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Inquietude

pedra bruta

Sempre queremos mais da vida, das pessoas, de nós mesmos. Somos incorrigíveis censores das pequenas benesses, das gotas de felicidade, dos prazeres homeopáticos da satisfação a médio e longo prazo. A visão do ambicioso é curta, o desejo imediato, a volúpia avassaladora. A humanidade tem pressa, precisa se alimentar dos seus caprichos insensatos e dos sonhos alheios.

Estabelecidos os padrões, a certeza de sua necessidade se inocula em nossa corrente sanguínea e percorre nosso corpo contagiando cada órgão. O coração pulsa mais acelerado na ânsia de conquistar o supérfluo, o de outrem, o inalcançável. Os pulmões respiram prematuramente os ares rarefeitos do pico da montanha inteira. Os olhos vislumbram um horizonte distante, mal percebendo as ondas destruidoras em seu caminho. Os ouvidos escutam o canto das sereias traiçoeiras, dissimuladas como as nuances enganosas. As mãos tateiam a aspereza dos infortúnios confundindo a textura com a da areia fina da praia que não aparece para o náufrago. Os braços suportam o peso da responsabilidade inadequada, a sobrecarga do compromisso impossível. As pernas dão passos longos e indevidos. A mente se incomoda com os planos mal sucedidos, com as expectativas frustradas.

Enquanto isso o filme da existência continua inexorável. Imperturbavelmente, o frescor das manhãs nos umidifica a fronte e nos revitaliza o rosto. O sol renasce e restabelece a energia de nossos chakras. Árvores, plantas e flores sombreiam nosso caminhar, purificam  e perfumam o nosso ar, embelezam a paisagem. Os animais nos cortejam e acolhem, solidários companheiros de todos os momentos. As pessoas nos oferecem um pouco de tudo, nas imperfeições, nas experiências, nas alegrias, nas tristezas, na vivência plena dos prós e dos contras que permeiam nosso existir.

E queremos ainda mais. Sedentos por uma fonte que nos sacie tudo, todo o tempo, persistimos nas cobranças inexatas, nas premissas mesquinhas, na insatisfação desmedida. A essência do homem não prospera porque, mal cuidada, se extingue nas demandas ambiciosas. O corpo passa, envelhece e aquieta. A alma se pereniza, troca de invólucro e segue seu rumo.

A inquietude de nossas aspirações impróprias desperdiça um tempo sagrado e irrecuperável, punida com severidade pela finitude. Se renascemos a cada mudança positiva, se fazemos parte de uma obra perfeita, se pretendemos ser uma pedra bruta transformada em diamante, não podemos insistir na criação de arestas.

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