudei de país nessa trajetória sessentona. Legítimo é sentir saudade da minha tenra infância, da minha adolescência e da minha juventude. Chega a assustar a nitidez das imagens fluindo em minhas memórias. Tantas amizades construídas num percurso rico de personagens, disparidade de perfis, gente como a vida produz, diferentes e inexatas.

Dia desses encontrei um antigo parceiro de aventuras, um cara relevante na minha caminhada. Era um exímio ciclista desde criança e foi o primeiro colega motorizado. E não era um carro velho ou de segunda categoria. Era um esportivo zero quilômetro, destruído num acidente violento que poupou a vida do motorista sempre acelerado. Obra do destino, bastando olhar para os destroços.

A velocidade continuou excessiva num modelo novo em folha, agora menos esportivo. A bravura dos caronas era indômita como a do faroeste dos cinemas. Tinha lá suas vantagens. Namorei belas meninas cortejadas na carona do cockpit. A mais duradoura de beleza invulgar, diga-se de passagem. Após o meu namoro, o piloto se casou com a melhor amiga da minha namorada. Entretanto, não me casei com a minha namorada.

Pois bem, depois de décadas, acho o dito cujo. Fiquei tão feliz que tentei marcar um chope para recuperar o papo atrasado. Não consegui, ele continua esquivo. Passados alguns meses, recebo a ligação de outro parceiro querido. Já nos encontráramos há um tempo e combinamos um almoço. Comentei sobre o outro e ambos vibramos com a possibilidade de reunir os três.

Fomos os dois ao local onde encontrara o terceiro. Ele alegou não poder sair do trabalho naquele momento. Sua fugaz hora do almoço não permitia chicanas. Mas a sua folga no dia seguinte foi a senha para combinarmos retornar e desfrutar de um almoço inesquecível, com histórias e reminiscências de infância. Voltamos e ele não apareceu. Esperamos quarenta minutos. Por ele não ter celular, desistimos.

Almoçamos sozinhos num “pé sujo” das redondezas do nosso bairro da infância. Saboreando uma deliciosa rabada com agrião e polenta, lembramos causos e causos, rimos muito, lavamos as palavras no chope gelado. Em poucas horas resgatamos décadas. Não carregamos na crítica ao ausente, em respeito à individualidade da sua opção e à impossibilidade dele se defender. Nada nos impediu de lamentarmos muito.

Se ele sequer tem celular, tampouco lerá esse texto. Não voltarei mais ao local de trabalho dele. Diante dos desdobramentos, imagino ter havido lá um constrangimento desmedido e desnecessário. A vida, mais fugaz do que um horário de almoço, costuma punir essas falhas. Menos de uma semana depois perdemos um colega da mesma época, do mesmo bairro. Aliás mais novo do que nós.

Por essas e outras, penso que no caso do desencontro do almoço perdemos os três, mais o ausente do que os dois presentes, uma oportunidade excepcional de reoxigenação de mente e corpo. As almas, espero, continuarão poderosas.

Está marcado.


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