Home » Textos » Início e fim

Categorias

Arquivo do Site

Início e fim

Nascer do Sol 2

A complexidade da natureza humana cada vez mais me desnorteia.  Penso, logo existo não resume todas as vertentes possíveis. Somos intrincados cruzamentos congestionados de aceleradas ideias travestidas de pensamentos, suposições, ousadias e receios. Dependemos de tudo e de nada, desejamos, repudiamos, amamos, odiamos, somos todos, somos outros, somos um. Mergulho num universo esverdeado de olhos profundos marejados, inquietos, difusos. Minha busca pelas respostas entrincheira reflexões imprecisas e duvidosas, resvala pela possibilidade mais simples e cartesiana. A sensibilidade aflorada enfrenta vagas enormes, navega pela luz e pela escuridão, segue o instinto das embarcações acostumadas a encontrar o rumo definitivo. Os oceanos inexplorados da alma se estreitam em corredores tortuosos, onde o perfume das rosas se mistura ao cheiro de sangue nos espinhos pisados. A chama dos corações ardentes dança ao sabor da brisa das manhãs e descansa no torpor do sol a pino, para tremular no sopro da noite, até o sereno exterminar o último lume. Na ânsia pela felicidade mergulhamos nas profundezas da noite do egoísmo, nas gélidas águas do desapego, na correnteza implacável do desatino. Fugimos da realidade veloz das paisagens emolduradas, racionamos o dormir, o sonhar, o prazer. Só nos resgata a doce paixão inesperada, enchendo-nos os pulmões com o ar de outra boca, sequiosa e solidária. No suor pingado dos amantes, no testemunho encharcado da cumplicidade dos lençóis coniventes, chegamos ao ápice da escalada de horas febris. Momentos de êxtase e plenitude nos aproximam do divino, em poucas palavras e em muitos sussurros. Doses exageradas de libido represada no inconsciente coletivo, descansada nas fronhas de cetim ou de algodão, no balanço das molas ensacadas ou na firmeza da palha das esteiras. A exaustão faz a sede ressecar a garganta e trazer o nó mais à tona, asfixiando a razão, embriagando os sentidos. Embaçada a visão do olho que tudo vê, tateamos pelo corrimão dos desatinados, ocultos pela névoa da insensatez. No refúgio das almas gêmeas trocamos confidências proibidas, saciamos os desejos mais secretos. A verdade omitida pela inexatidão das frases se expressa pelos gestos e pelos olhares. A comunhão de interesses valida cada iniciativa, enquanto a integração de espírito, corpo e mente encaixa dois seres numa só existência. Uma descarga elétrica percorre o conjunto perfeito e os une quase de maneira indissolúvel. A troca de fluídos e de essências se dá com a naturalidade da união absoluta. Todos os patamares são superados vertiginosamente, o máximo não significa o limite. No momento mais sublime da relação humana, as criaturas se aproximam do Criador e semeiam vida. Quando o fim se encontra com o início, tudo se revela com nitidez.

[youtube]http://youtu.be/9Q7Vr3yQYWQ[/youtube]


Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *