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Até tu, Brutus?

Estamos começando aquele período enfadonho e prolongado entre o Carnaval passado e o próximo, diriam os súditos de Momo. Fato é que, em terras brasilis, somente a partir de agora a vida segue o seu rumo normal. Mas 2019 insiste em se mostrar catastrófico, com as tragédias se revezando como se quisessem furar uma hipotética e interminável fila. Por aqui, onde as mortes em escala viraram uma espécie de passatempo do destino, esse ajudante de palco do ilusionista preferido de todos nós, o tempo. Sem distinção, anônimos ou célebres são escolhidos na plateia do teatro da vida, assumindo o protagonismo de enredos nefastos sequer ensaiados. Nem bem nos recuperamos de um e aparece outro para nos encurralar nas cordas de um ringue sedento por sangue.

Enquanto isso, nos corredores felpudos da Ilha da Fantasia, as aranhas negras tecem novas teias para nos capturar a todos. Fios envolventes como os discursos solenes, malhas asfixiantes como as leis discriminatórias, mal disfarçadas como a Capitu machadiana e seus olhares de cigana oblíqua e dissimulada. A peçonha dos algozes, entretanto, sempre é a mesma. Não trabalham tanto quanto as formigas, mais cantam como cigarras, mas se empenham muito quando lhes interessa, em acordos espúrios noturnos, diurnos ou vespertinos. Tramam as teias qual contratos indissolúveis, benéficos para poucos e extorsivos para os insetos em busca de inatingível salvação.

As fábulas de Esopo e seus bichos falantes datam de 620 A.C., antes mesmo de Caius Julius Caesar. O imperador Júlio César foi assassinado em 15 de março de 44 A.C., num complô tramado por senadores da Antiga Roma, incluindo o próprio filho adotivo da vítima, Marcus Junius Brutus. A ideia do assassinato em grupo foi impedir a identificação do autor do crime, tantos foram os esfaqueadores do Imperador. À morte, Julius Caesar teria exclamado: “Até tu, Brutus?”, expressão repetida hoje quando há “fogo amigo”.

Cansado de ver tanta injustiça, de testemunhar tanta iniquidade, às vezes me flagro refletindo. Por que o povo não encarna o espírito do senado romano em 44 A.C.? E imagino milhões de Brutus naquela multidão sem rosto, os desassistidos, as vítimas de uma legislação entorpecida por décadas de proteção aos mais fortes, ricos e poderosos. Sonho com milhões revoltados contra a tirania, não a do imperador Júlio César, mas a tirania dos encastelados em todos os poderes da República Brasileira. Tenho uma felicidade orgásmica ao projetar a morte desses usurpadores de nossa infância, de nossa juventude, de nossa vida, enfim, da nossa alegria.

Eles lembrariam, pouco antes do último suspiro, que deveriam zelar pela instituição de um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias. Afinal, todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

Naquele momento crucial, percebendo o aproximar do fim, ao encararem cada um dos carrascos sem face, todos os brasileiros, inobstante credo, raça, cor, gênero ou classe social, os tiranos de nossa Pátria murmurariam surpresos: “Até tu, Brutus?”.

 


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