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Coisas pequenas preciosas

Coisas pequenas preciosas ( Precious little things ), belíssima canção interpretada pelas inesquecíveis “The Supremes”, lideradas pela magnífica Diana Ross. Ela diz em seus primeiros versos: “Uma palavra de conforto quando me sinto mal. Um telhado sobre minha cabeça quando não tenho para onde ir. Um toque suave quando o mundo é duro e os sonhos não se realizam”.

A poesia tem o condão de fazer a melhor síntese do que sentimos, transformando palavras soltas em expressões ditando verdades absolutas e eternas.

Essas coisas pequenas preciosas nos assediam todo o tempo, acenando com sofreguidão na esperança de atrair o nosso olhar distraído com outras supostamente mais importantes. Nem sempre as enxergamos.

Inspirando e expirando automaticamente, quase nem tenho tempo de me lembrar do cheiro do couro das pastas novas do primário e do ginásio, do perfume da loção pós-barba usada por meu pai, do aroma exalado pela dama-da-noite em meu jardim.

Carona do ar vital, quanta alegria nas diferentes e simples fragrâncias. Mera inspiração para sobrevivência, inspiração de vida, inspiração divina. Cheiros impregnando a minha memória enquanto eu viver, rastros da minha história. Nada mais que o sentido do olfato ou fatos sentidos e mais nada?

Observando fotos antigas reconheço os sonhos povoando os olhos brilhantes de um jovem que já fui. Esse olhar míope ainda hoje me acompanha, nos mesmos olhos que o daltonismo enganou vezes a fio, sem saber exatamente como. As cores são de cada um, a beleza das paisagens também.

O rubor da amada, o sorriso dos filhos, as flores, o céu, o mar, as estrelas de um e de outro, tudo gratuitamente desfilando para roubarmos de cada cena a eternidade do registro jamais repetido. Ninguém pode definir nossa visão única e intransferível, soberana das imagens projetadas com exclusividade.

Ouvimos os sons da natureza ao acordarmos, o canto dos bem-te-vis, sabiás e canários; os gritos das maritacas; o latido dos cães; o uivo do vento; o farfalhar das folhas das árvores, na chuva que cai; a algazarra das crianças; do primeiro ao último bom dia.

Escutamos a água correndo na pia e no chuveiro; o assobio da chaleira; o café escoando; o corte do pão; o folhear do jornal; a sonora abertura do computador; o telefone, o rádio, a música, as conversas; os pratos, talheres e copos.

Assistimos TV, atendemos telefone, ouvimos música; mais conversas; reflexões sobre o dia; murmúrios do aconchego; outros sons da natureza ao dormirmos, no voo dos morcegos; no pio das corujas; até mergulharmos no silêncio da madrugada.

Falamos conosco e com o multiverso, pois está provado existir mais do que um. Há uma interação permanente pelo verbo, com a força de sua expressão impactando o inconsciente coletivo. As palavras escoam rapidamente pelas mais diversas mídias, estamos em todas as partes, a cada instante num idioma novo, numa eterna multiconferência de Babel.

Mosqueteiros cibernéticos, um por milhões, milhões por um. Desejamos felicidade, paz e saúde. Declaramos amor e revelamos saudades. Sussurramos e gritamos a plenos pulmões. Declamamos, cantamos e oramos. Verbalizamos ideias, desejos e sentimentos.

Degustamos porções generosas ou modestas; saboreamos o trivial e as iguarias; provamos o doce e o salgado, o azedo e o amargo; comemos do pão e da carne, do vegetal e do animal; bebemos do vinho e da água; escolhemos pelo gosto e pelas circunstâncias; sorvemos com ansiedade e parcimônia; experimentamos do gelado e do quente; repetimos e saciamo-nos, uns sim outros não.

Tocamos na pele de quem amamos, acariciamos, afagamos, abraçamos. Descobrimos objetos sem vê-los, tateando nas gavetas sem auxílio da luz. Percebemos as imperfeições num mero alisar de superfícies. Polvilhamos os pós, escorremos a areia, misturamos texturas, espalhamos o óleo. Digitamos teclas, dedilhamos cordas, manuseamos a seda, o algodão e o brim. Sentimos o frio e o calor.

Cada pequeno detalhe se transforma num rito de passagem para a felicidade. Essas coisas pequenas ficam mais preciosas quando privamo-nos delas.

Dissimulados e se esgueirando entre umas e outras estão os problemas, apenas salvaguardando nosso direito de viver.

Feliz daquele que sabe aproveitar as coisas pequenas preciosas da vida, expandindo seus limites além de cinco sentidos.

Na realidade, embora pareçam pequenas, elas fazem tudo ter mais sentido.


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