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A viagem do filho pródigo

Gus e Mai 1

O 14/04/2016 foi um dia muito especial nessa vida quase sexagenária. A semana toda dormi agitado e, de 13 para 14/04, acordei algumas vezes, custei a conciliar o sono. Levantei cedo e ansioso, nervoso por assim dizer. Sobressaltado, percorri a distância entre a minha casa e o cartório na Ilha do Governador, o mesmo da averbação do óbito na minha certidão de casamento. Tive a permanente sensação de não conseguir chegar a tempo. Mas chegamos no horário.

Tudo foi muito rápido e emocionante, as palavras da juíza de paz, as fotos, a filmagem, as assinaturas, as lágrimas, os cumprimentos. Casamentos apenas no civil são mais objetivos, menos glamourosos, ainda que sensibilizem do seu jeito, envolvendo as pessoas mais chegadas, presentes à formalização do enlace. Mesmo a atmosfera fria da burocracia não conseguiu entorpecer os sentimentos aflorados.

Envolvido pelas lembranças de toda uma vida, foi suficiente apenas uma pequena fração de tempo, um átimo de segundo, para recuperar na memória o ser humano de intensa luz ainda sem sequer ter nascido. Depois, as imagens do lindo e generoso menino, da criança bondosa, cativante. Em seguida, o garoto vivaz e responsável, o adolescente amadurecido, o rapaz compenetrado, o homem focado no projeto de sua existência. Tudo sem perder as referências, a simpatia, a humildade.

Alguém, antes dele vir ao mundo, já anunciara a sua trajetória, já previra seu caminho iluminado. E guardei isso comigo até hoje, quando suas passadas seguras, equilibradas, determinadas pressagiam um sucesso irreversível. Tenho orgulho da geração dessa pessoa bonita por fora e por dentro, da lapidação desse caráter raro, da formação desse mestre em engenharia e em dignidade. O fruto ora admirado, um dia foi semente bem plantada, protegida e irrigada, cultivada com carinho e esforço.

Agora, vai ganhar a estrada com outra semente, germinando novas ideias, outros sonhos, buscando novos rumos e levando a outras terras o plantio exitoso, mostrando quão fértil pode ser esse trabalho. Não escondo a agrura da distância, a saudade antecipada, o inconformismo com a situação caótica de um país falido a estimular a saída de filhos pródigos como o meu. Isso não impedirá a ordem dos fatos, o amadurecer do corte do cordão umbilical.

Às mãos calejadas pelo arar da terra, cabe tão somente agradecer ao tempo pelo vicejar do fruto de sua semeadura. O plantio não me garantiu a colheita. Minha semente já não me pertence, se metamorfoseou em algo maior, sem fronteiras, sem reservas. Virou patrimônio da humanidade, sob a égide do Grande Arquiteto do Universo.


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