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O golpe foi antes das eleições

Janapina Paschoal

É, Chico, não foi a Rita nem a Carolina, mas a Janaína. Precisava aparecer uma mulher para simbolizar a reação contra esse momento de tenebrosas transações à luz do dia. “Não vai ter golpe” virou um bordão desses usados em programas humorísticos, hábito de um “governo piada pronta”. Seria cômico, não fosse trágico. Os sapos somente agora começam a se debater na água fervente, mas já estão quase cozidos. Alguns, como os batráquios peemedebistas, pularam da panela antes da ebulição final, exceto os que vão continuar engolindo sapos para permanecerem agarrados às tetas do poder. Um golpe partidário.

A tática dos desesperados é fazer eventos aclamados por movimentos custeados pelas contribuições sindicais. Não espanta o agendamento de cerimônias com claque oficial num exercício incansável de repetir a mentira para torná-la verdade, antiga estratégia. Incomoda mais o uso de uma retórica pobre de conteúdo, de qualidade e de correção, até mesmo do idioma pátrio, de maneira torpe. É o golpe nosso de cada dia.

Hoje, enquanto se contorcem as vísceras dos falsos argumentos a defenderem um governo acabado faz tempo, os mais carentes ficam mais carentes. É triste ver a população mais necessitada padecer das torturas diárias da economia, da escalada absurda dos preços, das doenças e da violência. Na falta de educação gratuita, os filhos de um povo esperançoso buscou no crédito prometido a chance de cursar uma universidade. E agora se vê na imposição governamental de pagar para estudar. Esses e outros os reflexos do crime perpetrado nas nefastas pedaladas fiscais. “Está passando mal, candidata? Não consegue falar? É isso, minha filha, a pressão baixou”. Lembram-se do último debate da campanha presidencial? Já havia golpe.

Tipificar um crime, dentre tantos revelados dia após dia, nem será uma tarefa difícil. Violação do direito tributário, comprometer o decoro do cargo, falsidade ideológica parecem suficientes. Portanto, ao que tudo indica, vai ter Impeachment. A Janaína doutora, distante das fantasias pequeno-burguesas das letras do Buarque de Holanda disse hoje apreciar a democracia, ao ver os cartazes de governistas e opositores. Mas se apressou a esclarecer que o problema não é esse, nem se trata de um embate da elite contra o povo. Falando como eleitora, afirmou se sentir enganada por uma candidata eleita por prometer o que já sabia não poder cumprir. As pedaladas fiscais comprovam o que ocorreu nas últimas eleições presidenciais: um golpe contra o povo.

Ou seja, não vai ter golpe. Já teve.


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