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Sobre meninos e cães

Zico no faca

A semana passada começou com um término. Era domingo, último dia de um feriadão em Sampa. A despeito do passeio agradável, em boa companhia e prazeroso pela gastronomia e pelos pontos visitados, saí da capital paulista amargurado. A tentativa de roubo do meu celular, no último dia, por um jovem de bicicleta e os desdobramentos me chatearam demais. Embora vítima, fiquei com uma sensação de culpa, com um peso na consciência. Não sei explicar com exatidão, mas o sabor dessa história foi amargo. Cobrava do destino um desfecho melhor, talvez em razão do lanche que paguei a um menino engraxate assim que desembarquei em São Paulo, ainda no aeroporto de Congonhas. Isso não existe.
Enfim, domingo à tarde retornei a BH e iniciei a minha rotina ainda pensando no fato. Não
resta a menor dúvida de que turistas são turistas em qualquer parte do mundo. Outro dia o meu amigo Pablo Pessanha relatou um caso dentro de um ônibus carioca, quando turistas foram furtados por um senhor engravatado, enquanto uma senhora com uma criança travessa desviava a atenção de todos. Trata-se da sofistificação do golpe. Mas, não me alentou.
Cada vez mais proliferam menores a se especializar em pequenos golpes de rua, punguistas em tenra idade. Aproveitam-se da distração do visitante, embasbacado com as belezas arquitetônicas e paisagísticas, para subtrair bolsas, carteiras, celulares, enfim, o que estiver ao alcance. São verdadeiros contorcionistas, artistas da punga, serpenteando pelo chão, equilibrados em bicicletas ou, em última instância, agressivos na abordagem direta. Mas, quem são eles? De onde vêm e para onde vão? Estariam organizados por líderes usurpadores ou agiriam por conta própria? Atuam em grupos heterogêneos ou familiares, são permanentes colegas de ofício ou oportunistas de ocasião?
As respostas pouco importam, por meras consequências da origem de tudo, da causa do
delito. Muitos devem roubar para comprar um tênis mais moderno, uma camisa do seu clube, um boné para a namorada. Outros tantos para transformar o butim em comida, para sobreviver. Outros ainda para sustentar o vício desde cedo. Não aprenderam outra coisa, se desenvolveram na aptidão do enganoso, se aprimoraram no drible à legalidade. Apanharam da vida no início de tudo e optaram por reagir contra ela.

Não me considero um defensor de direitos humanos, longe disso. A minha reação indignada e agressiva quando o ciclista tentou arrancar o celular de minha mão reflete a minha forma de encarar isso. Porém, o meu inconsciente comandou um tamanho rebuliço no meu metabolismo que também não posso me considerar indiferente. Eles estão por aí, todos os dias, escondidos atrás das pilastras da sociedade, nas sombras dos equívocos governamentais ou não, disfarçando uma raiva acumulada desde a primeira pancada, o primeiro estupro, a primeira fome. Assistimos tudo enfastiados, acuados, encolerizados, idiotizados.

Dias depois, numa quinta-feira igual a tantas, eu chegava à empresa pouco antes das oito da manhã quando um pequeno cachorro, sedento e esfomeado, me implorou com os olhos por ajuda. Estava magro e maltratado, apresentava alguns ferimentos de mordidas de cachorros maiores, buscava um abrigo, um pouco de água, alguma comida. Ele tentou me seguir, mas foi impedido por um segurança mais rápido do que eu pudesse reagir. Correu para a rua e sumiu. Fiquei outra vez amargurado. Ele seria atropelado na avenida movimentada próxima ou sucumbiria num outro ataque por animal mais forte? Quem sabe uma paulada, uma vassourada de alguém em outro endereço. Passei o dia pensando nele.

Ao final do dia, por volta das 18:30, saindo da empresa e ao me dirigir ao carro, lá estava ele com o mesmo olhar de súplica. Eu e o meu amigo Ricardo, de quem sou hóspede, nos comovemos de imediato. Colocamos o cachorrinho numa caixa e o levamos para casa. Ele comeu, bebeu água e dormiu mais sossegado, embora assustado com as mudanças. No dia seguinte ele foi levado a uma veterinária, vermifugado, tomou banho e teve o sangue coletado para um exame. Está conosco aguardando pelo resultado dos exames e pela viagem ao Rio, para onde vou levá-lo a um novo lar, a minha casa. Um fora de série da vida, o Zico, nome sabiamente escolhido pela minha filha, desembarcará comigo no Rio na noite de quarta-feira, quando irei à final da Copa do Brasil. Cachorrinho simpático e de muita sorte.

E dos despojados da mesma felicidade, os meninos nas ruas, quem cuidará? O dinheiro do mensalão? As polpudas contas dos ex-governantes nos paraísos fiscais? O Genoíno em prisão domiciliar por uma patologia mais branda do que outros detentos da Papuda? O governo do voto encabrestado pelo Bolsa Família? O passaporte diplomático do Lulinha? Os fiscais da prefeitura de SP? A Siemens? O metrô paulista? Os propinodutos do PSDB?

Quem, afinal?

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