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É impossível ser feliz sozinho

 

Volta que deu merda

 

“É impossível ser feliz sozinho”, escreveu Tom Jobim depois de cansar de esperar pela parceria com versos de Chico Buarque. A responsabilidade de escrever uma letra para a música “Wave”, do maestro, limitou-lhe a inspiração a uma frase: “Vou te contar”. Bloqueado o letrista, Tom desistiu e compôs, por ironia, sozinho. Aproveitou a ideia de Saint-Exupéry (“o essencial é invisível aos olhos e só pode ser percebido com o coração”) e prosseguiu: Vou te contar, os olhos já não podem ver coisas que só o coração pode entender… Vivemos essa experiência desde sempre, do início ao fim da vida, pelo menos ao que parece.

Impulsionados pelo instinto, pela necessidade ou pela insegurança, buscamos parcerias e por vezes desistimos. Por opção, muitos preferem uma solidão conservadora, se refugiando dos inevitáveis confrontos da relação com outras pessoas. Os temperamentos diferem, os seres humanos têm peculiaridades curiosas, hábitos distintos, preferências pessoais.

Mas o exercício da convivência traz benefícios preciosos. Gratificações pequenas no dia a dia se transformam em enormes recompensas, traduzidas na agradável companhia de quem gostamos de quem precisamos para sobreviver, familiar, social ou profissionalmente. Os dissabores, os percalços, as indisposições fazem parte do convívio, inobstante o núcleo ao qual se pertença. Eles ocorrem entre casais, entre irmãos, entre vizinhos, entre amigos, entre colegas de trabalho, entre equipes de prática esportiva, sejam profissionais ou amadores.  ­­­

Enquanto isso, o mundo em convulsão perde a noção mínima de respeito à existência. As pessoas, em nome de religião, política, desigualdade, discordância, enfim, convicções de quaisquer naturezas, assassinam as outras sem a menor consciência do valor inestimável de uma vida. A sucessão diária e absurda de atentados contra inocentes, homens, mulheres, idosos, jovens e até crianças, em todos os cantos do planeta, se tornaram comuns. Parece já não ser mais a mesma a sensibilidade de quem os assiste pela cobertura da mídia mundial, tamanha a frequência dos eventos. Há uma tendência a se aceitar essa degradação como rotineira.

Da mesma forma, no cenário nacional e no carioca em particular, os crimes se sucedem a cada esquina, com insensatez, ousadia, frieza e desumanidade. As cenas reproduzidas pelos telejornais, sensacionalistas ou não, povoam as retinas de cidadãos acuados em suas residências, verdadeiros bunkers em meio a uma guerra civil. Não há horário, local ou circunstância específica para o acometimento de um ataque raivoso e cruel por marginais. Perdeu-se a dignidade. Saímos de casa sem a garantia do retorno, num ambiente de hostilidade e de incerteza,

A turbulência dos relacionamentos entre os seres humanos vem ceifando a felicidade dos homens de bem. E ela começa no próprio seio familiar, nos exemplos domésticos, na formação de um caldo de cultura temperado com desentendimento, ódio e agressões. Ela se transfere para as escolas, as universidades, os estádios, as ruas, os diversos locais onde a humanidade se encontra. As perspectivas indicam um futuro sombrio, tal a disseminação das práticas criminosas a se esconderem por trás de motivações diversas.

Até quando o ser humano desconhecerá que é impossível ser feliz sozinho?


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