Home » Textos » Indignação

Categorias

Arquivo do Site

Indignação

O administrador da página do meu blog insiste em me enviar avisos automáticos. Ele sinaliza que os leitores estão sentindo falta de novas postagens. Pois não se trata de preguiça ou de falta de tempo. Afora os graves dissabores com o meu desgastado notebook, ando muito indignado com a recorrência dos fatos lamentáveis a me cercarem dia após dia. Falando nisso, me vem à mente a frase: “Não reclame da vida. Dias ruins são necessários para os dias bons valerem a pena“.

Ainda assim está bem difícil. Por ironia, fui motivado a escrever hoje por mais um desses absurdos exemplos. Se não foi o pior durante o meu silêncio, transbordou o meu copo de fel. Soube agora pela manhã da crueldade extrema contra um animal no Parque Guinle. A fêmea do casal de cisnes negros, Romeu e Julieta. Ela chocava os seus ovos e cuidava da ninhada anterior, quando um(a) desqualificado(a) a esfaqueou no peito várias vezes. Embora socorrida mais tarde, Julieta não resistiu ao ataque.

Fiquei impressionado com tamanha brutalidade, apesar da lama em Brumadinho, das prováveis centenas de mortes naquele crime ambiental e outras muitas perdas de vida num ecossistema tão pujante. Sim, a Julieta se restringe a uma ave, mesmo que rara. Mas a agressão inusitada, inobstante menos dantesca do que a produzida na Barragem da Mina do Feijão, me doeu qual um dedo introduzido na enorme ferida exposta há menos de uma semana.

Já desacreditei da Humanidade faz tempo, ao desistir de esperar mais de seres tão impiedosos, frios e calculistas. Repito como um mantra “quanto mais conheço os homens mais eu amo os animais”. E me indignarei sempre com cenas como essas, de Brumadinho e do Parque Guinle, a despeito das evidentes diferenças de causas e de efeitos.

Convivemos numa rotina de mortes violentas, passionais ou não, pelas ruas, pelas casas, pelos parques, serras, planícies, matas, rios e mares. Inexiste o apreço pela vida, pelas espécies, pela poesia da natureza como um todo. As pessoas se mostram egoístas, indiferentes e, sobretudo, perversas. Abandonam filhos, animais de estimação, plantas, enfim, em qualquer circunstância que lhes sugira maior interesse pessoal.

Por essas e outras demoro a escrever. Inspiração desse embate de naturezas me parece mórbida. Natureza humana contra a Natureza na qual ela está inserida. Aliás, segundo Hubert Reeves, astrofísico canadense:

“O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível, sem perceber na própria Natureza assassinada o Deus invisível adorado”.

https://youtu.be/OfFS4Lu83EY


Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *