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40 anos, Victoria

Camisas CSI

Num misterioso universo, convivemos com explosões gigantescas de corpos celestes, ao mesmo tempo em que observamos complexos movimentos de partículas infinitesimais. E viver é vagar nesse intervalo de grandezas. Minha satisfação hoje tem a simplicidade de dispensar um telescópio ou um microscópio para conseguir olhar cada rosto, praticamente os reconhecendo todos, sem precisar recorrer às etiquetas que a miopia me impede de ler daqui. Se o tempo é inexorável, nossa amizade também. Rejuvenescemos sempre que nos reencontramos, passados quase quatorze mil e quinhentos dias desde 1974. A propósito, aquele ano foi título de um hino da banda “O Terço”, cujos acordes não me canso de escutar para matar a saudade de vocês.  Essa música, pelo menos para mim, guarda semelhanças com um período inesquecível. Falando em saudades, sinto falta do Beteille, da Cristina Hirsch, do Cabral, do Flávio Couto, do Morivalde, da Lilian Quintanilha, do Ventura, do Fernando Justo, do Pacheco, do Tuta, do Jorge Phillipi Borges e de outros colegas que não estão mais nesse plano. Aproveitando a referência a esses queridos parceiros, lamento a ausência de todos que estariam conosco agora e não puderam.

Estive há duas semanas no local onde essas amizades começaram ou pelo menos a maioria delas, sem precisar recorrer à memória. Passei alguns minutos em frente ao nosso quadro de formatura, no segundo andar, à direita de quem sobe a escada dos fundos. Lá recordei ter vivido no Colégio Santo Inácio, ao longo de dez anos, muitos dos melhores momentos de minha existência. Não apenas pelo aprendizado obtido para toda a vida, conteúdo que nos diferenciou num mercado selvagem desde então. A melhor lembrança, a mais especial, é a aproximação com tantas pessoas maravilhosas. Apenas meninas e meninos, prenhes de ideias, sonhos e projetos, criaturas heterogêneas e imperfeitas, porém cúmplices de uma história escrita por centenas de mãos, lastreando cada cálculo, cada cirurgia, cada texto, cada julgamento em prol de tanta gente desconhecida àquela época e com quem encontraríamos depois nos cruzamentos do destino. Nenhum sócio, paciente, cliente, leitor, ouvinte ou espectador pode imaginar o que aquele profissional à sua frente era há quarenta anos. Da mesma forma, poucos parentes saberiam. Tanto quanto não imaginávamos, nos idos de 70, o que seríamos hoje. Vencemos todos, pois sobrevivemos a tudo e estamos aqui. Na verdade, somos os mesmos. Os uniformes não nos cabem mais, a morfologia mudou, acumulamos experiências riquíssimas, sofremos perdas, não ficamos incólumes e ainda assim nossas almas permanecem intactas.

A trilha sonora daqueles tempos, plenos de felicidade, hormônios e revolução, ao término dos 60 vinha do estímulo de Caetano Veloso em “Alegria, Alegria” e da convocação de Geraldo Vandré em “Pra não dizer que não falei de flores”. Os 70 começaram pregando uma reviravolta singela em “Roundabout” com o Yes do mesmo Jon Anderson que nesse exato momento canta a poucos quilômetros daqui, no Vivo Rio; Tim Maia romanceava em “Azul da cor da mar”; o Creedence perguntava “Have you ever seen the rain?” num eco suave em cada ouvido dos bailes de rosto colado; Gil anunciava a circulação do “Expresso 2222, que partia de Bonsucesso pra depois”; o America alertava “o oceano é um deserto com a vida submersa” em “A horse with no name”; os Mutantes relaxavam em “Ando meio desligado”; Lennon profetizava como evitar tantas dificuldades mundiais em “Imagine”. O Fernando Gamma tocava no Vímana com o também inaciano e desconhecido Luís Maurício, hoje o famoso Lulu Santos. Muitas músicas tocaram de 1974 até hoje. Mais de oitocentas e cinquenta mil horas de alegria e de tristeza, de sucessos e insucessos, não foram suficientes para nos separar em definitivo.

Reunidos aqui no Victoria não por acaso, somos vitoriosos das décadas e da incerteza. Os laços foram mais fortes. Uns mais, outros menos, nos encontramos no percurso, nos corredores da vida, subindo e descendo escadas de madeira ou não. Não há mais embates na Mariana, recreios, beijos roubados, cascos de coca-cola trocados, basquete, vôlei, futebol, inspetores, coordenadores, professores ou jesuítas ao nosso redor. Aprendemos e nos guiamos por outros mestres e por nós mesmos. Plantamos árvores, escrevemos livros, tivemos filhos, desenvolvemos projetos, salvamos vidas, ajudamos a construir um mundo melhor. Sobrou pouco tempo para nos rever. Entretanto, jamais nos esqueceremos do que partilhamos ontem, hoje e sempre. Cada ação individual empreendida por nós terá pelo menos um átimo do companheirismo e da amizade cultivada há mais de quarenta anos, da troca de experiências, do acolhimento de uns aos outros. Tenho a impressão de estar escutando John Paul Young cantando “Love is in the air”. Ele pede um brinde à nossa amizade! Que ela seja duradoura e garanta novos encontros, além do simbolismo do Bar Lagoa e do Frontera. E, reafirmo, esses reencontros rejuvenescem. É possível dispensar os óculos para enxergar a felicidade estampada em cada rosto! Meus cumprimentos a todos.

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