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Independência ou Morte!

Grito do Ipiranga

Depois de vê-la tantas vezes, penso ser capaz de reproduzir a cena de D. Pedro I, às margens do Ipiranga, declarando a Independência do Brasil do jugo português. O quadro de Pedro Américo se repetiu tanto em minhas retinas a ponto de se fixar no meu cérebro. Lá se vão centenas de anos daquela pintura e cá estamos enganados como sempre, desde o descobrimento. De início, fomos representados pelos silvícolas, como denominavam os livros escolares. Eles trocaram a liberdade por pequenos cacos de vidro, miçangas e outros badulaques. As índias foram seviciadas em tenra idade pelos patrícios sequiosos, desejo estendido às mulatas e às negras mais adiante. Um sexo imposto sem amor, estupro do corpo e da alma, abuso do poder da Casa Grande que mudou de nome através do tempo e hoje encastela gente não menos importante e inescrupulosa nos palácios Brasil afora.

Ficamos tão acostumados com esse tipo de atitude que, século após século, dominador após dominador, nos curvamos submissos à sanha de alguém. Sejam governantes corruptos, empregadores gananciosos, vizinhos mal educados, falsos amigos, torcedores truculentos, serviços mal prestados, desordeiros urbanos, assaltantes drogados, juros extorsivos, estética compulsiva, justiça desigual, violência gratuita, enfim, centenas de milhares de poderosos opressores nos maltratam, nos agridem, nos asfixiam, nos diminuem, nos sufocam, nos manietam.

Somos, mesmo quando sequer imaginamos, marionetes dos aproveitadores de nossa complacência. Há ainda os que confundem, enganando a maioria com palavras inexatas e ideologias supostamente redentoras. Usam um neologismo barato, falam em maracutaias e ludibriam os incautos. Outros reúnem seus oprimidos em templos, modestos ou luxuosos, dependendo do estágio da riqueza já acumulada pela fé remunerada. As doutrinas podem se mascarar de faces diferentes, possuindo intuitos diversos, políticos, religiosos, financeiros, profissionais, sociais, esportivos, todas têm o mesmo objetivo: aprisionar os indivíduos. As almas precisam de pregadores, de líderes que as guiem não importa para onde, com esmolas, espelhos, miçangas e penduricalhos. O que interessa é a sensação de satisfação, mesmo momentânea. Saciados pelo gole da cachaça de má qualidade, não sentem fome nem conhecem a verdadeira liberdade. Uma enorme maracutaia.

Somos vampirizados pelos aproveitadores de nosso arbítrio, invadidos em nossa privacidade pelas telas de TV, de computadores e de celulares. Os outdoors nos atacam cada vez mais sofisticados, as armas já não são mais só palavras, imagens espetaculares, música interessante. Agora se reforçaram de tecnologia sofisticada, de mensagens subliminares, de engodo cibernético. Cordeiros numa cascata inesgotável de gerações caminhamos para a tosa sem percebermos e, quando nossa lã se definha, nos servem à mesa acompanhados de um bom vinho. Nosso berro sempre foi abafado, isolado, inadequado, inoportuno.

Nascemos e morremos iludidos por uma liberdade fictícia. Na verdade, sobrevivemos com doses homeopáticas de independência, alimentados pela ilusão de viver no melhor dos mundos. E chegamos ao estágio mais mesquinho dos dominados. Impomos nossa vontade aos escravizados, ou seja, a nós mesmos. Ontem fiquei três horas, em companhia de centenas, provavelmente milhares de pessoas, num congestionamento monstruoso na Rio-Juiz de Fora, na altura de Itaipava. Levara quatro horas e meia para vencer quase quatrocentos quilômetros e perdi três horas para superar alguns metros. Eram manifestantes locais, sem faixas, sem imprensa, sem eco, apenas nos submetendo ao jugo de sua insatisfação desconhecida. Entre os prejudicados no trânsito estavam idosos, crianças, doentes, que permaneceram aflitos, sem ter noção do que acontecia, com sede, fome e frio em meio à escuridão e a um temporal. Nenhum governante estava ali, nenhum parente deles, ninguém para ser convencido de algo pelos agitadores.

Hoje fatos semelhantes ocorrerão por conta de outras manifestações idiotas e inócuas. Vão quebrar patrimônio histórico, patrimônio privado, vão impedir o direito de ir e vir sob a máscara da democracia. É a nova face do agrilhoamento, a imposição dos piqueteiros. Você não pode fazer o que quiser, só o que eles querem. Há pouco mais de um quarto de século eu vi idosas serem agredidas com cusparadas, sacos com urina e fezes, mesmo agredidas fisicamente. Queriam impedi-las de trabalhar por entenderem que não tinham esse direito. Eram militantes que hoje estão no poder, antigos manifestantes mascarados de democracia. Depois deles virão outros, sempre. Um autêntico samba do crioulo doido.

Independência ou Morte!


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