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Quarenta anos sem sopa

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Uma das coisas mais importantes que se faz na vida são as amizades. Há vários tipos de amizade: as de família, as de infância, as de escola, as profissionais, as de bar, enfim cada qual com a sua característica, importância, significado. As mais relevantes são as longevas, aquelas que transcendem interesses, fases da vida, local, circunstâncias, elas estão sempre de pé e à ordem. De uma forma simplista, eu diria piegas, se define a importância de um amigo pelo fato de o escolhermos, diferentemente de um parente, por exemplo. Tenho por hábito reencontrar amigos e amigas de quase cinquenta anos. Almocei com um grupo na Quarta-feira de Cinzas e jantei com outro na terça-feira passada. É verdade que uns mais bissextos (não é Abílio?), mas todos companheiros dessa caminhada longa nos desertos da sociedade, percorrida com apoio de quem nos quer bem.

Nunca é demais dizer da alegria que sempre cerca esses momentos, efêmeros entre as piadas, as novidades, as viagens, os amores, a vida em geral. Todos ávidos para saberem uns dos outros, para brindarem a felicidade, para celebrarem a vida, a união, a reunião. Cada qual do seu jeito, os olhos procuram os dos demais na mesa de um restaurante interessante, de boa comida e bebida, servindo apenas de moldura. A obra de arte era a satisfação coletiva, o fato de estarmos juntos. Até nas divergências, políticas e clubísticas, o limite do companheirismo não se ultrapassa.

Os caminhos distintos seguidos nos levaram a atalhos, retornos e desvios, mas chegaram a uma estrada bem pavimentada, sem grandes curvas, em direção ao melhor. Filhos criados, mulheres felizes, novas mulheres, realização pessoal e profissional, um cardápio farto, diversificado, delicioso. Provamos de tudo um pouco, bebemos do copo, da taça, do cálice. Não quebramos coisa alguma, sequer uma rachadura no tempo. Não se desperdiçou uma gota dos prazerosos instantes de fraternidade, gratuita na oferta e valiosíssima no conteúdo. Voltamos ao passado muitas vezes, como de praxe, levitamos no presente, projetamos o futuro.

Os inacianos de 74, esse ano, completaremos quarenta anos de formados na mesma escola. Em comum as origens inacianas e a alegria de viver. Até lá nos veremos quando possível, pois até cidades diferentes conspiram contra nós. A melhor tradução do sentimento a embriagar a alma do grupo foram três confidências feitas a mim em situações diferentes. Elas me trouxeram a mesma mensagem: “fiquei muito satisfeito de vê-lo feliz, meu grande amigo”. Diante disso, nada tenho a acrescentar, salvo o reconhecimento de ser um privilegiado por possuir amigos tão especiais.

Já considerei não importar quando nos encontremos, valendo sempre o prazer de matar as saudades de qualquer lapso de tempo. Beirando quatro décadas de nossa formatura e às vésperas de nos tornarmos sexagenários, revejo esse conceito. Outro dia, ouvindo o Watts discorrendo sobre estratégia mundial e a latente ameaça chinesa, o flagrei deixando escapar a seguinte frase: “não tenho maiores aspirações, queria apenas estar vivo daqui a algumas décadas para testemunhar a evolução do mundo e avaliar as minhas teorias”.  Em nosso âmago, o que mais poderíamos pretender todos, além disso?

Insisto, precisamos rever amigos antigos com mais frequência. Estamos chegando ao outono de nossa existência. A rima não foi uma mera coincidência, faz parte da exigência.

P.S.: Esse texto é em homenagem ao já saudoso Jorge Phillippe Borges. Ao nos deixar há alguns dias, mais um inaciano de 74 a fazer falta nas comemorações do nosso quadragésimo aniversário de formatura. É sobre essa inexorabilidade que eu falo faz tempo.

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