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Agosto de quem?

Sem me dar conta, surgiu agosto em 2018 e lá estava eu no olho de um furacão inclemente e indomável. Parecia um bêbado brigando com capoeiristas num piso ensaboado. Levantava para cair de novo. Perdi pessoas queridas, bateram no meu carro três vezes, problemas de todas as naturezas, um vendaval completo. Eu não via chegar o dia 31, não conseguia adiantar o calendário. Não há descarrego com sal grosso, arruda, alecrim ou alfazema que dê jeito. As cobras criaram asas e vieram na jugular. Aí não tem como apelar para o torniquete.

Mas agosto não terminara e enfim chegou a véspera do seu desfecho. Pois foi exatamente nos estertores desse dito inferno astral que o mês dos meus pesares virou o jogo. Não, nada do ocorrido mudou. Ainda assim, um e somente um evento transformou a minha impressão sobre esse lapso de tempo.

Uma confraternização de inacianos em torno da nossa coordenadora dos tempos de escola, a querida educadora Blandina Neder, lavou a minha velha alma e reenergizou o corpo cansado de apanhar. Rever a D. Blandina me fez surfar nas ondas do Tuta, sorrir com as piadas do Beteille, escutar as gargalhadas do Flávio Couto e vibrar com os dribles do Cabral e do Pedrinho. De bônus, depois de décadas, direct de Paris, a Tatiana Junod; da Paulicéa Desvairada, o Chachaa, do Rio, a Regina Ottoni.

Mais do que beijar e abraçar a D. Blandina, lhe repeti a minha eterna gratidão por me apoiar num momento gravíssimo da adolescência. Em abril de 1972, perdi o meu pai de forma prematura e não poderia me manter no Santo Inácio. Retornei à escola dois dias após o sepultamento, com a exclusiva intenção de me despedir dos colegas. D. Blandina me chamou à sala da coordenação e me comunicou ter conseguido a concessão de uma bolsa de 100% até o fim do curso. Vive-se uma vida inteira sendo impossível retribuir algo dessa natureza.

Por coincidência, no sábado passado, reencontrei uma amiga de longa data no brechó “Bazar do Desapego. Em meio a roupas, bolsas e acessórios de vestuário à venda, ela me brindou com uma pérola: “com a velhice, aprendi a só me apegar a pessoas”. Eu costumo repetir a citação “quanto mais conheço os homens, mais eu amo os animais”. Há poucas, diria raras, exceções só para confirmar a regra. Uma delas é a D. Blandina.

Depois de um mês terrível, o penúltimo dia resgatou o meu amor próprio e o meu otimismo. Fui encantado pela simpatia e pelo sorriso daquela senhorinha de 93 anos, com o mesmo semblante de quarenta anos passados. Nesse tempo todo, a vida material e louca nos manteve distantes, a despeito de um e outro fugaz encontro. Grave erro. Devemos e podemos manter vivas as nossas memórias, é só querer.

Mal chega setembro e um descaso semelhante precisou de apenas algumas horas para devastar 20 milhões de itens e apagar 200 anos de nossa história. Se eu vou completar 62 anos daqui a alguns dias, a tarefa do destino parece muito mais fácil. Parece, mas setembro está apenas começando. Afinal, a vida muda a cada segundo.


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