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Judas é café com leite, diria Gabo.

Gabo

Desde quinta-feira estou para escrever sobre o Gabo, incomparável escritor liberto desse tempo a faltar só para quem ainda permanece agrilhoado a tão insignificante dimensão. Um dia, ou um outro ponto da linha cuja definição desconhecemos, todos seremos a caminhada encerrada, a história contada e as obras perpetuadas, quem fizer jus. Não teremos a mesma imagem, sequer sabemos se teremos uma, chamarão de nós o legado deixado para os transitórios de então. As diferenças de cor, raça e credo ficarão dissipadas diante da morfologia imprecisa dos elogios exagerados ou das críticas injustas. Discordaremos de muitos, concordaremos de outros, mas seguiremos o inexorável caminho de novas descobertas em mares nunca antes navegados.

Entre o momento do fim do inverno, depois do “outono do patriarca”, de Gabriel García Márquez e hoje, domingo de Páscoa, fiquei a refletir sobre suas imortais palavras, sobre aquelas mais memoráveis aos meus neurônios. Cada um deve ter as suas, não menos importantes, portanto vou deixá-los com as suas escolhas. Na verdade, induzidos todos pela inspiração incomum do criador de todas as frases nas quais se encaixaram com tanta perfeição. Jornalista de ofício, cronista raro, escritor brilhante, Gabo reuniu nos três perfis as condições mais interessantes para o desenvolvimento de sua literatura. Não por acaso recebeu o prêmio maior de um homem das letras. A quem pensou no Nobel justíssimo, alerto: ao coração dos artífices da palavra a devoção dos leitores fala mais alto do que um prêmio.

Impelido pelo momento, não posso me furtar às merecidas reverências a um mago da escrita. Li poucas obras desse fabuloso autor, se considerarmos sua totalidade. Todas, porém, cujo privilégio de mergulhar me trouxe conhecimento e prazer, foram marcos da minha vida de leitor compulsivo. Sua maneira lúdica e monumental de criar personagens, lugares e situações únicas, fez do colombiano um criador na concepção mais completa do termo. Ele se confunde com o universo de seus sonhos, com os buracos negros de sua mente, com o big bang de sua criatividade. Partículas infinitesimais de sabedoria, gravitamos nesse espaço magnífico onde se situam astros majestosos como Gabriel García Márquez.

Nos Sábados de Aleluia da minha infância me acostumei aos Judas pendurados nos postes e árvores de Del Castilho. Hoje me parecem seguidores do Gabo os responsáveis pelos cartazes com as revelações mais secretas da comunidade, indicações de traições conjugais, liberdades sexuais excessivas ou arranhões na ética, na moral e nos bons costumes. As peripécias dos personagens de seus livros me projetam aos dizeres estampados nos Judas. Se assemelham na riqueza da crônica das almas humanas, pródigas em escapar da mesmice e nos surpreender em inconfessáveis pecados. Não se tasca mais Judas nesses tempos. Não porque faltem, ao contrário, são muito mais comuns. A devassidão dos pecadores de cada dia se lê nas manchetes de jornal e internet, mais nas páginas políticas do que nas policiais. O linchamento moral é infelizmente menor do que os frangalhos aos quais reduzíamos aqueles bonecos mal produzidos. As ruas têm sido pequenas, as grandes metrópoles ainda menores para abrigar as manifestações de repúdio aos Judas atuais.

A traição ao povo faz parte permanente do temário de Gabo. Inobstante seu apelido, diminutivo de um Gabriel quase Olegário, suas façanhas se agigantavam nas letras paginadas, transportadas para as telas até, sem fazerem parte de discursos de auto-promoção. E viveremos novos “amores em tempos de cólera”, passaremos futuros “cem anos de solidão”, padeceremos da tristeza das prostitutas, dos cafetões e dos clientes. Sob a aura de festejada ressurreição, cabe observar a eternidade das obras primas de Gabriel García Márquez. Viverão para contar para todos, pouco importa se na Aracataca natal, em Macondo ou no plano onde ele esteja, na dimensão de sua caminhada, no multiverso de sua morada. Suas cidades, suas “putas tristes”, seus políticos, seus personagens estarão conosco para sempre. Valeu demais, Gabo! Os Judas serão malhados por suas palavras.

Feliz Páscoa.

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