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As montanhas estão vivas

De uma trajetória exitosa se diz ter um “brilho especial”; ao passante de caminhada significativa qualificamos como um “ser de luz”; no trajeto de legado incomparável, atribuímos ao dono das pegadas uma “luz eterna”. Se os criadores da Sétima Arte foram os irmãos Lumière, me parece justo adotar para alguns filmes o rótulo de “luz eterna”. Esse o caso do primeiro filme assistido por mim, o inesquecível “A Noviça Rebelde”. Eu era menino e meu pai me levava ao cinema, todo primeiro domingo do mês, para acompanhar os “Festivais Tom e Jerry”. Mas a minha estreia em filmes se deu no clássico de Robert Wise, ainda na década de 60, completando 53 anos em 2018.

A minha primeira vez cinematográfica ocorreu onde hoje é o Teatro Riachuelo. Lá, na Cinelândia, funcionava o Cine Palácio, além do Odeon, do Metro Passeio e de outros. Eu não completara dez anos de idade e o dia foi de muito deslumbramento. Acostumado aos desenhos animados na telona e aos bangue-bangues na TV, onde os cowboys davam “cem tiros de uma vez”, a fotografia, a sonoridade e a mensagem daquela obra-prima dos musicais tiveram um enorme impacto na minha formação cultural.

Logo na abertura do filme, no primeiro verso, “The hills are alive…” ecoa na voz magnífica da incomparável Julie Andrews, tendo ao fundo os alpes da Baviera, mais especificamente Obersalzberg. Impossível esquecer cada uma das cenas até hoje, ainda que não as revisse repetidas vezes ao longo da vida. Sábado passado, em excelente companhia, tive o privilégio de assistir ao mesmo musical, agora no palco da Cidade das Artes. Foi tão ou mais emocionante quanto a ida ao Cine Palácio. Os meus quase sessenta e dois anos não impediram as lágrimas furtivas, num misto de nostalgia e de felicidade. Saí de olhos e de alma lavada, enxaguados mesmo.

A emoção em cada música me recordava o meu pai e o quanto ele foi significativo na minha formação cultural, nesse caso específico das artes, da música, do cinema. Nos meus tenros nove anos, ele me encheu os olhos e os ouvidos com uma obra histórica, Não apenas isso, em seguida ele me deu o LP com a trilha sonora do filme. “A Noviça Rebelde” passou a fazer da discoteca, se juntando a tantas outras pérolas das trilhas sonoras, como “Hatari”(Henry Mancini), Butch Cassidy e Cassino Royale(Burt Bacharach), de música erudita(Mozart, Beethoven, Vivaldi, Brahms e todos os grandes), jazz(Nat King Cole, Sinatra e outros), grandes orquestras(Bert Kaempfert, Billy Vaughan, Franck Pourcel, Ray Conniff, Percy Faith, Paul Mauriat, Herb Alpert e outros) e muita MPB.

Outro Dia dos Pais para relembrar um legado importante, embora fugaz, nesses mais de quarenta e cinco anos sem o meu pai presente. Todos os filhos de pais ausentes sabem disso, para o bem ou para o mal. Alguns pais são ídolos dos filhos, outros são exemplos e muitos são lembranças. Essa data jamais foi somente um apelo mercadológico para mim, pois sempre dediquei e dedicarei a esse dia momentos para reflexão e para recordações , brindando de forma silenciosa ao meu pai, uma pessoa com inteligência diferenciada, um homem à frente do seu tempo. Nesse aspecto guardo as melhores memórias dele, a despeito das falhas inerentes a qualquer ser humano.

Em mim, em meus filhos, em meus netos, enfim, em toda a minha descendência, ele estará vivo como as montanhas austríacas.

 

 


1 comentário

  1. Antônio Marcos da Silva Moreira diz:

    Mais um texto marcante.
    Adoro este filme.
    Abração.

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