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Moro onde os outros passam férias

Fla Cristo noite

Minha maior comemoração deveria ser o término de fevereiro, mês que me levou três amigos queridos, todos alvinegros: o Normando e o Marçal, alvinegros botafoguenses e o Tarcísio, alvinegro atleticano. Eles assistiram ao jogo de outro plano, talvez até já tivessem assistido e já soubessem o resultado. Tramaram a vitória em preto e branco. Aliás, o clássico do Maracanã, o templo sagrado do futebol, foi parte de uma série de homenagens me fazendo lembrar a razão desse texto. Nesse domingo festivo de março, meu privilégio foi estar no meu Rio, onde vivo de janeiro a janeiro. E me flagrei acordando depois de quatro séculos e meio, assombrado pelas flechadas em São Sebastião e pelo banho de sangue de Estácio de Sá, Villegaignon e sua França Antártica, além dos fantasmas dos escravos enterrados aos milhares na Gamboa, mortos pelas epidemias e pela fome. Endêmica hoje em dia é a corrupção, matando muito mais escravos sociais nos hospitais, nas filas da previdência e nas balas perdidas.

Não há porque comemorar quando, em menos de dois meses, trinta e nove pessoas foram atingidas por balas perdidas. Mas, como a arte imita a vida e vasco-versa, dos mais de quinhentos anos dessa terra brasilis, estamos descobertos há quatrocentos e cinquenta. Com todos os males de um país com as entranhas retorcidas por escândalos passando por aqui e acolá. Mantemos a esperança de um dia, saneados todos os esgotos, os metafóricos e os a céu aberto, termos um paraíso onde viver, um lugar projetado pelo Grande Arquiteto do Universo num momento de especial inspiração. Quem sabe afrouxaremos esse nó na garganta dos cariocas, nauseados pela indignação com tanta nojeira pública e privada, peça de louça da qual não precisavam ter emergido tantos asquerosos.

E, liberto do jugo da imoralidade, afastado dos maus tratos e do oportunismo dos políticos, o Rio de Janeiro será mais do que o eterno monumento mundial da beleza natural. Costumo intitular as diversas fotos retratando as maravilhas do nosso reduto com a frase “Moro onde os outros passam férias”. Refúgio de guerreiros de toda a espécie, oásis da sede de justiça e de moral nas águas de nossas praias, do Leme ao Pontal. Somos sequiosos pelo ar marinho, pela água salgada, pelo papo descontraído e pela cerveja gelada. Molhamos as palavras no chope bem tirado e lavamos a alma das impurezas em nossas cachoeiras e cascatas. Somos vanguardistas, revolucionários e modernos. Conspiramos contra as desigualdades, contra as ditaduras de direita e de esquerda, contra os ultrapassados, contra os canalhas de plantão.

Somos de Padre Miguel e de Ipanema, do Leblon e de Madureira, da Lapa e da Gamboa, de Jacarepaguá e de Del Castilho, de Realengo e de Vila Isabel, de Copacabana e do Centro, da Tijuca e do Flamengo. Somos o Aldir Blanc, a Beth Carvalho, o Cartola, a Débora Colker, a Elizeth Cardoso, a Fernanda Montenegro, as Garotas de Ipanema, o Heitor Villa Lobos, o Ivan Lins, o Jorge Benjor, a Kátia Flávia, a Leila Diniz, o Machado de Assis, o Noel Rosa, a Olívia Bington , a Paula Toller, o Quintanilha, o Rubem Braga, o Sérgio Porto, o Tom, o Urubu-Rei, o Vinícius, o Xandu, a Yasmin Brunet, o Washington Rodrigues, o Zico, todos os conhecidos e todos os anônimos, os antônimos da tristeza, os sinônimos da alegria. Somos o sol que nasce atrás da montanha e o que se põe sob aplausos no Arpoador, adoramos a lua iluminando a Rocinha e o mar de São Conrado. Somos Salgueiro, Mangueira, Portela, Cacique de Ramos e Bafo da Onça. Somos Flamengo e tenho uma loura chamada Valeria.

E, terminando como comecei, uma referência aos meus amigos que se foram, há pouco ou há muito tempo, cariocas ou não. Aproveitem a vista melhor que têm do Rio de Janeiro, apreciem mas ajudem a zelar por essa maravilhosa cidade por outros séculos. Façam como Aquele que do alto do Corcovado mantém uma vigília silenciosa e plena, pensando consigo mesmo: Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem!

ALÔ, MEU RIO DE JANEIRO, AQUELE ABRAÇO!

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