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Saudades do “João sem medo”

Saldanha

A idade traz, junto com a experiência, um saudosismo peculiar. Vez por outra nos voltamos para o passado e fazemos reflexões profundas, capazes de esclarecer dúvidas pessoais ou genéricas. Na medida do possível, venho me distanciando das preocupações rotineiras, ocupando o máximo do meu tempo com atividades prazerosas. Ampliei minha devoção às artes em geral, à música, à literatura, ao teatro e ao cinema em particular. Passei a valorizar mais a minha felicidade e abdicar de crenças ou filosofias enraizadas desde a mais tenra infância. Não raro descarto pesos dispensáveis à minha consciência e isso me faz muito bem. Venho fazendo um balanço pessoal, reavaliando verdadeiros dogmas da minha existência e parece natural encontrar lembranças instigantes, personagens especiais nessa trajetória de vida.

Hoje, ao ler manchetes costumeiras sobre a corrupção em nosso governo, no futebol daqui e do mundo, tive um insight pelo menos curioso. Lembrei-me de um brasileiro de riquíssima biografia, um cidadão com uma coragem invulgar, dono de uma história de vida invejável. Falo de João Saldanha, um maragato cuja infância se dividiu entre o Brasil e o Uruguai, num vai e volta fronteiriço ao sabor das escaramuças do pai, um líder político revolucionário. Seu avô fora um rico fazendeiro e a herança gasta com armas e movimentos de resistência a governos opressores. Não tardou para João incorporar esse perfil familiar ao seu. Familiarizado às armas e aos enfrentamentos, desde jovem se ligou ao Partido Comunista e em breve chegou ao Rio de Janeiro.

Na praia passou a exercer a atividade que mais lhe fascinava além da política: o futebol. Amadureceu suas ideias sobre o esporte, passou para o campo, foi treinador e depois comentarista famoso, um dos mais importantes da história do jornalismo brasileiro. Foi uma inspiração para mim, leitor voraz de suas colunas e ouvinte atento de seus comentários, como habitual aos amantes do rádio. Vibrei com a chegada do Saldanha à seleção brasileira, contra tudo e todos, em especial a ditadura militar. Sofri com a sua saída, pouco antes da Copa de 1970, por capricho dos ditadores. Tive o privilégio de assistir a uma palestra do “João sem medo” na PUC, quando lá estudei. Fascinado pelo estilo de vida daquele personagem combativo, de linguagem simples e objetiva, enxerguei no seu exemplo a minha vocação. Não me permitiram segui-la e mudei meu destino.

Pois agora imaginei o João Saldanha por aqui, fazendo uma resenha desses crápulas em nossa política e no futebol mundial, a começar dos que exploram a paixão nacional. O que o João diria de um ex-presidente da república com as vísceras expostas num Fiat Elba transformado em triplex; da prisão de inúmeros importantes dirigentes da FIFA; da absurda ditadura da CBF e Federações sobre o futebol brasileiro. Isso tudo, apesar dos três últimos ex-presidentes da CBF estarem envolvidos até a última gota de sangue com escândalos financeiros milionários. O atual principal mandatário do futebol brasileiro, o vice-presidente mais velho quando da renúncia do seu antecessor, foi recém-empossado de forma indireta. Trata-se de um coronel paraense, um deputado federal incapaz de distinguir entre uma bola de futebol e um cupuaçu.

E aí, João? Os comunistas chegaram ao poder e há quatorze anos se locupletam das benesses do nosso erário e estão tentando implantar a ditadura da esquerda, qual o regime bolivariano instalado aqui perto. O futebol já comprovou resultados arranjados, na primeira divisão, pasme. A seleção tomou de sete da Alemanha em pleno Mineirão, na Copa do Mundo, e a vida seguiu o seu curso normal. Assim como os milhões de reais, dólares e euros da corrupção na política e no futebol. Lembrei-me de você hoje, dos tiros que deu por aqui, das denúncias que fez; da desconfiança no Manga naquela final contra o Bangu do Castor de Andrade; de quando impediu que Gerson, Tostão, Pelé e o restante das Feras do Saldanha voltassem para o vestiário após um primeiro tempo de 0 x 0 contra a Venezuela. Passaram o intervalo debaixo de chuva num estádio em Caracas e fizeram 5 x 0 no segundo tempo. Desde que você se calou, há quase vinte e seis anos, não reagem por aqui. Você deve estar agoniado de não poder reagir daí, pelo menos do seu jeito. Seria isso o que você esperava para o futuro? Imagino que não e estou curioso. Mas só posso me contentar em refletir a respeito. Saudades de gente como você, Saldanha.

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