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Um sarau em Del

Del Castilho

Como diriam os vendedores nos ônibus, eu poderia estar escrevendo sobre o almoço especialíssimo com o Attilio/Ana, Antonio Marcos/Edith, Natália e eu no Nova Capela, onde de bônus ainda encontrei o Eduardo com a Suely e a D. Marly. Além do reencontro, excelente papo e um cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo.

Poderia estar falando do meu final de semana esportivo, da compra de meu novo Manto Sagrado e da ida à Arena HSBC com a minha galera do Magia Rubro-Negra. Como vibrei com o timaço de basquete do Flamengo se classificando para a finalíssima do NBB. Torci demais, incomodei o banco dos adversários, sentado bem atrás deles. Virei criança de novo.

Poderia estar descrevendo a minha expectativa com doze dias de férias, que há mais de dez anos não tenho. Da ansiedade pela viagem a Los Angeles e a Las Vegas, com direito a uma visita ao Grand Canyon.

Mas estou aqui optando por um relato musical, misto de uma volta às raízes. Faz uma semana estive na “aprazível estância de Del”, como sempre chamei o bairro onde fui criado, Del Castilho. Do ponto de vista urbanístico, muito poucas mudanças, quase nenhuma. Aquele pedaço do Rio teve incrustado em sua geografia uma catedral evangélica e muitas grades nas ruas onde jogava peladas quando garoto. Fora a desmontagem da torre de rádio para dar lugar a um condomínio.

Foi no bar do Edinho, antigo ponto de reuniões, sob um pequeno telheiro e com total improvisação, que rolou um sarau de MPB da melhor qualidade. Marcos Borges(violão e vocais), Marcos Brandão(guitarra/vocais), Valtinho(baixo) e Moari(bateria), deram um show privé de mais três horas, daqueles de fazer inveja a bandas famosas.

Sem ensaio, os quatro ainda contaram com uma cuíca preciosa cujo artista a minha memória injusta apagou. Numa levada bem suingada, a “banda” tocou Chico, Caetano, João Bosco, Ivan Lins, Vanzolini, Gonzaguinha e tantos outros nomes  desse universo de fabulosos compositores de nossa música respeitada no mundo inteiro.

Muito mais do que os costumeiros “toca aí”, eles entrelaçavam música em música num programa que poderíamos crer preparado. Ainda procurei um papel sobre as mesas ou colado num dos instrumentos. Não havia, era puro instinto. Aceitaram só o bis pedido pela Darcy que chegou um pouco mais tarde e teve atendidos seus vários apelos. A plateia, composta pelas esposas dos músicos, por um casal desconhecido, pelo Edinho, pela Darcy e por mim, aplaudia por centenas, preocupados em prolongar a agradável noite.

O couvert artístico não foi cobrado. A banda se contentou com os copos de cerveja divididos entre nós e uma porção de queijo prato quase não tocada por eles. Uma piada diante da qualidade oferecida, sem ônus qualquer, àqueles restritos amigos que tiveram o saboroso privilégio de estar presentes. Fui um deles por mero acaso.

Recebi uma ligação do meu parceiro Marcos Borges por volta das 18:30, quando comia bolinhos de feijoada no Aconchego Carioca da hoje super-bem sucedida Kátia. Ele me convidou para o evento, o que me obrigou a pegar uma carona com o meu amigo Rodrigo para pegar o meu carro, voltar pela Linha Amarela e aportar no cais seguro da minha infância/adolescência.

E valeu demais. Foi uma noite inesquecível, digna de um registro não ocorrido, sequer fotográfico. Mas ficará no meu HD pessoal, armazenando em meus neurônios um repertório de altíssimo nível, a voz suave de quem cantou, os primorosos solos de guitarra, o precioso violão, o rebuscado baixo e a batera perfeita, sem contar as precisas intervenções da cuíca gemendo.

Del Castilho é terra de artistas mesmo. Vai fazer um mês assisti no antigo Imperator o Jorge Fernando, famoso diretor da Globo há décadas e meu vizinho da época antiga. O Zeca Pagodinho, que se chama Jessé e eu conheci quando éramos moleques, escutamos e vemos a toda hora. Aliás, sempre acompanhado do Mestre Paulão, que aparecia quando menino para pedir vaga em nossas peladas, vindo do Jacaré. Tem mais gente, basta buscar na memória. Del Castilho também é berço de bambas. Pronto fiz o nosso comercial. E, antes que me esqueça, valeu rapaziada! Em especial meu parceiraço Marcos Borges, que teve a gentileza de me convidar.

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