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Mais um FLA x flu

Pai, bom dia. Tudo bem por aí?
Mais um FLA x Flu decisivo, parecido com aquele de 15/12/63, e eu estive no Maracanã.
Agora transmitem pela TV a cabo, uma novidade dos tempos atuais.
Em razão de um litígio pelo valor a ser pago ao Flamengo, não houve transmissão.
Aliás, depois de sua passagem em 1972, houve muitas inovações.
Só a título de exemplo, tenho um pequeno aparelho com 1001 utilidades e não é o Bombril.
Com ele vejo TV, jogos e filmes, escuto rádio, compro de tudo, transfiro dinheiro, faço fotos e vídeos, consulto enciclopédias melhores do que a Barsa e a Mirador juntas, em qualquer idioma, não preciso perguntar nada a ninguém, nem o caminho para qualquer lugar. Até uso como telefone, mesmo em movimento, não importa aonde eu esteja.
Impressionante, não?
A ciência também evoluiu demais na área médica e faz tempo mantenho a minha pressão em 12:8, através de modernos medicamentos. Teria sido ótimo para você.
Enfim, tem sido gigantesco o progresso da tecnologia e das ciências em geral.
Só o que não evoluiu foi o ser humano.
Ao contrário, regrediu a níveis impensáveis e sem limites. A cada dia pioram a humanidade em geral e os políticos em particular.
Também só a título de exemplo, outro dia mais uma vez me deprimi numa das centenas de fast food do RJ.
Fast food é um bar especializado em lanches rápidos e diversos, funcionando em lojas amplas e facilmente acessíveis.
E lá estava eu fazendo um lanche, quando entrou um rapaz para se esconder da chuva. E embora bem longe da praia, estava descalço e sem camisa. Entrou na lanchonete disfarçadamente, se esgueirando pelas mesas até chegar a uma lixeira.
Selecionou restos de comida e escolheu um copo julgado menos sujo ou mais higiênico. Foi até a máquina de refrigerantes (outra hora lhe explico o que é isso) e encheu o copo como se tivesse pago.
Saiu muito rápido sem dar tempo de ser interpelado, nem por algum cliente que pretendesse pagar um lanche decente para ele.
Pois é, pai. Lembrei de lhe ver pagando refeições a estranhos, mas em raras situações.
Hoje, a cena carioca é ocupada por milhares de pedintes esfomeados, velhos e jovens, mães menores de idade e crianças subnutridas. Imagine a cena de outras cidades.
O esgoto, mesmo aqui no RJ, corre a céu aberto e a água do Guandu, maltratada em todos os sentidos, não se pode mais beber.
Enquanto isso, vemos ricos mais ricos e pobres muito mais pobres, a começar das nações.
A África, e não mais apenas ela, está tragicamente espoliada.
Enfim, a raça humana se mostrou um projeto mal sucedido, com as diferenças absurdamente maiores.
Inclusive no futebol, onde o Flamengo se distanciou um abismo dos seus adversários.
Mas esse esporte gosta de aprontar surpresas, você sabe, e por isso fui ao Maracanã. Fui apoiar o MENGÃO. Eu e a maioria esmagadora presente ao estádio, para variar.
Vocês jogavam pelo empate, o inverso de 1963, e isso deu mais emoção ao clássico.
É quando viajo ao passado, à minha infância fantasiosa, à minha adolescência criativa, à minha juventude sonhadora, quando pensava possível mudar o mundo para melhor.
Naquela época, pelo menos, o Maracanã era frequentado por todos, o povão pagava pouco pela Geral e às vezes conseguia ir de Arquibancada.
Assistiu o jogo, pai?
Gostei demais.
Lembro sempre de você.


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