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Ser ou não ser, eis a questão.

Teatro

No último ano e meio tenho participado ativamente do circuito cultural do Rio de Janeiro. Talvez ativamente seja um termo moderado, tal o número de espetáculos aos quais compareço. Peças, filmes, shows, exposições, enfim, busco recuperar um período de exílio forçado por motivo justíssimo. Sempre me interessei pelas artes em geral, nas viagens ao exterior elas ocupam um lugar de destaque na programação. Sei que sou uma exceção, até minha inquietude é. Isso me entristece. Por outro lado, vejo uma grande letargia nas pessoas precisando ser modificada. De um tempo para cá, em razão da valorização do Real, muitos artistas estrangeiros importantes se aproximaram do Brasil e não há um mês sequer sem uma agenda cultural os incluindo na cidade. Em paralelo, muita gente boa daqui mesmo está se mostrando nos espaços existentes em todos os cantos, como água fresca minando das paredes das salas de arte disponíveis. E tem pouca gente bebendo dessas fontes.

Afora a avidez na busca do tempo perdido, venho garimpando com cuidado a programação ofertada. Com a internet isso se tornou bastante fácil, mesmo se considerarmos um leque abrangente de opções. E quem não tem um celular com acesso à internet? Há alternativas culturais para todos os gostos e bolsos. A Cidade das Artes, na Barra, templo da cultura envolto em disputas politiqueiras típicas dos nossos governantes, permaneceu inútil por longo tempo. De origem foi batizada Cidade da Música pelo padrinho político do atual prefeito. Discutiram-se gastos astronômicos e se correu o risco de perder o investimento faraônico. Depois, em razão do racha entre os dois, foi rebatizada após longo ostracismo. Vencidas as barreiras idiossincráticas dos homens públicos, se transformou num polo cultural muito especial do Rio de Janeiro. Tem fácil acesso, é ampla, com equipamento moderno e tem oferecido uma gama de atrações muito interessante, algumas gratuitas até, em razão de patrocínio privado inclusive. Entretanto, não a encontro cheia como esperava. Mesmo quando a atração merecia demais. E olhem que não passo uma semana sem passar lá.

Outra opção preciosa é a rede do SESC. Seja em Ramos, na Tijuca, no Centro, em Copacabana ou em Jacarepaguá, os teatros apresentam uma quantidade expressiva de espetáculos, a preços muito acessíveis e populares. Da mesma forma que a Cidade das Artes, exceto em caso de artistas da MPB de renome, nem de graça o povo comparece em massa. É incrível encontrar o SESC Centro semi vazio num domingo às 19:00 para uma ópera divertida e leve, “O Pequeno Zacarias – Uma Ópera irresponsável”. Com texto de José Mauro Brant e direção musical de Tim Rescala, além de um elenco de primeiríssima linha, ainda que não badalado, encabeçado pela Soraya Ravenie. Meia entrada a R$ 10,00 e existe gratuidade para inscritos. É verdade que o povo tem dificuldades, mas quase ao lado do metrô, estamos falando de um programa que custaria R$ 17,00 com a passagem de ida/volta. E, posso garantir, de qualidade inquestionável. Através do enredo, retratando a Prússia do século XIX, muitas analogias com a vida dos dias de hoje são possíveis, viabilizando uma perspectiva de visão mais acurada para as pessoas sobre o momento que vivemos.

Poderia me estender entre outros exemplos, porém, não pretendo mais do que uma reflexão sobre o tema. Vivemos uma época de colapso moral e ético. Não há evolução sem cultura, sem democratização da educação, sem acesso irrestrito à informação. A população se vê conduzido por nichos de interesse pontual, com uma superexposição a fatos pasteurizados da maneira mais espúria, pelos interesses mais diversos possíveis. Há alguns anos um presidente popular, num péssimo exemplo, disse ter preguiça para ler e nem se lembrava do último livro que tivesse lido. Não tenho registro do mesmo ter sido flagrado numa peça de teatro. Que tragédia, um formador de opinião. Essa vida de gado, esse povo marcado, como canta há décadas o poeta Zé Ramalho, se vê ao sabor das ondas de desejos políticos, pessoais e carreiristas de inúmeros exploradores da massa incauta há séculos. Essa privação de sentidos está atrelada ao desconhecimento, à relegação da cultura a um enésimo plano. E o que incomoda é saber que há quem possa reabastecer sua carga em fonte cristalina e pura, mas prefira se manter alienado por opção. Foi a sensação que tive ao entrar no antigo Teatro Ginástico ontem no início da noite e encontrá-lo meio vazio. Ou, quem sabe, de uma forma mais otimista, meio cheio. Ainda assim, de um jeito ou de outro, continuo pensando ser muito pouco para mudarmos as coisas. Ou só os cinemas com blockbusters têm que lotar?

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