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A cura pela música

Acione o video e leia o texto ouvindo o som. Se quiser ver os detalhes do vídeo, assista depois, com calma. 

                                                                                 Foto: Marcos Hermes

A boa música, a exemplo dos melhores perfumes, das imagens, dos sabores, dos amores e dos grandes prazeres em geral, nos teletransporta a lugares e tempos distantes, inalcançáveis em tese. Testemunhar uma apresentação ou apenas ouvir a guitarra de David Gilmour pode nos deixar “confortavelmente entorpecidos”. Talvez por essa razão, ao me autodefinir um ser musical, fui inoculado de uma dose de vantagem sobre os demais no quesito felicidade.

Tenho plena convicção de me reenergizar a cada show de alto nível ao qual tenho o privilégio de comparecer. A minha simples presença naquela atmosfera mágica interage com o todo e me faz parte de cada acorde, luz ou dança. Vivo a experiência de integrar um conjunto indissolúvel de cores, notas musicais e coreografias.

Eu esperei desde 1977, depois do show do Genesis no Maracanãzinho, quando compareci com rubéola. Um lapso de quarenta e um anos e, de repente, auxiliado por uma bengala o Phil Collins pisou no palco do Maracanã. De súbito passei a pertencer a uma dimensão específica. Recriado numa vibração, num comprimento de onda, num prisma, num ou vários passos sincronizados, me senti o dono da noite. Assim o apoiei no longo caminho até a cadeira, como se lhe indicasse o atalho à genialidade.

Tentei resgatar o incomparável caminhar do vídeo “And then there were three”, substituindo Mike Rutherford e Tony Banks, liderando a fila para o astro chegar a salvo em seu trono. De lá o velho Phil reinou supremo e absoluto, conduzindo dezenas de milhares de almas ao delírio, mesmo sentado, num espetáculo magistral.

Confesso me enternecer demais nessas ocasiões, diria ao extremo, se consideradas as seis décadas vencidas de vida. Nesse emaranhado de lembranças nostálgicas, em meio ao furacão de imagens, surfo o mar de ondas sonoras e desembarco na praia à qual pertenci sempre. Olho o meu entorno e vejo cumplicidade. Na felicidade dos milhares de amantes da excelência musical, encontro a semelhança dos curados, a redenção dos amargurados, o êxtase dos sequiosos.

Ninguém pensa como chegou até ali, superando as incertezas de uma cidade violenta e cruel, sob a ameaça de uma nova tempestade devastadora pelo despreparo, correndo os costumeiros e diários riscos de morte. A ilusão difusa nos protegeu por um tempo indiferente às mazelas a nos espreitarem logo em seguida. Fomos alvos de uma pajelança, escolhidos por um mago disfarçado, a nos remir pelo divino poder da musicalidade.

Enfim, fomos ungidos por um “Invisible touch”, pela bênção da clave de Sol e de todos os corpos celestes; cumprimos Lá o nosso destino, “In the air tonight”; dispensamos o Dó dos indulgentes das “Separate lives”; “Something happened on the way to heaven” e ultrapassamos a hesitação do olhar para Si; “Take me home” para vencermos a covardia de andar de Ré ; ao invés de Fá, nos enchemos de fé para “Dance into the light”; nem “Follow you, follow me”, nem Mi, éramos nós, éramos todos.

Cantamos, dançamos, sorrimos, choramos de alegria, saudando a cura pela música.

Philip David Charles Collins, muito obrigado por tantos momentos inesquecíveis de plena felicidade!


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