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Decifra-me ou te devoro

Astro-Rei

A Esfinge, incomodada com o sol escaldante, se viu coberta pela neve após mais de um século. Gélida de um frio inesperado, ela sorriu dissimulada em meio ao deserto de responsabilidade em torno de si mesma e de todos os horizontes despercebidos. Abaixo do Equador, subalterno às ideias conspiradas pelos mentores de nossa degradação, pelas janelas escancaradas vejo o brilho do sol, as cores do verão e a imagem da mulher amada se banhando na piscina. Antes os mergulhos eram de um e outro bem-te-vi encalorado. A rotina se repete nos dias mais quentes. Os pássaros que se hospedam nas cercanias, fugazes comensais das árvores frutíferas do meu quintal, pousam na grade e se refrescam nas águas mornas pelo sol de fim de manhã. A orquestra sinfônica de Londres toca Beatles ao fundo. Nada se pode comparar a essas gotas de felicidade em meio ao calor absurdo e alarmante desses dias no Rio de janeiro começando. Convidados à ceia dos mendigos famintos pelo progresso, sequer sentimos a subida paulatina dos graus de nossa tortura. Não sabemos até quando seremos os sapos cozidos em água morna, na panela escaldante de um planeta agredido. Fala-se em décadas até que não consigamos mais saltar da fervura e agonizemos como batráquios antes de beijar a mãe natureza e nos transformarmos nos príncipes encantados. O céu azul, sem nuvens a espargir a bênção regada em renascimento, espelha a incompreensão dos fatos irreversíveis. As aves, os mamíferos e os demais coadjuvantes desse quadro dantesco, répteis, peixes, plantas, rios e mares, serão inocentes engolidos por um mundo em ebulição ocasionada pelo homem. Na superfície da água da vida já não vão mais estourar as bolhas da economia e da injustiça social, as queimaduras da corrupção, o cozimento da dignidade e da ética. O superaquecimento terá uma efetividade mais abrangente, atingindo a todos sem distinção de credo, raça, cor ou nível social. Estaremos todos enfim iguais perante as leis naturais. Sábias e sem preconceito, elas açoitarão as costas largas e estreitas, os pobres e os ricos, os cultos e os ignorantes, os honestos e os ladrões, todos sem exceção. Enfrentaremos a ira do universo conhecido, a força do seu astro-rei, o clamor pelo pagamento de nosso comportamento irresponsável por décadas a fio. A conta não poderá ser financiada em longas e suaves prestações, cobrará os juros devidos à vista, sem qualquer complacência. Os avisos ecoaram em catástrofes mal compreendidas, enxergadas como revolta de deuses, fatalidade ou deformações geológicas. Espaçadas mais e menos com o passar das eras, dizimaram populações isoladas, vitimaram núcleos específicos, locais pouco ou mais ocupados. A verdade virá em formas absolutas e indiscutíveis. Não permitirá dúvidas, varrerá continentes, oceanos, todas as formas de vida ainda sobreviventes depois de tanto desprezo ao habitat da humanidade. Não será tarde nem cedo, mas traduzirá o momento limite das agressões perpetradas por séculos de suposto desenvolvimento industrial, tecnológico e social. Custará o preço justo de nossas existências, nos alcançará felizes ou infelizes, realizados ou progressistas, otimistas ou pessimistas. A mãe natureza nos beijará como a viúva negra da história das civilizações. Repetirá num sussurro os gritos ecoados ao longo dos tempos, nos explicará o sabido, nos confortará pela perda e nos fechará os olhos semicerrados por toda a vida. E qual a Esfinge, prenha de ironia por se manter indecifrada, antes de nos devorar apenas encerrará com uma pergunta dispensável: Por quê?

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