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Diferenças

Diferenças

Essa insatisfação procede pelo inaceitável comportamento de supostos representantes do povo. Nesse caso, devemos exercitar o direito sagrado dos seres insatisfeitos por natureza. Mas, em geral, a inquietude impera no reino das mudanças prementes, quando a alteração do rumo tomado se mostra necessária. Muitas vezes o imobilismo nos leva ao estresse, estimulados que somos pelo instinto mutante dos inconformados. Em permanente erupção de não conformidades dos nossos padrões de exigência, o vulcão expulsa de suas entranhas a lava da estagnação.

Corre sério risco de se adaptar à falta de ânimo quem se propõe a aceitar sem resistência as condições normais de temperatura e pressão. A vida sempre se apresenta dinâmica e volúvel, num balé sincopado de pessoas gravitando em torno de seu núcleo de decisões. Há um vírus de intempestividade inoculado em cada um de nós, pronto a aflorar seus efeitos colaterais quando menos esperamos. Temos um potencial chute no balde preparado todo o tempo, com o corpo ajeitado na direção entendida como a mais adequada. A potência do arremate é diretamente proporcional ao estado de espírito do momento.

Os derrotistas, pessimistas de carteirinha incapazes de se rebelarem diante das mais ostensivas demonstrações de incoerência, mesmo eles estão sujeitos a uma revolta eventual. Na explosão de magnitude extrema dos incômodos represados, revelam um altíssimo poder de destruição. São mais calados, quase silenciosos, até irromperem numa verborragia avassaladora, numa saída repentina da letargia para descrever o indescritível e qualificar o inqualificável. Ficam incontroláveis, destemperados, hostis. Passam de criaturas a criadores em fração de segundo.

Os celerados representam maior perigo. Dotados de um imperceptível rastilho de pólvora condutor ao estoque de explosivos, detonam tudo com muita antecedência. Não raro sucumbem ao próprio cogumelo da devastação, desaparecendo em meio à catástrofe. São engolidos pela própria ansiedade, pela irresoluta condição de avançar quando é para aguardar. Tremem angustiados pela vontade de fazer alguma coisa não importa qual, de acertar um alvo inexistente, de descobrir a maneira mais rápida de serem efetivos, praticantes, militantes, proativos.

Os otimistas se confundem com os estagnados e com os reacionários. Preferem aceitar as decisões do destino confundindo-as com a alegria de viver. Enquanto os reacionários resistem às mudanças e os estagnados se bastam a si mesmos, os otimistas consideram que o melhor caminho é o já traçado. Sorriem das desventuras como se uma porta sempre abrisse a cada fechar de janelas, supondo que o eventual insucesso abre espaço para o aprendizado e o crescimento. Misturam positividade com insensatez, flutuam em cumulus nimbus, se transformam em para-raios ambulantes.

Somos o que somos, produtos do meio em que vivemos e das metamorfoses humanas defendidas pelo Raulzito. O importante, além do verdadeiro amor, é permanecer no presente com as raízes no passado e o ideário no futuro. A caminhada distrai e ilude o peregrino, com atalhos traiçoeiros e chicanas impróprias. As brasas e os espinhos surgirão de repente, entre as flores perfumadas e coloridas. Precisamos saber evita-las quando possível e pisá-las com sabedoria tal que nos mantenhamos eretos e firmes no passo seguinte.

A resposta não está na sinalização confusa e na difusão das informações, mas na intuição dos seres elevados pela percepção do entorno. O final, às vezes inesperado, não se pode garantir definitivo. Há outros mapas a percorrer, outros tomos a ler, outros tombos a tomar, outras recuperações a fazer, outros renascimentos, outros desafios, outros resgates e outras dívidas a pagar. Esse mistério jamais termina. O moto contínuo não se decifra. Vidas que seguem.

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