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O Carnaval das Marionetes

Antes de começar a ler, acione o vídeo no final da página e leia o texto ouvindo a música. Se quiser ver as imagens, o faça após a leitura. “Máscara Negra”, composta por Zé Keti e Pereira Mattos, é um ícone dos Carnavais. 

“Não há alternativa, ao término da juventude, do que ter acumulado uma significativa experiência.”                                                                                                                                        Winston Churchill

No balanço de perdas e ganhos, meu maior patrimônio são os meus filhos. Estou convicto de ter criado seres humanos diferenciados. Num mundo desigual e injusto, tenho orgulho ao reconhecer em meus filhos pessoas éticas, honestas e do bem. Com eles jamais tive problemas graves, afora eventuais discordâncias de pontos de vista, naturais do conflito de gerações. Vivem suas vidas com honradez e me basta a felicidade de vê-los compartilhar o mesmo sentimento com outros.

Muitas vezes, entretanto, me pego refletindo sobre o risco ao qual lhes expus, forjando nos meus queridos um caráter destoante numa sociedade corroída por interesses escusos. Carreguei por bastante tempo o temor de tê-los colocado em extrema desigualdade num teatro de guerra pleno de vilezas e de hostilidades.

Aqui, nesse pântano dito Terra Brasilis, não restam surpresas para a voracidade de gente inescrupulosa em todos os poderes, em todos os níveis. Para se locupletarem, há uma permanente disputa pelo poder. Na caminhada, aprendem pela TV, pela internet, enfim, pelos veículos informativos das falcatruas. Entronizados, desenvolvem, compartilham, disseminam o dom com outros canalhas.

Os loucos no poder mundial praticam bullying com a humanidade. Estamos todos expostos, os honestos, os ladrões, os culpados, os inocentes, os assassinos, as vítimas, os enganadores, os enganados, não há exceções. O inimigo comum se esconde no calendário, nas diferentes armadilhas da invenção do Papa Gregório, um falso suceder de prazos e datas. São enganosos os disfarces do destino em busca de se apropriar de nossas vidas no comércio de festas inexatas. No modelo adotado, o ano é novo, as práticas antigas. Aqui, pelo menos, as comemorações soam inadequadas.

Ainda estamos pagando as contas do Natal e do Ano Novo, mas somos marionetes e o titereiro do destino teima em manipular a cruzeta frenética. Agora os cordéis nos obrigam a sambar num Carnaval de alegria hipócrita, a festejar em meio a tiroteios e mortes de inocentes ou não em cada esquina. Afogados num oceano de problemas graves, somos puxados pelos cordéis para emergir apenas para cantar sem saber o porquê e sorrir para as câmeras.

É tempo de cortar as cordas e transformar num mutirão voluntário esses milhões de componentes de blocos de rua e de escolas de samba. Os foliões deixariam de incorporar super-heróis, príncipes, rainhas, pierrôs, colombinas ou piratas. Todos usariam uma fantasia padrão, a de construtores de escolas de verdade, restaurando pela educação e pelo conhecimento o cenário deplorável onde impera essa falsa felicidade. Até concluirmos, deveríamos fazer não um minuto, mas dias, meses, anos de silêncio em protesto pela devastação nossa de cada dia.

Filhos, por favor, me perdoem. Vocês fizeram tudo certo, romperam as cordas das marionetes, saíram do jugo da cruzeta. Jamais desistam, não desanimem, não desalentem. Persistam e prossigam, porque a essência de vocês é eterna. Vocês acalmam a minha consciência e me alegram sem Carnaval.


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