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Dona Isolda

Já se passou mais de meio século e as memórias estão nítidas, cristalinas. Eu não conseguia sair da escola para almoçar em casa e descansar um pouco antes de voltar para o segundo turno. Morando muito longe, era impossível ir e voltar a tempo. Alguns colegas mais chegados facilitavam a minha vida, acolhendo esse suburbano em suas casas.

Cada uma das muitas vezes que cheguei àquele apartamento, num prédio da rua General San Martin, encontrei uma família tão receptiva quanto a minha. Lá estavam, além do Dudu, seus irmãos Renatinho e Maninha, e seus pais, Sr Renato e D. Isolda. Sempre me senti à vontade, sendo tratado como irmão e filho, respectivamente.

O Sr Renato, salvo engano engenheiro da área pública, exibia um bom humor permanente. Orientava com um ar professoral, com um temperamento ameno e flexível, sem deixar de lado a cobrança e a sinalização do caminho correto. Mesmo nas piadas frequentes, apareciam as lições. Talvez a razão mais significativa desse perfil estivesse muito mais próxima do que eu imaginava. Ao lado dele estava uma mulher admirável, embora escondida sob uma capa de simplicidade.

A D. Isolda cativava as pessoas com um sorriso suave e cheio de ternura. Dona de um olhar profundo e de uma compreensão generosa, aquela senhora miúda parecia uma gigante aos meus olhos. Ela transbordava sensibilidade e percepção, usava de psicologia no trato de todos, inclusive eu, embora não consanguíneo, pois me sentia protegido demais com aquela absoluta naturalidade.

Da D.Isolda desde a primeira vez recebi um abraço maternal e um beijo de boas-vindas. Isso jamais me passou despercebido. Ao contrário, me impregnou de simpatia e de aconchego, estimulando a minha descontração e a certeza de contar com um oásis de acolhimento em meio a um deserto de diferenças.

A vida, acelerada e obcecada pelos aspectos materiais, nos inocula o vírus do sucesso, contaminando pelo egoísmo e pelo distanciamento. Reencontrei a D.Isolda no aniversário do Dudu há dois anos, portanto décadas passadas desses fugazes, ainda que preciosos, momentos vividos na minha adolescência. Fiz questão de abraçá-la e de beijá-la de novo. Logo em seguida, tive a convicção de ser tardio. Tantos anos perdidos nesse afastamento empanaram o brilho daquele olhar singelo, confundiram os pensamentos, fatos e lembranças. Pagamos por alguns erros um preço caríssimo e irreversível.

Hoje pela manhã me avisaram da passagem da D. Isolda. Soube ter sido suave como a sua existência e, em especial, cercada pelos mais próximos e mais queridos. Agora não há mais o que dizer, exceto confessar uma saudade agravada pelo arrependimento. E, o pior, nada adianta.


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