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O trem da vida

Trem bala

Num tsunami de proporções magníficas, mergulhamos nos fatos, surfamos nas lembranças, o fundo se vê revolvido, trazendo à tona situações remotas travestidas de hoje. Ao chegar à praia, deitamos na areia da ampulheta, antes que ela vire e volte a escoar. A vida muda a cada segundo, costumamos dizer, enquanto somos atropelados por cenas inesquecíveis, registros inolvidáveis de toda a existência. Pessoas, lugares, músicas, aromas, a memória se ativa por acionamentos diferentes. As fotos aceleram a apresentação, se transformam num filme cuja dinâmica desrespeita regras e convenções. Amores, parentes, amigos, animais, casas, carros, empregos, cobertos pelas ondas gigantescas do tempo. Buscamos um porto, um refúgio que não tenha sido arrastado pela força maiúscula da história. Somos sobreviventes agarrados aos escombros de nós mesmos, encontramos novos rostos, novas paisagens, novos tons, novos perfumes, em implantes de renovação.

Na crista da onda dos dias atuais, voltei ao passado há quinze dias, na praia do rock & roll. Em 1985 estive no primeiro Rock in Rio, no viço dos meus vinte e oito anos. Vi o Yes, o Queen, o Barão se consagrando. Agora, lá estavam meus filhos na minha faixa etária, aplaudindo um cover dos Beatles, o Ivan Lins e o George Benson, dançando comigo ao som do JQuest, da Alicia Keys e do Justin Timberlake. O lapso era de quase trinta anos, mas a música não tem idade. Confraternização de gerações embalada pela sonoridade retocada e pelos recursos mais modernos da tecnologia. As fotos são de celulares e os instantâneos correm o mundo até a minha afilhada em Los Angeles, cujos filhos verão um show semelhante dentro em breve. Uma década é logo ali à frente. Sinal dos tempos.

Tempos que o Luiz Carlos de Oliveira Sales não verá, pelo menos entre nós. Colega de faculdade, sucumbiu ante um enfarte fulminante dentro do elevador, saindo do trabalho para casa. Era um sujeito hermético, perfeccionista, pouco avesso a celebrações. Mas, era um bom colega, daqueles que não incomodam ninguém, um cara do bem. Tive pouquíssimo contato com ele depois de formados. Seguimos rumos muito diferentes, em cidades distantes. Pouco soube dele de 1978 para cá. Há uns dois ou três anos, talvez mais, um primo teve um problema na Agência Central dos Correios de Belo Horizonte. Foi pronta e gentilmente atendido pelo Luiz Carlos. Após resolvido o problema, meu primo comentou com ele que eu também fora funcionário da ECT. O Luiz me identificou e me elogiou muito. Fiquei sem agradecer a gentileza, mesmo estando em BH há quase oito meses. Fico lhe devendo essa, meu amigo. Um dia eu ainda vou retribuir aí desse lado. Que o seu caminho de luz continue.

Foi, pois, uma semana turbulenta, que incluiu uma viagem a SP para uma audiência no dia de São Cosme, São Damião e Doum. Doum é o que nunca veio conforme a crença espírita de que, a cada dois gêmeos, o terceiro não encarna. Reza a doutrina que Cosme e Damião são protetores das crianças, dos médicos e dos farmacêuticos. Os gêmeos eram chamados de anárgiros, ou seja, aqueles que não são comprados por dinheiro. Nesses lados de cá, em meio a tanta corrupção, falta de ética e de moral, seriam figuras muito excepcionais. Devem estar bastante atarefados, pois o Brasil tem sido deixado de lado nesse aspecto. Médicos, farmacêuticos e crianças estão um tanto desassistidos por aqui. Mas, quem não está?

O meu grande amigo Carlos Alberto de Almeida Ferreira, o Gordura para os mais chegados, por ser magérrimo desde sempre. O Gordura aniversariou no sábado e teve a tradicional comemoração com muitos amigos, boa bebida e comida, dança, alegria geral. Foi no Eclético, na Barra da Tijuca, reduto do aniversariante. Balançamos o esqueleto, queimamos calorias ao som de música de tempos antigos e modernos. Música boa não tem idade, alma feliz também não. E lá estivemos com o Gordurinha, compartilhando e saboreando a felicidade de nosso sexagenário amigo, bem humorado, o clone do Mr Burns, o chefe do Homer Simpson.  O Gordurinha, do alto de sua fineza, agora em outro sentido, fez questão de me ligar no dia seguinte para agradecer a minha presença. O agradecimento sempre será nosso, meu amigo.

E vida que segue, com os que descem do trem e os que vibram por permanecerem na curta viagem. Estação após estação, alguns são recebidos pelos que já desceram antes, enquanto outros acenam chorosos, tomados pelo egoísmo de quem sente falta. O rock & roll toca nos fones de ouvido de quem gosta. Sem preocupação com o gosto sertanejo, funkeiro, gospel. Cada um escuta o que quer, faz o quer, pelo tempo que resta. Portanto, vale mesmo aproveitar o máximo possível. Ninguém sabe a sua estação de desembarque, muito menos quanto tempo ela demora a chegar.

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