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Não vou ter Copa!

BrazucaPor esses desvios do destino, essas idas e vindas estranhas na vida de todos nós, eu não consegui um ingresso sequer para a Copa do Mundo. Amante do futebol, tentei todas as vezes, para o Rio, BH e SP, desde a primeira fase de vendas da FIFA, e não tive êxito. Quando eu era menino, incomodei pai, tios e avô enquanto eles escutavam a Copa do Chile (1962). Não tinha muita paciência para ficar ouvindo aquelas interferências nas ondas do rádio. Um Telefunken antológico do meu pai permitiu o meu vivo interesse na Copa da Inglaterra (1966), quando jurei a mim mesmo presenciar o evento um dia, fosse aonde fosse. Em 1978 eu já poderia ter pensado no assunto, mas os tempos de chumbo me demoveram da ideia. À do México (1986) e à da Itália (1990) nem cogitei comparecer. Quase fui à Copa da Espanha (1982) e à Copa dos EUA (1994), porém acabei impedido por motivos de última hora. Ameacei ir à Copa da França, mas também não foi possível. No Japão (2002) o impedimento foi logístico, pois a distância e os valores estavam proibitivos. Na Alemanha (2006) e na África do Sul (2010) o problema foi financeiro. Finalmente, a Copa se cansou de me esperar e veio até mim. E aí a sorte me abandonou na compra dos ingressos. O meu sonho de criança bateu à minha porta em grande estilo e eu não pude realizar.

Por outro lado, ainda que já comece a pensar na Rússia (2018) e no Catar (2022), quando já estarei aposentado, a idade e as diferenças podem pesar. Enfim, serão outras histórias cujo desfecho só mais adiante saberei. Pode ser uma questão de justiça, porque não concordo com a corrupção descarada cercando o evento num país desigual como o nosso. Muita gente, os mesmos, enriqueceu ainda mais com as obras faraônicas superfaturadas enquanto hospitais, escolas, transporte e serviços públicos em geral pioram a cada dia. Os oportunistas se aproveitam do momento para imobilizar avenidas e estradas, hospitais e segurança, transformando as greves em arma criminosa contra a população já desassistida faz tempo. O povo, por mera irresponsabilidade e falta de equilíbrio no exercício constitucional do movimento paredista, se vê impedido de exercer o direito de ir e vir e, muitas vezes, morre por conseqüência de atitudes absurdas.

Assim foi o caso do fotógrafo Luís Carlos Marigo, vitimado pela falta de socorro a um enfarte à porta do Instituto de Cardiologia no Rio de Janeiro, em razão da greve dos médicos. Repugnante saber disso, pois a mais procedente reivindicação não pode se sobrepor à vida humana. O motorista do ônibus onde estava a vítima desviou seu rumo e parou em frente ao hospital. Na triagem costumeira dos vigilantes de recepção foi informado que não havia emergência no local. Apesar de todo o barulho, nenhum médico se apresentou. O óbito ocorreu ali mesmo. A diretora do hospital agora alega ter ocorrido um problema de comunicação. Correria o mesmo risco de “problema de comunicação” um ente querido do vigilante da triagem, de um enfermeiro dali ou de um médico daqueles, quem sabe da própria diretora? É o retrato do momento pelo qual passamos.

Todas essas tragédias emolduram um cenário dantesco. Somos vítimas do caldo de cultura misturando governantes incompetentes e corruptos, cidadãos revoltados com o estado de coisas fazendo pior para reivindicar, destruição de patrimônio de terceiros, etc. A indignação popular precisa canalizar sua justa discordância para as urnas. A Copa, essa mesmo à qual não presenciarei por força do destino, propiciará uma visibilidade mundial ao Brasil, para o bem ou para o mal. Poderemos passar uma imagem de sucesso ou de vira-latas, considerando que o futebol, o evento mundial, a despeito dos ladrões e das improbidades, precisa ser coroado de êxito. Já nos envergonharemos das obras não concluídas, das gambiarras e das promessas descumpridas. Deixemos para cobrá-las nas urnas e vamos torcer pela realização pacífica do torneio. O que estará em jogo a partir do pontapé inicial em 12/06/2014 é a vocação do Brasil em receber bem os turistas e promover um evento internacional. O que estará em jogo a partir de 12/06/2014 é o prestígio do futebol brasileiro, o mais campeão dentre todos. Não confundam as coisas!

Esses mesmos oportunistas de hoje comemoraram a escolha do Brasil para sediar o evento e não se manifestaram contrários à época. Esses mesmos grevistas do metrô paulista recuaram das exigências salariais e passaram a negociar apenas as demissões e o aumento da multa diária pela paralisação. Como podem ter paralisado a cidade de SP por cinco dias, massacrando o povo paulistano e agora aceitam o mesmo valor oferecido antes, negociando somente as demissões por justa causa? Isso é tripudiar da população. E por que o governo de SP não agiu com veemência antes? Absurdo ainda encontrar quem afirme ser o preço da democracia. Eu não me disponho a pagar por isso. Não, “presidenta” “incovenienta” e “incompetenta”. Eu não estou sob o jugo da bolsa família, sou livre e independente para ter opinião sem estar manietado pelo seu regime. Não vou me esquecer das falcatruas nos superfaturamentos, da farra com o nosso dinheiro, das falsas obras de mobilidade urbana, de todo o legado prometido e não cumprido. Nem das isenções fiscais não pedidas e oferecidas. Nem das doze sedes desnecessárias e com mero objetivo eleitoreiro. Nem tínhamos a presunção de ver inaugurado o nosso trem bala RJ x SP, apesar das promessas e cinqüenta e quatro anos após o Japão nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Por essas e por outras, “presidenta”, não venha com bravatas. Pare com essa politicalha rasteira porque não há o que comemorar, não me venha com churumelas. Os oportunistas ainda vão lhe incomodar um pouco esses dias, mas o povo lhe deu apenas uma trégua. Estamos enojados de você, dos outros, de tudo. A cobra vai fumar em breve. Vamos fazer contas com vocês, os governantes e políticos em geral, mais adiante. Vamos acertar com essa gente em outubro, nas urnas, fazendo a maior manifestação de repúdio a tudo que não presta. E, em excesso, diga-se de passagem. Agora vamos torcer pela seleção brasileira e pelo sucesso do evento. Eu não vou, porque não consegui, mas VAI TER COPA!

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