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Lá vem o sol

Fiz essa foto com o meu celular, ontem ao fim da tarde, sentado à beira da piscina. Foi um momento de abstração ao lado da mulher amada. Os reflexos esmaecidos do sol prenunciavam o crepúsculo e me estimularam a refletir também. A metáfora do nascer e do por do sol permanece inspiradora. Faltam tantos queridos ao meu redor, verdade. Há muitos senões, óbvio. Projetos incertos, perspectivas difíceis. Afinal, o que nessa vida podemos considerar certo?

Por favor, recuse aquela tradicional resposta. O nascente e o poente do sol são as certezas mais prováveis em nossa caminhada. O desafio posto: quantos deles ainda veremos? Exceto no caso de um cataclismo indesejado, continuarão a se repetir as cenas maravilhosas desse fato rotineiro no equilíbrio das galáxias. Além das explicações científicas, a simbologia do astro-rei, do levante ao ocaso, influencia a nossa imaginação. Sabemos todos, hoje com absoluta precisão, o horário desses espetáculos da natureza. Mas poucos podem ou querem se deter para apreciá-los. Raros os dispostos a reverenciá-los com um aplauso. Correm o risco de serem julgados piegas ou insanos.

Nossa existência, efêmera por definição e fugaz por extensão, não se digna a contemplar coisas simples. Ou melhor, não valoriza detalhes repetitivos, sejam eles os mais singelos ou os mais espetaculares. Acordar virou um lugar comum, por vezes indesejado mesmo, diante de responsabilidades e compromissos.  Respirar, enxergar, ouvir, falar, andar, enfim, viver, tudo não passa de uma sequência automática e talvez enfadonha. Até algo nos impedir de fazê-los. A vida realmente é um mistério. Parece antagônico, porém, ela pode ser simples como abrir os olhos e complexa como não poder abri-los mais.

Assim é a gratuita apresentação solar, diária e fabulosa, fonte de inspiração de poetas, pintores e fotógrafos. As eras serão sempre insignificantes à sombra de seus raios indizíveis; as cores lhe seguirão submissas como a paleta de um gênio: os pássaros permanecerão fieis à sua batuta para entoar os cantos adequados ao seu ir e vir; os relógios respeitarão suas ordens e os calendários se curvarão aos seus ditames.

Na tarde desse 31 de dezembro do 2018 criado pelo papa Gregório, quando a última trajetória da força motriz de nosso sistema estiver percorrida, dedique ao evento alguns poucos minutos de sua atenção. Admire com êxtase a beleza de tal esplendor, agradeça estar vivo e consciente para observar essa maravilha, aproveite a sua visão para fixar na memória um quadro indescritível.

Esteja convicto, ao raiar do dia, o alvorecer descortinará o ano seguinte. Saboreie com plenitude esse momento e se considere um escolhido ao contemplá-lo. Há quem o chame de felicidade, muitos o denominam destino, alguns de lapso, raros de eternidade. Mas é só o tempo, finito para nós e irrestrito para os imortais.

Você jamais saberá quando será possível outra vez. Por isso lhe desejo o privilégio de acompanhar muitas vezes o caminho do sol do oriente ao ocidente. Vale também para todos a quem você ama e a todos os que lhe amam.

Aproveite 2019 da melhor maneira.

 


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