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Big Boy rides again and ever

Big Baile Big Boy

O tempo vai passando de forma inexorável e às vezes nos flagramos nostálgicos. Não é ruim, ao contrário, muito me reconforto ao lembrar do passado. Trazemos à tona as memórias de experiências marcantes, guardadas com cuidado num arquivo de nossa existência cujo atalho sempre estará disponível no desktop dessa caminhada por aqui. As lembranças revolvem a alma com sons, fragrâncias, imagens, retornam momentos indeléveis, numa dimensão tão próxima quanto o alcance da imaginação. Mais do que sonhar, reviver energiza, resgata a essência do pavimentado na estrada de meio caminho andado. A nostalgia reacende a vontade de viver com intensidade.

Sou apaixonado pelas artes, pela música, pelas letras, pelas pessoas comunicativas e de brilho próprio. Cresci num tempo sem internet, com poucas estações de TV aberta e de escassos recursos midiáticos. Por isso tive sorte de ver um fenômeno sacudir a comunicação brasileira a partir do rádio. O moderno na minha adolescência era escutar a Rádio Tamoio. Até que um tímido professor de geografia do Colégio de Aplicação da UFRJ, Newton Alvarenga Duarte, amante do rock, do soul e do funk, adaptou para cá o perfil de um famoso DJ americano, Wolfman Jack. Ao criar um personagem logo apelidado de Big Boy, o professor Newton incorporava o seu alterego frente ao microfone da Rádio Mundial, surfando nas ondas ZYJ 459/ AM 860 e se transformando numa força de natureza musical, numa caixa de ressonância do desejo de jovens represados por anos de chumbo e por ditames domésticos acovardados pela repressão.

Era impossível ignorar, de segunda a sexta-feira, a voz rouca sem ser grave do Big Boy ocupando a faixa das 18:00/19:00 no “Big Boy Show” e à meia noite com o “Ritmos de Boate”, ambos viagens ao universo da música dançante. Aos sábados ele nos mergulhava no repertório dos Beatles, com o seu Cavern Club. Onde estivéssemos, bastava um radinho de pilha com egoísta, o tataravô dos modernos e sofisticados earphones, para nos metamorfosear em insulares naquele ambiente nefasto da ditadura. Se não podíamos ir e vir com plena liberdade, expressar nossas ideias ou rejeitar de público o regime, a programação do Big Boy servia de alento. A música e o jeito descontraído do revolucionário DJ nos sacudiam dia a dia. Antes de morrer de maneira precoce, num enfarte acarretado por um ataque de asma, teve tempo de inserir a Eldopop no cenário FM de rock progressivo, uma novidade sem locutores e sem identificar as músicas longas. Enfim, Big Boy ajudou a virar e revirar a ampulheta num período sombrio. Afinal, éramos a adolescência e a juventude amordaçada.

Outro dia recebi um post de um grande amigo, Nelson, meu irmão postiço, sobre esse Chacrinha repaginado e resolvi fazer aqui a minha homenagem a esse personagem tão especial, democrático, esfuziante, um verdadeiro cometa a incandescer a vida de tantos jovens numa época de céu escuro. Sua passagem nesse plano durou pouco, apenas trinta e quatro anos. Com enorme talento ele fez suficientes para deixar sua marca em definitivo. Big Boy ultrapassou o rádio, passando pela TV e por bailes em clubes do Rio de Janeiro, gravando LPs sozinho (Bailes do Big Boy) e em parceria com o Ademir do Le Bateau. Um dos precursores da multimídia, seu legado mais importante foi o entusiasmo transmitido em seu frasear espontâneo e o compartilhar de sua fabulosa discoteca, um acervo de quase 20 mil discos.

A parte triste dessa história fica por conta do Big Boy ter vivido tão pouco. Por outro lado, sua intensidade e sua incrível alegria de viver estenderam até hoje, quando teria 72 anos, sua presença entre nós.

Valeu Big Boy! O crazy people agradece.

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