Home » Textos » Raça fracassada

Categorias

Arquivo do Site

Raça fracassada

Desde os primórdios da civilização, o homem se esmera em destruir. Não importa o quê, natureza, meio-ambiente, vidas, monumentos, ideias ou esperanças. Mesmo antes de Abel, o ser humano esfaqueava o irmão, a alma, o sonho, o futuro, o destino.

O aprimoramento de artefatos, planos e inspirações costuma trazer em seu bojo uma às vezes oculta intenção de prejudicar alguém em prol de seus interesses. Esses, por mais próximos da realização estivessem, jamais satisfizeram ou satisfazem à ânsia devastadora da espécie humana.

Não se trata apenas da imperfeição, mas da volúpia insaciável de progresso pessoal, uma sede incomensurável de desejos inalcançados e desnecessários. A natureza humana não se conforma em saborear o êxito, precisa superá-lo ainda que em prejuízo alheio. Somos um projeto mal concebido.

Há quem atribua o controle a seres superiores, de aspectos, espectros e localizações diferentes, bastando assumirem as vicissitudes, os arroubos e as ganâncias nossas de cada dia. Se não as atendem, resta apenas a opção de trocá-los por outros e outros, até acomodarem as impropriedades e os devaneios de quem busca referendar seus atos.

O homem sequer se apercebe da nobreza das atitudes mais próximas, preferindo a vileza dos descaminhos e a amargura das incertezas. O aconchego ele confunde com a imobilidade e o amor com a pieguice.  São prioritários o realismo e a praticidade, a qualquer preço, quando os objetivos traçados estiverem em jogo.

Assim seguimos o caminho inexorável da infelicidade, disfarçada de quando em vez por pequenos e paliativos alentos, eles mesmos cúmplices da amargura e do desapego. Somos uma raça fadada ao fracasso, à comiseração e ao oportunismo.

Queremos o impossível e para tal nos submetemos a desvios de conduta, maiores ou menores. Convictos de nossas idiossincrasias, permanecemos no trem da vida enxergando a felicidade como a parada seguinte e mais distante, enquanto a plenitude está presente em todas as estações, desde a primeira.

Aguardando por ela, chegamos aos nossos últimos dias com a inabalável e equivocada crença de termos feito o melhor.


Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *