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Eu teria um desgosto profundo…

Nosso hino foi tão caprichado pelo Lamartine que poderia ser definido num verso: Eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo. Mas o brilhante compositor se esmerou e fez uma obra-prima, na letra e na melodia. E encerrou com a pérola: Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Aí divirjo do poeta. Serei Flamengo após morrer, serei Flamengo em todas as minhas próximas reencarnações.

2019 foi um ano para se recordar em futuras encarnações. Para os descrentes, até os últimos dias dessa passagem por aqui.  Vale para cada rubro-negro, as crianças, os adultos, os idosos, os muito idosos. Sempre acompanha o torcedor do Flamengo uma aura de otimismo desenvolvida por mais de um século de conquistas memoráveis, de alegrias gigantescas, de vitórias consagradoras. A alma rubro-negra se reveste de um estado de espírito único. A anima da Imensa Nação é um conceito filosófico regido pela anima do multiverso, uma força indescritível. Diz-se que o rubro-negro se suicida pulando do alto do seu ego, tal qual os argentinos.

Segundo o incomparável Nelson Rodrigues, “Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda, mais dilacerada ou mais santa. Só sei que é diferente”.

Grito MENGO aos quatro cantos do mundo desde aquele distante 15/12/1963, quando presenciei a decisão do Carioca, na minha primeira visita ao Maracanã. Comecei naquele dia, nos ombros do meu contrariado pai, no Maior Estádio do Mundo. Ele, tricolor, filho de portugueses, a exemplo do clã dos Coimbra. Eles, rubro-negros lusitanos, geraram e criaram o nosso ídolo maior, Arthur Antunes Coimbra, o Zico.

De lá para cá gritei “É CAMPEÃO” vezes incontáveis, por toda a minha vida. Vi o time espetacular do Zico ganhar tudo em 1981, eternizando o ano de nascimento da minha primogênita. Vi o timaço de 1987 desfilar craques de seleção do goleiro ao ponta-esquerda e conquistar, contra adversários de alto nível, um título que a burocracia jamais vai nos tirar.

Já me sentia quase um Highlander em vermelho e preto, quando o destino agora me propiciou outra enorme felicidade. Vivi para ver o meu clube de coração dar um salto de qualidade e voltar a ser uma potência mundial no esporte. E quis o destino, numa incrível reviravolta da história, que fosse nosso guia um português, neto de brasileira, de nome Jesus e com Deus de auxiliar. E Jesus vestiu o Manto Sagrado para nos conduzir aos céus ou rumo às estrelas, ad astra em latim, como um dos bons filmes desse ano.

Antes, o meu Flamengo saneou suas dívidas enormes e antigas para pavimentar uma trajetória ainda mais significativa do que eu julgara possível. É o nirvana dos torcedores apaixonados, a glória maior de quem sobreviveu a um país que permanece insepulto depois de assassinado pelos corruptos.

Vivo o êxtase de ter o Flamengo no coração, um órgão pulsando num corpo a se desviar das balas perdidas numa cidade maravilhosa por natureza, mas dizimada pelos governantes e pelo povo. Um paraíso destroçado pela falta de educação, pela inexistência de cidadania, pela tirania da violência urbana. Sobrevivo num país desigual, onde um povo sofrido espera inerte por uma milagrosa transformação estrutural semelhante à providenciada pelo Flamengo

Dizem ser o futebol a mais importante das coisas desimportantes. Aos 63 anos, desiludido com o meu país, com a minha cidade e com a inércia do povo brasileiro, tenho o Flamengo como válvula de escape. Eu e quase cinquenta milhões de rubro-negros. Talvez por isso as coisas não mudem. Ou quem sabe o modelo do clube mais popular do planeta sirva de inspiração para mudarmos a história?

Esse magnífico e antológico 2019 findou após nos brindar com quase todas as conquistas possíveis. Mesmo reconhecendo a tristeza de uma derrota como a da final do Mundial, mostramos ao planeta a força do futebol brasileiro.

Depois de décadas, um time sul-americano enfrentou o melhor europeu de igual para igual, até a prorrogação. Não jogamos qual morcegos, com os onze dependurados em nossa trave a aguardar um contra-ataque mágico. Nós, os melhores do continente, confrontamos um time reunindo os melhores jogadores do mundo e vendemos caro a derrota.

Maior tristeza do que perder uma final de outro patamar é ver 2019 acabar. Entretanto, a causa é justíssima.

Embora Einstein rotulasse o tempo de ilusório, ele passa e nós também.

Assim, que venha 2020.

E agora, Flamengo, o seu povo pede tudo de novo.


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