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Universo no seu corpo

Dali Ascensão de Cristo

Nosso Universo, nossas crenças, nossa existência estão sempre muito mais próximos de nós do que imaginamos. Vivemos em constantes pesquisas, buscamos dogmas e respostas que se divertem conosco numa brincadeira eterna. Somos infinitesimais diante da grandeza do multiverso, cuja magnitude e fronteiras se expandem a cada momento. E somos colossais diante da insignificância das partículas que nos compõem. Num aparente simples minuto de existência nosso corpo executa milhões de funções que nos permitem permanecer vivos. Nesses sessenta segundos o coração bate setenta vezes e bombeia cinco litros de sangue por noventa e seis mil quilômetros do sistema circulatório. No mesmo período, em nossa medula óssea nascem cento e cinquenta milhões de novos glóbulos vermelhos. Nem levantamos da mesa de refeição e os duzentos e cinquenta metros quadrados de intestino já digerem os alimentos que acabamos de ingerir. Estamos espalhados por todos os cantos da superfície terrestre, em razão de nosso corpo se adaptar com perfeição e versatilidade às diferentes condições climáticas existentes. São inúmeros pequenos milagres processados pelo organismo todo o tempo.

Passamos nove meses desenvolvendo nossos órgãos com a ajuda do corpo materno, até que a saída do útero nos obrigue a praticar sozinhos o milagre da sobrevivência. Aprendemos a respirar seis vezes por minuto, Músculos trabalhando em sintonia e harmonia absolutas fazem funcionar uma bomba espetacular que pulsa em nome de nossa existência. Com três semanas de vida as células marca-passo acionam e controlam o ritmo das batidas do coração, as mesmas que trabalham até a última batida de nossa trajetória. Elas fazem a oxigenação de nosso corpo através de vasos sanguíneos que interligados dariam duas voltas ao redor do planeta. Um projeto maravilhoso e perfeito, cuja manutenção mal feita diminui o prazo de validade. Com rara frequência apresenta defeitos de concepção, mas na maioria das vezes sucumbe ante o uso inapropriado e a submissão a extremos.

Nos momentos de desespero, diante da constatação do inevitável, é costume olharmos para os céus e buscarmos uma ajuda que se encontra em nosso interior o tempo todo. O verdadeiro e maior templo de nossas preces abrigamos numa edícula esquecida nas profundezas da imperfeição dos hábitos. Sabemos como viver e optamos por prejudicar a nós mesmos, inconscientes por conveniência. Temos certeza de que alternativa nos alarga a estrada, porém sem pairar dúvida de encurtarmos o caminho. E nesse trajeto, talvez o único de toda a existência, o prazer reside no prolongamento. Sempre haverá algo a descobrir, uma nova realidade a enxergar, um sonho não realizado, uma esperança, uma paixão, um desejo.

O ocaso de uma vida traz profundas reflexões existenciais. Procuramos respostas inexatas e deduzimos certezas disfarçadas de mistério. Somos imprecisos nas avaliações de percurso e cirúrgicos nas conclusões finais.  Livres para decidir pelo melhor destino, apostamos em nossa razão indiscutível, que só o tempo saberá julgar. Quando se aproxima o momento crítico do martelo bater, nem sempre ocorre a nosso favor. Resta entendermos o processo como a consequência de passos irreversíveis, inolvidáveis, irrevogáveis.

Vivamos, isso importa mais do que tudo. Amemos, sublimemos e resistamos enquanto pudemos. Não somos eternos, embora assim interpretemos no viço. Saboreando paladares exóticos e inefáveis, cheguemos ao êxtase, vendo sob outras perspectivas, ganhamos muito mais do que perdemos. Parafraseando Pessoa, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E ela precisa estar intacta, inobstante o envoltório definhando. Somos o que fomos, seremos sempre o que fizemos e nossas sementes germinarão em flores e frutos mais adaptados, mais vivazes, mais aperfeiçoados. Justo e perfeito.


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