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Quiqui

Foto Gruta 30 08 13

As portas do vagão do metrô se fecharam e eu ainda tive tempo de retribuir o aceno do meu grande amigo Quintanilha. Lá se ia o meu antigo parceiro de histórias saborosas na infância e adolescência. Muitas gargalhadas demos juntos das piadas inspiradas em outros colegas e, às vezes, em nós mesmos. Andávamos juntos como irmãos, sentávamos próximos na sala de aula, freqüentei a casa dele, acolhido como se da família fosse. Os pais, a avó, a D. Phillis, a linda irmã e os irmãos me tratavam com muita generosidade e atenção. Almocei muitas vezes naquele casarão da Rua Sorocaba, a tempo de retornar à escola para outro turno de estudos. Morador da Zona Norte, era o jeito de driblar a distância.

O Quintanilha, Quiqui para a galera do Santo Inácio, é uma raríssima alma nobre, daquelas devoradas pela multidão de interesses e arestas sociais e profissionais. Inconformado com os nossos reencontros bissextos, resolvi dedicar algumas linha exclusivas para essa figura. Sempre foi o melhor aluno dentre duzentos e cinqüenta inacianos que compunham a série em que estudávamos. Disputava esse título com o Fischer, mas em geral se posicionava à frente. Eram dois expoentes fora do padrão, com um perfil descolado, de hábitos comuns e integrados à vida normal de qualquer garoto. Praticavam esportes, jogavam futebol muito bem, em especial o Quiqui, habilidoso zagueiro que também exercia forte liderança em campo. Era da seleção do colégio e cansei de sentar na arquibancada para torcer por ele e aplaudir suas jogadas.

Eu me relacionava praticamente com todos os colegas, pois sou uma pessoa fácil de fazer amizade. Transitava com bastante desembaraço entre o pessoal de diferentes turmas e tribos. Pelo costume da chamada diária, a cada aula, lembro do nome completo de quase todos. Com alguns eu tinha uma amizade mais chegada. Esse era o caso do Quiqui. Sempre fomos muito amigos, confidentes até, cada um com seus problemas. Ele conhecia minha família e eu a dele, apesar dele morar em Botafogo e eu em Del Castilho. Acabamos vivendo uma experiência única, aos quatorze anos, viajando num Búfalo da FAB para Manaus. Meu tio conseguiu uma vaga para nós e embarcamos às 5:00 no Campo dos Afonsos, fizemos escala em Brasília e em Belém, onde dormimos, para chegarmos a Manaus só no outro dia. Mais de um mês na Zona Franca, em namoros com as meninas locais, bebendo guaraná Baré, comendo tucunaré e tambaqui, doce, creme e suco de cupuaçu. Inesquecível.

Depois que nos formamos no Santo Inácio, Quiqui e eu resolvemos fundar, junto com o Antonio Marcos e o Chaves, um grupo de encontros às primeiras terças-feiras do mês, sempre no mesmo lugar e horário. Foi a semente dos encontros que se mantêm até hoje, dando origem às grandes reuniões dos 10, 20 e 30 anos de formados. Ano que vem tem festa dos 40 anos. Reencontramos amigos e amigas daquela época, bebemos e comemos embalados pelos causos deliciosos lembrados por um e outro. Em paralelo, agendamos almoços com grupos menores, em razão das circunstâncias, de acordo com as oportunidades.

Ontem fomos ao CADEG, em Benfica, degustar um bacalhau acompanhado de um vinho alentejano. Quiqui, Antonio Marcos, Calica, Camizão, Xiko e eu, seis velhos parceiros ressentidos da falta do Attilio, ausência de última hora. Depois do excelente papo, de recordações preciosas e de alegria restauradora, nos despedimos com saudade e já pensando na próxima vez. Meu caro amigo Antonio Marcos nos levou, Quiqui e eu, até o metrô. Ao chegarmos na estação, abracei meu grande camarada e fiz questão de esperar pelo trem que ele embarcaria. Mandei um beijo para as duas mulheres da vida dele, esposa e filha, e dei um beijo fraterno naquele que não é meu irmão natural, mas é como se fosse. Uma grande alma, um enorme coração que esteve comigo, a exemplo de outros, nos momentos mais difíceis da minha vida, embora eu não tenha estado nos dele. Tomara que nos vejamos mais do que as poucas vezes permitidas pelo destino. O ir e vir dos trens simboliza esses desencontros, metáfora da velocidade e da dinâmica dessa vida que levamos. Não nos encontramos com a freqüência merecida, mas temos uma amizade verdadeira e duradoura. Certamente muito mais longeva ainda. Era isso que eu pensava, acenando para ele da plataforma.

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