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Copo meio cheio, meio vazio

Copo meio cheio ou meio vazio

O copo anda meio cheio, meio vazio, apenas por uma questão de ótica, de ponto de vista. Otimismo, pessimismo, realismo? Há tanto tempo, desde que me entendo por gente, convivo com injustiças sociais, corrupção, violência, impunidade, desmandos, exageros, destemperos, abusos, enfim, toda a sorte de achaques. Ao ler os jornais, passar os olhos pela internet ou pela TV, escutar o rádio, as manchetes se repetem, os escândalos se multiplicam, os homens públicos se locupletam. As fortunas são cada vez maiores, os eleitos pelos incautos abrem contas no exterior, em paraísos fiscais que falariam muito mais do que os fuscas do filme da minha infância. O Roy Rogers, o Bat Masterson, o National Kid, o Falcão Negro, o Flash Gordon, o Zorro, todos eles já morreram, embora permaneçam eternos em minha memória. Nem a eles posso recorrer mais para pegar esses bandidos. Sempre fico pior, governo após governo, militar, de direita, de centro-esquerda e de esquerda, sem a mínima mudança de caráter ou de vontade política, a não ser a vontade de assaltar os cofres públicos. Os meios mudam um pouco, se sofisticam mais, os fins persistem os mesmos. Os apadrinhados, encastelados nas mais variadas instâncias do poder executivo, legislativo e judiciário, executam suas estratégias, suas escaramuças em prol do interesse particular ou da benesse partidária, garantindo vantagens e privilégios individuais. Para eles os fins justificam os meios. Presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados, vereadores e assessores se encastelam protegidos pelo corporativismo e pelas chicanas da lei. Eles enriquecem enquanto a população definha em hospitais infectos, em transportes ineficientes, em barracos insalubres, em escolas falidas. O círculo vicioso do dinheiro começa nos empresários que os elegem, para mais adiante retornar aos financiadores numa divisão lucrativa do butim verde-amarelo. O ex-presidente petista, aquele que não viu, não ouviu nem falou, foi homenageado há poucos dias com a medalha Ulysses Guimarães. Foi ladeado pelos não menos próceres da república: Collor, Sarney e FHC, além de outros menos cotados. Os dois piores, se existe isso, são agora aliados do dono daquela voz rouca, com língua presa, o ensandecido que urrava nos bocas de ferro contra os usurpadores da nação. O tempo, a troca do macacão pelo terno importado, da talagada de pinga pelos goles fartos no scotch doze anos, a substituição do cigarro barato pelos charutos Monte Cristo, se incumbiram de mudar a opinião dele, provavelmente. O prefeito de São Paulo, petista com discurso também falseado, como tantos outros, assumiu há dez meses a sinecura. Saiu de férias para o exterior com a família antes de completar um ano de trabalho, com certeza regido por uma legislação trabalhista diferente e agora assalta a população com um reajuste escabroso do IPTU. Uma quadrilha de fiscais do seu antecessor foi desbaratada nos últimos dias, sob a acusação de desvio de mais de quinhentos milhões de reais, também conhecido como meio bilhão. Ou seja, muda o partido, não muda o perfil. O Renan Calheiros, presidente da Câmara Federal, e sua corja enchem quatorze, isso mesmo, quatorze lixeiras grandes, daquelas de prédios, em sua mansão na península dos ministros na Ilha da Fantasia de Brasília. Nos intervalos desse enorme consumo ele decola nos aviões oficiais para casamentos, batizados, jogos de futebol e quetais. No Rio, um jornalista comunista, misto de escritor e compositor, que jamais foi rico, teve um filho homônimo que começou a vida como vereador defendendo a causa dos albergues da juventude e da assistência à terceira idade. Hoje, invejoso do seu xará lusitano, aportou na costa verde carioca, riquíssimo proprietário de mansão em Angra dos Reis. Aliás, são duas casas cinematográficas. Tem secretário de estado vizinho dele por lá. O prefeito, que conheci subprefeito em Jacarepaguá, de galochas após uma enchente há muitos anos, já mudou de postura faz tempo. À época era um dos prefeitinhos do César Maia, hoje a criatura está maior do que seu criador. Cavendishes, Cachoeiras, Zé Dirceus, Genoínos, Silvinhos Land Rover, Delúbios, Caixas 2, 3 e 4. E como se resolve isso? Como acabamos com isso?  Sou adepto de uma solução radical e extrema. Não se pode confiar na justiça, como restou comprovado muitas vezes. Não concordo com a meia dúzia a obstruir vias públicas importantes, impedindo o direito de ir e vir de milhões de cidadãos absolutamente impotentes no atendimento das reivindicações deles. Esses descontentes deveriam se dirigir às casas e/ou locais de trabalho dos seus algozes e lá incomodar quem decide seus destinos. Fora isso, só mesmo a alternativa francesa, aquela de 1789. Na queda da Bastilha o copo de sangue ficou meio cheio, meio vazio, dependendo do ponto de vista. Parece que surtiu efeito. Entretanto, aqui faltam líderes, daqueles de verdade. Como disse Charles de Gaulle: ce n’est pas un pays sérieux.

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