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Todo dia

 

Travo uma luta diária contra o negativo. Busco no entretenimento e no amor, não necessariamente nessa ordem, um refrigério para esse deserto de paz e de alegria. A felicidade exige de mim além da abertura de janelas do Windows ou de apenas escancarar as janelas da vida, deixando entrar o sol e o canto dos passarinhos.

Os otimistas definem o simples despertar como divino, os pessimistas espreitam ameaças e os realistas enxergam desafios. Depois do mar revolto entre vida e morte ser aberto e da caminhada incólume até alguma terra prometida, ainda há árduas batalhas a enfrentar. Pois sigo defeso com as armas de Jorge e com elas enfrento os seres ditos humanos, verdadeiros dragões insaciáveis.

As alegrias são ministradas em doses esparsas e homeopáticas, cujo sabor nos impõe degustação lenta e gradual, num exercício de moderação, comedimento e êxtase. Na tentativa permanente de manter o astral elevado, o meu artifício se espelha no avestruz. Imito o pássaro e enfio a cabeça num buraco, ao menor sinal de notícia ruim, de tantas obtidas no zapear do controle remoto, nos dribles mal dados nas pessoas sem noção e nas passadas menos largas do que as do destino..

A tortura não vivida, mas até hoje citada pelos arautos do terrorismo, faz parte desproporcional da mídia oportunista. A mesma caixa de ressonância sensacionalista a aumentar audiência, expondo todo dia a tragédia humana. Massacra a alma ver, apenas por relance, as cenas dantescas dos maus tratos à cadelinha Manchinha; o quadro degradante e sub-humano da recém-parida Dalila no chão de um hospital municipal carioca; a emblemática imagem do menino imigrante sírio afogado numa praia turca, dentre tantas e diárias armadilhas plantadas pelos dragões da infelicidade.

O meu complexo de avestruz está exacerbado e incontrolável. Já não qualifico mais a raça humana. Ela morreu e foi substituída por hordas de selvagens, animais irracionais de classes diferentes. Há os enriquecidos graças ao flagelo de seus semelhantes, inclusive curandeiros estupradores de corpos e de almas. Travestidos de importantes, verdadeiros pacotes de escória embrulhados em papel de presente, se encastelam no poder e subjugam os demais. Outra classe, a dos subalternos, inveja a classe dominante, querendo trocar de posição. Ávidos por subirem na cadeia alimentar, se esmeram em maltratar ao máximo seus iguais ou, na falta de alguém, atacam seres indefesos, buscando acumular pontos nesse jogo infame.

Impossível ser feliz convivendo com isso dia após dia. Não tenho pressa de encontrar as tais virgens, não tenho moedas para o barqueiro, não anseio pelo brilho da tal luz extasiante. Só sei estar cada vez mais difícil suportar o entorno. Descreio, há mais ou menos tempo, das bruxas, das divindades, do coelhinho da Páscoa, da estrela cadente e do Papai Noel. Desconfio até dos votos de Feliz Natal e da certeza de um Ano Novo melhor. Só quero seguir em frente e descobrir que estou errado sobre a humanidade.


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