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Um povo sem cultura

Semana Câmara

Parafraseando os mascates populares, eu poderia estar aqui falando do mandarim de nome impronunciável que encampou uma cruzada contra a corrupção chinesa e já enquadrou mais de 200 mil corruptos por lá. O carrasco dos corruptos chegou a distribuir aos seus comandados uma obra literária narrando a revolução francesa. O objetivo é alertá-los para o risco dos bilhões de chineses se revoltarem contra esse estado de coisas.  A “PETROCHINA”, dentre outras, abrigava uma quadrilha da pior espécie coordenada pelo ex-chefe do serviço de segurança chinês, enquadrado também.  No mundo todo há corruptos, a diferença entre os países fica no tratamento que se dá a eles. A impunidade na burocracia tupiniquim exige a adoção desse produto Made in China, mesmo que em meio a essa caça às bruxas se aproveitasse para eliminar desafetos. O Brasil está precisando disso com um atraso de décadas. Talvez de vida inteira. Mas, esse mal está enraizado em nossa cultura de tal forma que penso ser incurável. As ações contra isso dependem de corruptos e eles não são loucos nem terão um acesso de honestidade da noite para o dia.

Na impossibilidade de darmos um choque heterodoxo na ética nacional, daqueles do tipo doa a quem doer, vamos falar da cultura no sentido mais conceitual. Tenho ido com frequência à Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, A programação é bastante interessante, o espaço ótimo e o acesso muito fácil. Mas, tudo na vida tem prós e contras. Não foge à regra a polêmica obra da gestão César Maia, em razão dos custos astronômicos de sua construção. Além de pouco frequentada, exceto em eventos gratuitos, o local demanda maior divulgação e alguns ajustes. Um deles, em minha opinião, diz respeito à ausência de uma lanchonete, cafeteria ou algo do gênero. Não se justifica num empreendimento tão grande oferecer ao público uma barraquinha com reduzidas opções de lanches e bebidas. Falta conforto, alternativas e, sobretudo, atenção com os frequentadores.

As salas são excelentes, embora subutilizadas. Num ambiente tão portentoso a programação deveria ser mais plena, até para justificar os custos de manutenção. Afora isso, se observa um distanciamento da população da agenda cultural, inobstante a localização ser nobre. Na semana passada, por exemplo, tive oportunidade de comparecer a quatro eventos culturais de primeira linha. Na segunda-feira assisti a um excelente show de Alceu Valença no Teatro SESI da Avenida Graça Aranha, promovendo o lançamento do CD/DVD Valencianas. Alceu parece não envelhecer e arrebatou a plateia lotada do teatro.

Falando em não envelhecer, na quarta-feira fui ao Theatro Municipal assistir à exibição de “O garoto”, da inesgotável coleção do gênio e imortal Charles Chaplin, com a música ao vivo da Orquestra Sinfônica do Theatro. Espetacular evento do projeto Música e Imagem, da talentosa Carla Camuratti. Noite sublime. Na sexta-feira estive na Cidade das Artes para um concerto de orquestra de câmara sobre o qual falarei mais em seguida. E no fim de semana assisti dois belos filmes: “Rio, eu te amo”, uma ode à Cidade Maravilhosa interpretada por grandes estrelas internacionais/nacionais, encabeçadas pela Fernanda Montenegro, Harvey Keitel e Vincent Cassel; o outro foi “O doador de memórias”, metáfora interessante da vida numa ficção científica muito bem elaborada, com a chancela da interminável Meryl Streep e do Jeff Bridges. Telas grandiosas, ambas.

Voltando à Cidade das Artes, meu programa de sexta-feira, foi maravilhosa a apresentação do quarteto de piano (Ney Fialkow), dois violinos (Daniel Guedes e Jadenir Lacorte) e violoncelo (Fabio Presgrave) tocando Radamés Gnatalli e Brahms. A lastimar o teatro de câmara ter capacidade para 1.200 pessoas e abrigar em torno de 20 testemunhas de um espetáculo tão bonito a preços bem acessíveis. Já assisti, há pouco tempo, uma apresentação especial da Tereza Cristina cantando Chico Buarque, naquela mesma sala. Não havia um lugar vago. Era de graça, como alguns dos eventos promovidos ali. Explica mas não justifica.

Enfim, isso precisa ser trabalhado com tenacidade e competência. A música de qualidade, em qualquer das suas versões. Acalenta a alma e enternece a mente. A lavagem cerebral exercida ao longo dos tempos massacra o povo com verdadeiras agressões musicais empurradas ouvido adentro. Disfarçadas de roupas e cabelos esquisitos, corpos conformes e disformes se contorcem, beijam ombros e que tais, numa pobreza de valor musical a arrastar crianças, jovens e adultos como fez o flautista de Hamelin ou fazem as bolsas-engodo.

Ainda há tempo para bons antídotos para o tratamento dessa enferma cultura. Pelo menos enquanto não aparece alguém disposto, de verdade, a sanear o esgoto em que se transformou a política brasileira. Sem a hipocrisia governo após governo, cujo interesse é manter o povo inculto e agrilhoado.

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