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Simply the best

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Presenciei um show antológico no fulgor das minhas 31 primaveras, em 16/01/1988. Uma das maiores divas de todos os tempos da música mundial, Tina Turner fez há 28 anos uma apresentação memorável, transbordando muito talento e extrema emoção. Aquele evento antecipou um período fabuloso para mim, então um jovem sonhador e cheio de projetos. Ali se delineava um ano promissor, nos âmbitos pessoal, familiar e profissional. Sinalizava, sobretudo, a chegada de um ser de muita luz.

Naquela noite a atmosfera contagiava a todos, com a música reverberando felicidade num público em êxtase, uma festa dançante com milhares de pessoas. Esse rito de iniciação foi no templo tradicional, o Maracanã, meu reduto de tantas alegrias inenarráveis. Junto a um grupo de grandes amigos mantidos até hoje e acompanhado pela minha mulher, grávida de cinco meses, vivi naquela noite momentos maravilhosos. A magia mais forte vinha daquela gravidez, de um suave toque expresso pela sensibilidade do ser em gestação, sentindo cada nota e cada vibração, presente sem se fazer notar.

Quatro meses depois, o pequenino carona daquele show estreou nesse palco chamado vida. Desde cedo se mostrou à vontade, interpretando com desenvoltura, dançando qualquer ritmo, cativando até quem o ouviu desafinar cantando, seu ponto fraco na trajetória musical. Sensibiliza a todos, plateia e colegas, combinando seu raro talento com uma enorme obstinação para chegar ao estrelato. Não foi surpresa vê-lo superar desafio após desafio, até chegar aos dias de hoje, momento de ganhar outros palcos mundo afora, se credenciando a brilhar com mais intensidade.

Desfrutamos juntos de incontáveis experiências fantásticas, sofremos alguns reveses profundos. Nesses últimos, amargamos perdas irreparáveis, fora do nosso controle. O mais importante sempre foi caminhar lado a lado. Aprendi muito com esse jovem de maturidade precoce, de visão privilegiada, de admirável ousadia e modéstia, ambas ao seu tempo, em doses precisas. Generoso e sensível, sob a proteção de uma capa de seriedade disfarçada por esparsas mas contagiantes gargalhadas. Em resumo, um menino de ouro, uma vocação imbatível para o sucesso.

Pois bem, no papel coadjuvante de pai coruja, não me obrigo a adotar o estilo low profile do protagonista desse espetáculo. Ao contrário, fico muito à vontade para me render aos adjetivos mais enfáticos para qualificar um ser humano tão especial. A ponto de defini-lo com a minha preferida no setlist daquela magnífica e emblemática noite de 1988: “Simply the best”.

A máxima “criamos os filhos para o mundo” ecoa em minha mente desde a primeira paternidade. Minhas duas raras pérolas já saíram da minha concha faz tempo e ainda assim confesso o meu egoísmo e a minha rejeição a esse dito popular. O meu em breve sexagenário coração, hoje dividido entre explodir de felicidade ou encolher de saudade antecipada, pulsa bem mais forte ao se aproximar a mudança do meu filho para o exterior.

Aprendi, por experiência própria, a não acreditar em longas preparações psicológicas para situações de desfecho previsto. A realidade funciona como nos palcos e nos jogos decisivos. Não importa o quanto se ensaie, o quanto se treine, mesmo à exaustão. A hora chega, a emoção fala mais alto e precisamos enfrentá-la.

Filho, no Canadá o seu game Existência mudará de fase com muitos bônus acumulados, dentre eles, o casamento feliz, a qualidade de vida, a fartura de oportunidades. Tantas novas e favoráveis perspectivas asseguram o sucesso de profissionais com o seu perfil, os dedicados, competentes e qualificados. Portanto, meu menino, uma excelente viagem e muito boa sorte. Você bem sabe existir quem já não lhe seja perceptível, embora lhe apoie e proteja sempre de outro plano. Doravante também atuarão contra nós os milhares de quilômetros de distância entre o Rio de Janeiro e Vancouver. Estarei mais distante, apenas na torcida, mas atento e à disposição. Com certeza ao seu lado, mesmo sem me fazer notar.

Um beijo.

P.S.: Abraços para James Cameron, Jim Carrey e Leonard Cohen; beijos para Alanis Morissette, Avril Lavigne e Celine Dion; reverências para o Arcade Fire, o Cirque du Soleil e o Rush.


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