Home » Textos » Um sonho canadense

Categorias

Últimos Comentários

Arquivo do Site

Um sonho canadense

Escutando Rick Wakeman tocar “Morning has broken” do Dylan, algumas reflexões me vêm à mente. Depois dos sessenta anos, o tempo fica mais arredio e intempestivo. Percebemos com nitidez maior o aumento da velocidade desse inimigo confesso desde o nosso nascimento. Por essas e outras, ficamos muito mais seletivos e exigentes, afinal, desfrutar da vida vira prioridade absoluta.

Estou em Vancouver há vinte e dois dias. Não fosse a ausência da minha mulher, da minha filha, de entes queridos, dos meus amigos e dos meus cachorros, eu diria viver num mundo perfeito. Voltarei em mais algum tempo, feliz pelo reencontro com essas ausências sentidas, mas mais indignado do que no ano passado. De lá para cá o meu país só aprofundou suas mazelas, enquanto por aqui as coisas só evoluem.

As lições canadenses de cidadania, de desenvolvimento, de patriotismo, de organização, de segurança, de cultura, de educação, enfim, do que se possa imaginar, me mergulharam numa realidade paradisíaca. Sinto não ter feito a opção do meu caçula há mais tempo. Perdi uma grande parte da minha existência acreditando em mudanças impossíveis no passado, no presente e no futuro. Perdi também uma boa parte do meu futuro, consumido pelas idiossincrasias de um país devastado pela corrupção e pela injustiça social.

Soa bastante incompreensível o fato do Canadá ter cento e cinquenta anos, portanto quarenta e cinco anos a menos do que o Brasil. Seu descobrimento remonta mais ou menos ao mesmo período da chegada das naus portuguesas à Bahia, embora haja registros dos vikings em terras canadenses por volta do século X.

Entretanto, nada justifica termos um PIB per capita de US$ 10 mil(62°) e eles US$ 50 mil, um IDH de 0,75(79°) e eles de 0,92(10°), só para ficar nesses dois índices. E eles têm 10 milhões de km quadrados de área contra 8,5 milhões nossos, com uma população de 36 milhões de habitantes contra os nossos quase 210 milhões, reduzindo a densidade demográfica para 4 habitantes canadenses/km2 contra os 24 habitantes brasileiros/km2.
Hoje, convicto de não ter vivido como poderia e merecia, lacuna extensiva às pessoas amadas, me vejo obrigado a tentar recuperar um pouco do muito perdido.

Viver num país como o Canadá, em especial em Vancouver, virou mais do que meta de vida, mas uma obsessão tardia. É difícil falar sobre conjecturas e probabilidades, porém se faz impositivo envidar os mais empenhados esforços.

Os riscos assustadores de permanecer no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, encurtam as perspectivas de qualquer um. E, na minha idade, não posso mais jogar com a sorte. Preciso correr contra o tempo e me manter vivo até conseguir realizar o meu sonho. Aliás, um homem não vive sem sonhos.

Depois de todos esses dias lindos de sol brilhando, Vancouver ficou mais fria e começou a chorar pela proximidade do meu retorno ao Brasil.

É muito compreensível.
Mas vou consolá-la até ir embora em poucos dias.
Ela sabe que meu coração ficou no Brasil e preciso dele para viver.
E também não tem qualquer dúvida de que voltarei um dia em definitivo.
Até lá vou revê-la outras vezes.

Enquanto isso, um apelo para o Brasil na magistral interpretação do Rick Wakeman de um clássico dos Beatles.


Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *