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Que democracia é essa, cara-pálida?

 Fundação catarinense de educação especial

Tenho o maior respeito pela democracia e pelas manifestações de repúdio a esses desgovernos, sem exceção, o federal, os estaduais, os municipais. Tenho o maior respeito por todos os que reivindicam, inclusive a Fundação Catarinense de Educação Especial. Mas tudo tem limite nesses tempos quando um ex-presidente qualifica de “babaquice” ter acesso por transporte público ao estádio da abertura da Copa, jogando a imprescindível e prometida mobilidade urbana no ralo. Embora nada seja surpresa nas palavras do ex-presidente NÃO VI, NÃO OUVI, NÃO SEI DE NADA. Um operário que pouco trabalhou e ficou rico junto com a família. Nem a sugestão do prócer petista de irmos “no lombo de jumento”, nem o Secretário de Turismo do Rio de Janeiro afirmar que taxista não precisa falar idiomas estrangeiros, porque os turistas têm obrigação de falar o português. Nem o Secretário de Esportes do Rio de Janeiro dizer que a Copa não é para cadeirantes. Nunca antes na história desse país houve tanta ignorância no meio político, tão pouca sensibilidade de mandatários, tanta corrupção impune. O Brasil virou uma esculhambação oficial.

E quem são esses políticos? Brasileiros criados num caldo de cultura desandado faz tempo. Nossa vocação não é a do complexo de vira-latas, como defendeu Nelson Rodrigues. O brasileiro tem uma fixação em usar como espelho um comportamento antiético, despudorado e pusilânime de “se dar bem na vida”, não importa os meios. A necessidade de subir na escala social, desigual desde o descobrimento pelos ancestrais do Cristiano Ronaldo, amplifica um instinto voraz e antropofágico. Somos descendentes dos silvícolas devoradores do Bispo Sardinha e o cruzamento com os patrícios desterrados desembarcados aqui nos levaram a um patamar preocupante. O destino do bispo fez os nativos passarem a ambicionar a promoção de sardinhas para tubarões. Bispo hoje só o modelar Macedo e sua fortuna incalculável.

O brasileiro busca o sucesso daqueles que aparecem em manchetes devastadoras, porque reconhecem como exceções as punições da justiça. A esmagadora maioria dos golpistas oficiais flana por aí rindo da miséria do povo, das condições desumanas dos nossos hospitais, da precariedade de nossas escolas, da incompetência de nossa segurança, da passividade de nossa justiça quando o réu é graúdo. Só ladrão de galinha punido exemplarmente. Do lado de cá, a população torce por uma chance de sentar numa cadeira do poder e “lavar a égua”. Concursado, ocupei um cargo público e fiz carreira. Larguei numa situação em que ou me corrompia ou saía. Preferi sair. Enquanto estive lá, muitos conhecidos me disseram que desejavam um mês no meu lugar para “resolverem a vida”. Essa, infelizmente, é a nossa realidade.

Entretanto, muita gente se candidata ao serviço público, através de concursos disputadíssimos ou de indicações de partidos no poder, essa uma prática eterna e nefasta. Digo entretanto porque as permanentes greves demonstram uma insatisfação contraditória com a procura pelas vagas. Devem ser muito desagradáveis mesmo as remunerações superiores às do mercado, a carga horária benevolente, a cobertura médica de primeira, a aposentadoria diferenciada e, às vezes, até quatorze ou quinze salários anuais. Enfim, ruim ou não, diante da reação retardada dos governantes, as negociações com as diversas categorias só ocorrem quando a greve eclode. Não há trabalho de inteligência, nem ação preventiva. Ignora-se o clima favorável às paralisações e depois do leite derramado se espera por uma solução milagrosa, por uma auto-extinção do movimento reivindicatório.

E os grevistas, como reagem ao imobilismo governamental? Juntam 50, 100 ou 200 manifestantes e obstruem as principais vias públicas, causando transtornos sérios aos demais cidadãos, impedindo o direito de ir e vir de quem precisa trabalhar e/ou estudar. Mais grave, impossibilitam o atendimento médico de pessoas presas dentro de ambulâncias em engarrafamentos quilométricos. Por paradoxal que pareça, torço que essas obstruções criminosas se proliferem. Pelo menos até a morte de mães, pais, filhos, irmãos e parentes próximos aos responsáveis pelo movimento, em razão de não receberem atendimento de emergência com o respectivo socorro preso em meio ao congestionamento causado por eles mesmos.

Discordo de atribuírem a essas paralisações à desculpa de “preço da democracia”. Isso está longe de ser democrático. Tanto quanto a agressão de piquetes aos trabalhadores que não aderem ao movimento, denominados pelos paredistas como “fura-greves”. Impedir o direito de ir e vir não me parece democrático. A manifestação sim, a reivindicação também, ambas fazem parte do jogo democrático. A truculência, o vandalismo e o desrespeito ao direito dos demais cidadãos deviam ser considerados crimes graves, inafiançáveis e receberem penas severas. Só assim diminuiria o estímulo para os insensatos quando supuserem que os meios justificam os fins. Pouco me importa quem por equívoco alegue ser uma volta à censura ou à ditadura. Esses somente cairão em si quando sofrerem na pele um prejuízo pessoal, com a perda de um ente querido, de um emprego ou de uma oportunidade que não volte por conta do trânsito impedido por  esses irresponsáveis. Que democracia é essa, cara pálida?

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