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Choque de realidade

 Brasil

Depois de quase quinze dias na Espanha, confesso uma surpresa maior com o choque de realidade no meu retorno ao Brasil. É óbvio que eu esperava reencontrar as mazelas de sempre no trânsito, no transporte público, na saúde, na educação, na corrupção, nos governantes. Nosso povo, apesar de muito mais hospitaleiro, solidário e alegre, tem péssimos hábitos nas ruas, nos espaços públicos e privados, enfim, um caldo de cultura bastante distanciado do que vemos na Europa. Demorei as mesmas duas semanas para acordar.

Os europeus são sisudos, quase antipáticos, porém respeitam os direitos dos outros e se comportam com urbanidade em quase todas as situações. Impossível não nos lembrarmos dos mil e quinhentos anos a nos separarem da história, do conhecimento, dos costumes daquela comunidade. As construções, sua arquitetura, seus monumentos, praças, museus, enfim, as cidades possuem uma atmosfera diferente.

Fomos abençoados pela natureza pródiga e pelos recursos em abundância. E se essa palavra entusiasma, acrescento também a preferência internacional pelas derrières brasileiras, decantadas em todos os idiomas. Além da Imensa Nação Rubro-Negra, nossa terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves fora do cativeiro gorjeiam melhor que lá. Nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, apesar de não mais vê-las atrás da poluição e dos seus dissabores. Nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores sem a ação dos corruptos e das madeireiras sem pudores.

Lá andei de ônibus, de metrô e de trem o tempo todo, em seis cidades diferentes, pagando menos em moeda local. Há limpeza nas ruas, civismo e respeito ao próximo. As manifestações populares, marca da democracia, ocorrem sem violência e sem agressões ao patrimônio em geral. Usa-se megafones para ampliar a ressonância das reivindicações, faixas e muita gente acompanhando a passeata ordeira e civilizada.  Ninguém se sente prejudicado, meia dúzia não decidem por milhares, uma ou duas dezenas não paralisam uma cidade, há um sentimento de mais equilíbrio, mais inteligência e verdadeira democracia. Chego aqui e encontro o caos. Cada dia uma greve, um lock out,  uma atrocidade, um oportunismo, um desrespeito.

A começar do governo, uma farsa em todos os níveis, federal, estadual e municipal. Promessas descaradamente descumpridas, mobilidade urbana perdida, bilhões jogados nos ralos cujo destino são os mesmos bolsos marcados, que só as urnas não enxergam. A outra paixão nacional enxovalhada de tal forma que nem as ruas estão pintadas como de praxe. Encalhe de camisas, bandeiras e de tudo relativo ao evento. O povo não foi convidado para uma festa tramada para a FIFA e seus cúmplices enriquecerem mais. A multidão apaixonada pelo futebol está desiludida e cansada de ser enganada. Os jogos terão a bola rolando na hora marcada, mas não haverá sintonia entre um país de desigualdade extremada, de bolsas enganosas e mentiras deslavadas.

Se o Fidel tem vinte residências luxuosas, ele é o modelo. A Cuba venerada, incensada pelos próceres de charuto Monte Cristo no canto da boca entre um e outro gole do melhor double black. Não mais espaço para o cigarro, para a cachaça, sequer para a caipirinha. Os líderes populares têm gosto apurado. O povo que se exploda. O resto é conversa fiada. Peço licença ao Tostão, meu ídolo nas colunas depois da perda do Armando Nogueira. O Dr Eduardo fechou a sua maravilhosa coluna de hoje com essa pérola:

“Freud gostava de repetir uma frase de Shakespeare : A consciência nos faz todos covardes, no sentido de ser racional, prudente, ético, justo e social. Por outro lado, deixamos, com frequência, de lutar por nossos profundos e verdadeiros desejos, nem sempre compatíveis com nossos deveres sociais”.

Nas Olimpíadas o Brasil ficou em 22º lugar geral. Quando se trata de desigualdade social o país fica com a quarta posição na América Latina. Vamos ver depois da Copa.

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